Na contemporaneidade, vivemos uma era marcada pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela baixa tolerância ao sofrimento emocional. Nunca se falou tanto sobre saúde mental, ansiedade, depressão, transtornos e diagnósticos. Entretanto, em meio a essa expansão do debate psicológico e psiquiátrico, uma reflexão profunda precisa ser feita: até que ponto o uso contínuo de medicamentos está realmente promovendo transformação interna, e até que ponto está apenas anestesiando conflitos que continuam vivos dentro do sujeito?
A psicanálise não demoniza a medicação. Em muitos casos, ela é necessária, importante e até indispensável para estabilizar o indivíduo em momentos críticos. Contudo, existe uma diferença entre utilizar o medicamento como suporte temporário e transformar o remédio em moradia emocional. O problema começa quando o sujeito passa a viver em função do diagnóstico, acomodando-se nele como quem encontra uma justificativa confortável para não enfrentar suas dores, responsabilidades e escolhas.
Existe um risco silencioso na medicalização excessiva da existência: o de transformar sintomas em identidade. Quando alguém passa a dizer “eu sou minha ansiedade”, “eu sou meu transtorno”, “eu sou minha depressão”, deixa de perceber que há um sujeito para além do diagnóstico.
A psicanálise propõe justamente o contrário: escutar aquilo que o sintoma quer comunicar. Porque, muitas vezes, o sofrimento emocional não é apenas um defeito químico do cérebro, mas também o resultado de traumas, repressões, conflitos internos, culpas, abandonos, frustrações e dores não elaboradas.
O medicamento pode aliviar a angústia, mas não ensina o sujeito a compreender por que ela existe. Pode diminuir a insônia, mas não revela o que mantém a mente acordada durante a madrugada. Pode controlar crises, mas não necessariamente transforma padrões destrutivos de comportamento. Sem autoconhecimento, muitos acabam entrando em uma perigosa zona de conforto emocional: sofrem menos superficialmente, mas permanecem presos aos mesmos ciclos internos, sem elaboração, sem mudança e sem responsabilidade subjetiva sobre a própria vida.
E talvez este seja um dos pontos mais delicados da sociedade atual: a conveniência do diagnóstico. Para algumas pessoas, assumir plenamente a responsabilidade pela própria história é doloroso demais. Então o diagnóstico passa a funcionar como um esconderijo psíquico. O sujeito se protege atrás do laudo, utiliza o transtorno como justificativa permanente para seus atos, suas ausências, seus fracassos, suas agressividades ou incapacidades emocionais. Aos poucos, deixa de lutar pela transformação porque encontra no diagnóstico uma autorização inconsciente para permanecer estagnado.
A psicanálise nos convida a uma pergunta incômoda: quem é você sem o seu sintoma? O que existe além do rótulo? Até que ponto o sofrimento está sendo tratado… e até que ponto está sendo apenas administrado para que nada precise mudar de verdade?
Responsabilidade não significa culpa. Significa reconhecer que, mesmo feridos, ainda somos participantes ativos da construção da nossa própria existência. O sujeito não escolhe todos os traumas que viveu, mas pode escolher o que fará com eles. E é justamente nesse ponto que a análise pessoal se torna fundamental: ela não oferece atalhos emocionais, mas proporciona consciência, elaboração e transformação genuína.
Talvez seja mais fácil silenciar a dor do que escutá-la. Mais fácil medicar o sintoma do que investigar sua origem. Mais confortável permanecer anestesiado do que confrontar verdades internas. Porém, aquilo que não é elaborado, retorna; muitas vezes em forma de angústia, vazio, repetições destrutivas e adoecimento emocional contínuo.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br











