Neste dia 6 de maio de 2026 tivemos uma importante comunicação científica publicada na revista britânica “Cancer Epidemiology” (1) que trata deste tema das iniquidades no diagnóstico e tratamento do Câncer em nossa cidade. O estudo analisou a partir do Registro de Câncer de Base Populacional de Campinas no período de 10 anos (2010 a 2019) e mostra como a doença afeta desigualmente os mais ricos e os mais pobres no município.
Campinas possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado muito alto (0,805) e uma taxa de urbanização de 98,28%, números frequentemente comparáveis aos de países de alta renda. No entanto, um levantamento epidemiológico minucioso, conduzido por pesquisadores do Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), sediado no Centro de Hematologia e Hemoterapia da Universidade Estadual de Campinas (Hemocentro/Unicamp), revela uma face preocupante: a vulnerabilidade social no município ainda é um fator determinante para a mortalidade por câncer.
Atualmente, segundo o último censo demográfico, Campinas abriga cerca de 1.2 milhão de habitantes. Através dos dados do Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) de Campinas — um dos poucos do país auditados e chancelados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), entidade ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) com sede em Lyon na França —, os pesquisadores mapearam as disparidades no diagnóstico e na letalidade dos tumores mais comuns entre os munícipes: próstata, estômago, mama, pulmão, cavidade oral, colo do útero e colorretal.
O estudo analisou dados consolidados, cruzando as informações do RCBP com o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Governo Federal, e o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), mantido pelo Governo do Estado, para avaliar a incidência e a mortalidade por câncer, lançando luz sobre como a doença afeta de maneira desigual no mesmo município. Para fins estatísticos, foi utilizado o Índice Relativo de Desigualdade (RII), que quantifica a magnitude das desigualdades em saúde, ordenando os estratos sociais da menor para a maior vulnerabilidade socioeconômica com base na distribuição cumulativa da população. No estudo, o RII foi aplicado para avaliar as disparidades na incidência e na mortalidade por diferentes tipos de câncer em Campinas ao longo de dois recortes temporais (2010–2014 e 2015–2019). Além de medir a desigualdade isolada de cada período, os pesquisadores utilizaram o RII atrelado a um termo de interação temporal para avaliar se a iniquidade no acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer se agravou, diminuiu ou permaneceu estável ao longo da década analisada.
Pesquisar a fundo para fundamentar políticas públicas: A situação nacional de diagnósticos em estágios avançados ainda é vista como um grande “gargalo” ao SUS.
Nós temos um volume de diagnóstico de casos avançados que não é compatível com o nível de desenvolvimento que temos. E aí, é claro, se o diagnóstico é tardio, pior é o prognóstico. Desde 2017, uma lei municipal (Lei nº 15.371/2017) tornou o câncer uma doença de notificação compulsória em Campinas. Hoje, uma equipe técnica da Secretaria Municipal de Saúde monitora ativamente dezenas de laboratórios de patologia, garantindo que nenhum diagnóstico passe despercebido, independentemente de o paciente ser atendido no SUS ou na rede privada.
O objetivo dos autores do estudo, ao divulgar e interpretar os dados do RCBP, do SIM e do IPVS, é subsidiar as gestões públicas de saúde em todos os níveis federados para o enfrentamento das iniquidades. Para eles, o uso sistemático de informações geográficas e de alta qualidade é a principal estratégia para direcionar o rastreamento, fortalecer a atenção primária, antecipar diagnósticos e, de fato, salvar vidas com tratamento adequado. Historicamente, o próprio RCBP de Campinas já serviu para alterar o rastreamento na cidade: ao notar uma alta de casos agressivos de câncer de mama em mulheres mais jovens, o município antecipou a idade para a realização de mamografias antes mesmo da recomendação federal. “A política pública em câncer não é diminuir o número de casos, porque não vai diminuir. A política pública é fazer cada vez mais diagnósticos e tentar prevenir o avanço da doença”, defendem os pesquisadores.

Para entender as desigualdades, os pesquisadores não olharam para a cidade como um bloco único, eles utilizaram o mapa de atendimento de todas as UBSs do município e calcularam uma “nota” social para cada uma delas com base em dados socioeconômicos do Estado de São Paulo. O mapa acima resume esse cruzamento de dados dividindo o território em três grandes zonas: EVS1 (Áreas Claras) – Bairros e regiões com a menor vulnerabilidade social (populações mais ricas); EVS2 (Áreas Intermediárias) – Regiões de transição; EVS3 (Áreas Escuras) – Regiões periféricas com a maior vulnerabilidade social (populações mais pobres). A sobreposição dos casos de câncer sobre o mapa permitiu aos pesquisadores compreenderem que o local onde a pessoa mora e sua condição social interferem no seu acesso ao diagnóstico e tratamento.
(1) VON ZUBEN, ANDREA PAULA BRUNO; DO CARMO FERREIRA, MARIA; DE AZEVEDO BARROS, MARILISA BERTI; NATIVO, JULIANA; CORREA, M. ELVIRA P.; DE SOUZA, CARMINO ANTONIO. The impact of social inequalities on cancer incidence and mortality in a Brazilian City: Data from the population-based cancer registry. Cancer Epidemiology , v. 103, p. 103102, 2026.
São autores do trabalho:
⦁ Andrea Paula Bruno von Zuben — Epidemiologista, coordenadora de informação do Hospital Municipal Mário Gatti (Campinas, São Paulo) e pesquisadora associada ao CEPID CancerThera.
⦁ Maria do Carmo Ferreira — Pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Projetos de Pesquisa e Ensino do Instituto Nacional de Câncer.
⦁ Marilisa Berti de Azevedo Barros — Professora Titular de Epidemiologia, na FCM/Unicamp.
⦁ Juliana Nativo — Coordenadora do Registro de Câncer de Base Populacional, no Departamento de Vigilância em Saúde.
⦁ M. Elvira P. Correa — Pesquisadora de pós-doutorado em Gestão Executiva de Pesquisa no CEPID CancerThera, no Hemocentro/Unicamp.
⦁ Carmino Antônio de Souza — Professor Titular de Hematologia, na FCM/Unicamp, e pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera, no Hemocentro/Unicamp.












