Entender e combater a “presença tóxica” — seja em um casal, pequenas turmas, grupos de alta performance ou mesmo em grandes populações — é desafiador.
Seja em pares, bandas de rock, equipes cirúrgicas, sócios de uma corporação, seleções esportivas ou em estados e países, essas pessoas perigosas tendem a dominar as relações. Elas instigam, persistem, resistem e podem liderar.
Elas também podem ser controladas para salvarmos o par, o grupo ou uma sociedade. Isso é viável à medida que consigamos combinar a psicologia de massas com a dinâmica dos afetos, individual e coletivamente.
A palavra “tóxica” implica um caráter degenerativo, uma figura potencialmente maléfica. No entanto, o elemento gerador de atrito envolve uma toxicidade subjetiva, espiritual, nem sempre conduzindo os protagonistas (embora, às vezes, inclua isso também) a uma ligação química com produtos venenosos.
Independentemente do tamanho do grupo, a presença tóxica opera geralmente pela mesma dinâmica: ela hipertrofia o próprio ego (o vício), quebra o pacto de empatia e subverte a realidade por meio de mentiras, manipulações, chantagens afetivas e promessas demagógicas.
• No casal: destrói a individualidade e a saúde mental do parceiro por meio de chantagens subjacentes e controle invisível. Às vezes, cria um modo espiralado de girar a mente do parceiro até sugerir que este é a figura tóxica, o “louco”.
• Numa turma comum: instala a desconfiança, promove fofocas e intrigas, criando subalianças e fragmentando a harmonia da convivência cotidiana.
• Em um grupo “pop star”: transforma o artista em uma “mercadoria” predatória que exige isolamento e um delírio paranoico; gera um campo magnético de codependência e fomenta os medos — principalmente a culpa —, explorando e adoecendo os circunstantes até chegar a um colapso.
• Em uma seleção esportiva, como no futebol, hoje mais focalizado pela Copa do Mundo: o “intoxicador” geralmente é o craque que se torna maior do que a equipe, transformando o ecossistema coletivo em um satélite do seu próprio ego.
A figura polêmica de Neymar tornou-se um exemplo contemporâneo de presença tóxica por “infantilização”. O seu talento técnico inegável foi conturbado pelas blindagens hipertrofiadas que se criaram ao seu redor: as próprias, como as quedas, o “cai-cai” e a teatralização das faltas dos adversários, e as do seu entorno (os “parças”, o staff, o pai).
Quando tudo precisa girar em torno dele, com o craque se comportando como intocável e mimado, o espírito de equipe se esvazia. O rebanho perde a autonomia e passa a jogar para o brilho (ou o drama) de um único homem.
Para esta Copa que se inicia agora, seria ótimo que Neymar aproveitasse uma ambivalência. Isto é, amadurecido pela idade e rejuvenescido pela oportunidade de estar na seleção pela vez definitiva, compartilhasse o foco com os companheiros.
O futebol do Brasil já teve muitas presenças tóxicas. Foram jogadores excepcionais (Romário, Edmundo, Ronaldinho e outros), mas com perfis perigosos. Felizmente, alguns atletas equilibravam as situações, como Dunga em 1994. Ele “carregava o piano” para o Romário tocar…
• No mundo financeiro: os “Lobos” de Wall Street e os “Pit Pets” da Faria Lima… A provocação aqui é este apelido para os especuladores brasileiros: a mistura do Pitbull (agressividade, egoísmo, crueza) com o Pet (domesticação, mimo, coleira de grife). O apelido pode bem sintetizar o perfil desses predadores do mercado.
Lidar com o dinheiro mexe com uma extraordinária vulnerabilidade humana. Esforços, exageros e limites são sugeridos e superados rotineiramente, com fantásticas cifras de corrupção e golpes.
B. Madoff foi um exemplo tóxico incrível nos EUA (50 bilhões de dólares); D. Vorcaro é o nosso modelo inconcebível, bem atual, com uma toxicidade numérica de 50 bilhões de reais.
De certo modo, todos nós, seres humanos, tendemos a nos intoxicar com o poder. Como o dinheiro é a referência essencial do poder, as chances de toxicidade crescem à medida que a pessoa acumula cifras.
Y. N. Harari mostra que o dinheiro é, na realidade, uma crença. Uma nota de 100 reais vale porque o comprador e o vendedor acreditam nisso. Se não acreditassem, aquela nota seria apenas um papel desenhado com tintas especiais.
• Em uma nação: o líder tóxico sequestra as palavras e as instituições, governando através do medo e da demagogia, rachando a sociedade em uma polarização cega para sufocar a oposição e camuflar suas próprias falcatruas.
Um governante belicoso pode levar à morte militar números impressionantes de jovens soldados. Um teocrata tirânico pode mobilizar muitos suicídios de militantes.
Sabemos que é absolutamente necessário enfrentarmos toda essa intoxicação, pois há uma impressão generalizada de que a toxicidade humana está crescente e invasiva.
O grupo resiliente é aquele que consegue isolar o comportamento do intoxicado ou alcança a coragem de amputar o membro para salvar o corpo.
Como os castelos virtuais do ego são frágeis, as boas resistências podem suportar essas presenças até que elas comecem a despencar sozinhas — desde que todos reconheçam a fragilidade geral dos egos. Afinal, também é comum haver intoxicados que se deixam consumir pela inveja.
Os resultados não são perenes. Os cargos, os patrimônios, os gols, as músicas e outros valores equivalentes acabam e morrem, como qualquer pessoa, seja ela venenosa ou atóxica…
Sabemos de nossa inteligência, podemos nos orgulhar de nossa ciência, de tudo o que construímos, de tudo o que já conseguimos curar, sanar, educar, produzir e maravilhar. No entanto, temos muito a nos criticar e cobrar. Sem idealismos utópicos, podemos combater persistentemente toda essa nossa toxicidade.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











