As eleições de 2026 devem inaugurar um dos capítulos mais complexos da história recente da democracia digital brasileira. Pela primeira vez, o país enfrentará um processo eleitoral sob o impacto massivo das inteligências artificiais generativas, capazes de produzir vídeos, áudios e imagens ultrarrealistas em questão de minutos. O problema é que essa revolução tecnológica não chega sozinha: ela vem acompanhada de uma ameaça silenciosa e extremamente poderosa: as deepfakes.
Até poucos anos atrás, a desinformação eleitoral dependia de montagens grosseiras, textos manipulados ou correntes espalhadas em aplicativos de mensagens. Hoje, o cenário mudou radicalmente. Com ferramentas acessíveis e cada vez mais sofisticadas, tornou-se possível fabricar vídeos convincentes de candidatos dizendo frases que nunca pronunciaram, simulando crises políticas, escândalos ou declarações explosivas com um nível de realismo capaz de confundir até usuários experientes.
O risco não está apenas na mentira em si, mas no desgaste coletivo da confiança pública. Quando o eleitor já não consegue distinguir com clareza o que é real e o que foi artificialmente fabricado, a própria noção de verdade passa a ser fragilizada. E esse talvez seja o efeito mais perigoso das deepfakes: a corrosão da confiança institucional e da credibilidade da informação.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) percebeu esse movimento e decidiu endurecer as regras para 2026. O pacote regulatório aprovado proíbe conteúdos sintéticos que imitam candidatos ou figuras públicas, exige identificação explícita de materiais produzidos por IA e restringe o uso desse tipo de conteúdo nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas seguintes ao pleito. É um avanço importante, mas que, sozinho, não resolve o problema.
A velocidade da inteligência artificial supera a capacidade tradicional de fiscalização. Hoje, uma deepfake pode atingir milhões de visualizações antes mesmo de ser identificada e removida. Em muitos casos, o dano reputacional já aconteceu quando a checagem chega ao público. Além disso, existe um fator emocional extremamente relevante: conteúdos manipulados costumam ser desenhados justamente para provocar indignação, medo ou revolta, emoções que reduzem a percepção sobre a realidade e aceleram o compartilhamento impulsivo.
Outro ponto preocupante é que o problema deixou de ser exclusivamente tecnológico. Estamos diante de uma questão cognitiva e social. A guerra da desinformação moderna não busca apenas convencer as pessoas de uma mentira específica; ela tenta criar confusão permanente, gerar descrença e transformar o ambiente digital em um espaço de instabilidade contínua.
Por isso, o enfrentamento das deepfakes precisa ir além da punição jurídica. Exige alfabetização midiática, educação digital e fortalecimento da cultura de verificação. O eleitor de 2026 terá um papel muito mais ativo na proteção do processo democrático. Desconfiar de conteúdos excessivamente emocionais, checar fontes e evitar compartilhamentos impulsivos passa a ser também um exercício de cidadania.
No entanto, precisamos lembrar que a inteligência artificial não é inimiga da democracia, tampouco a grande vilã da disputa eleitoral deste ano. Ao contrário disso, ela pode, inclusive, ampliar acesso à informação, melhorar serviços públicos e fortalecer processos institucionais. O verdadeiro desafio está na forma como escolhemos utilizar essa tecnologia. As eleições de 2026 serão um teste não apenas para a Justiça Eleitoral, mas para toda a sociedade brasileira. O debate sobre deepfakes não é apenas tecnológico. É, sobretudo, um debate sobre confiança, responsabilidade e sobrevivência democrática em uma era em que até mesmo a nossa própria realidade pode ser artificialmente fabricada.
Priscila Meyer é CEO da Eskive e especialista em cibersegurança e proteção de dados












