A atualidade pressupõe uma subdivisão de universos. É como se alternássemos entre o mundo real e o virtual, circulando pelos dois, à escolha.
A rigor, continuamos a viver em um único e exclusivo universo, do mesmo modo como os antigos pensadores gregos, nos esboços das filosofias, ou os navegantes portugueses na Escola de Sagres, onde projetavam suas viagens pioneiras.
Portanto, hoje, navegamos ou voamos no contexto digital e também voltamos à circunstância da nossa obviedade. Os estudos da Física, antes do surgimento da Informática, mais especificamente na especialidade da Óptica, expressavam como “imagem virtual” aquela repetição invertida de qualquer coisa exposta a um espelho. O espelho inverte a realidade, mas depende do objeto real para existir; a imagem virtual não tem substância própria, mas tem o poder de nos guiar. Ou desorientar…
Talvez o “contexto digital” nada mais seja do que um espelho hipertrofiado, onde os velhos golpes contra a mente humana encontraram um reflexo mais rápido e abrangente. É a Escola de Sagres lidando não com monstros marinhos, mas com algoritmos. O “virtual” do espelho e o “virtual” do algoritmo compartilham as raízes, operando com dinâmicas que explicam muito sobre os golpes e as blindagens do mundo moderno.
O homem parece ter uma índole e um talento especiais para produzir e aplicar golpes. Isso acontece historicamente, em qualquer época. Golpistas, malfeitores, bandidos, sociopatas, mafiosos, gângsteres e equivalentes sempre existiram. Hoje em dia, não creio que existam em maior número; as diversificações da comunicação é que os destacam mais.
A política é o setor onde mais se observam essas artimanhas. Afinal, os holofotes estão sempre iluminando os protagonistas, enquanto as oposições criticam e apedrejam os adversários. É claro que, nos países totalitários, a política fica quase invisível e sem contraposições.
Os pensadores Hannah Arendt e Karl Popper apontaram que o totalitarismo não comete apenas golpes isolados; o próprio regime é um golpe continuado contra a realidade dos oprimidos.
Na física especular, como vimos, a imagem virtual troca os lados: o que é direito parece esquerdo. No virtual de hoje, o ecossistema digital faz algo muito parecido com a percepção social e a informação: ele inverte prioridades, sofistica o falso e simplifica o complexo.
No espelho do algoritmo, a minoria barulhenta parece consenso, o ataque parece defesa e o golpe fantasiado de oportunidade parece óbvio. Navegar no digital, portanto, exige o mesmo esforço cognitivo de quem tenta escovar o cabelo olhando para o reflexo: é preciso reaprender a correlacionar a imagem com a realidade concreta.
O perigo do golpe (seja financeiro ou ideológico) reside em acreditar que a imagem virtual tem a solidez do mundo real. O estelionato digital prospera porque o cérebro humano, moldado para o mundo sensorial, arquiteta substância onde só há luz projetada.
A fé religiosa pode ser sustentada desse modo, a depender dos arquitetos. Os bem-intencionados, mesmo manejando uma ilusão, trarão benefícios. Os mal-intencionados promoverão estragos irreparáveis.
Precisamos desenvolver muitas blindagens, com as defesas permanentemente alertadas, ainda que os esforços sejam sempre incompletos e guardem vulnerabilidades.
Não nos esqueçamos de que os algoritmos e a Inteligência Artificial parecem entidades autônomas, mas são rigorosamente dependentes da nossa biologia e da nossa história. Eles se alimentam dos nossos dados, dos nossos medos e de nossos desejos primitivos. Não têm força ou poder divinos.
A Óptica surge aqui como um excelente recurso analógico para nos ajudar na blindagem cognitiva: por mais tecnológico que seja o cenário, o mecanismo do engano continua sendo o mesmo princípio da ilusão e do reflexo que intrigava os antigos.
As preocupações com a segurança têm hoje um caráter obsessivo. Lembram as distorções do mundo vigiado de George Orwell em seu “1984”, publicado ainda em 1949!
Reagindo às distopias, criamos as utopias dos nossos sistemas políticos. Professor de Ciências Sociais, Arnaldo Lemos Filho indica que a utopia do socialismo é a igualdade; a do capitalismo, a liberdade.
A igualdade e a liberdade, para comporem a tríade da Revolução Francesa, parecem carecer da fraternidade. Se for para escolher (sem golpes…), penso que a igualdade amarra um pouco a liberdade. A liberdade é mais saudável que a igualdade. E, talvez, se a fraternidade prevalecesse, exerceríamos as duas em plenitude.
As notícias não descansam e não nos deixam folgar, especialmente quanto aos alarmes políticos.
Manobras corruptas para entrar nas elites começaram no momento em que a influência se tornou um movimento que poderia ser comprado ou trocado — o que ocorre desde os primeiros assentamentos humanos que criaram uma hierarquia.
Na Roma Antiga, já havia práticas documentadas de suborno eleitoral e venda de influência. Candidatos a cargos públicos (cônsules, pretores) gastavam fortunas comprando votos ou prometendo benefícios ilícitos para ascender à elite política e senatorial.
Exemplos ao longo da História, infelizmente, não faltam. Aqui no Brasil, os bombardeios atuais da corrupção parecem piores do que uma explosão em usina nuclear! Em ano eleitoral, diante de toda essa agitação virtual e real, o melhor seria não seguir uma ideologia, mas um critério simples: votar no menos corrupto.
Frank Costello é citado como o mafioso que mais se aproximou da impunidade total. Morreu de causas naturais aos 82 anos, em Nova Iorque, com pouquíssimo tempo de prisão por crimes menores, escapando das penas severas de homicídio e tráfico que derrubaram outros chefões. Ainda bem que os golpistas atuais não aprenderam muito com Costello; a maioria acaba despencando de seus castelos — e estes revelam-se muito mais virtuais do que reais…
Recentemente, um candidato a prefeito de uma grande cidade brasileira disse ao seu médico: “Vou ter 15 bilhões na minha mão!” O médico refletiu intimamente: “Nossa! Este é mau político mesmo, só pensa no dinheiro”. Infeliz e realmente, o homem ainda não está amadurecido ou evoluído para seguir uma ideologia. Ele segue apenas a mercadoria…
O pior, a desgraça maior, o golpe de maior perversidade é o que se serve da fé. Como vimos, a própria religião pode ser um golpe, uma ilusão, mas vivida na inocência, na ingenuidade de uma crença autêntica, só faz bem, consola, apoia, alivia. No entanto, quando é manipulada por clérigos e autoridades das religiões, norteando pessoas que não têm um mínimo de blindagem, é o fim dos mundos – dos dois: do virtual e do real!
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor












