3 de maio de 2026
O SEU PORTAL DE NOTÍCIAS, ANÁLISE E SERVIÇOS
ANUNCIE
Sem Resultados
Ver todos os resultados
Informação e análise com credibilidade
  • ÚLTIMAS
  • CIDADE E REGIÃO
  • COLUNISTAS
  • ARTE E LAZER
  • OPINIÃO
  • ESPORTES
  • EDUCAÇÃO E CIDADANIA
  • SAÚDE E BEM-ESTAR
  • BRASIL E MUNDO
  • ECONOMIA E NEGÓCIOS
  • TURISMO
  • VEÍCULOS
  • PET
  • FALECIMENTOS
  • NOSSO TIME
  • ÚLTIMAS
  • CIDADE E REGIÃO
  • COLUNISTAS
  • ARTE E LAZER
  • OPINIÃO
  • ESPORTES
  • EDUCAÇÃO E CIDADANIA
  • SAÚDE E BEM-ESTAR
  • BRASIL E MUNDO
  • ECONOMIA E NEGÓCIOS
  • TURISMO
  • VEÍCULOS
  • PET
  • FALECIMENTOS
  • NOSSO TIME
Sem Resultados
Ver todos os resultados
Informação e análise com credibilidade
Sem Resultados
Ver todos os resultados
Home Opinião

Crônica: Fios emaranhados – por Cecília Prada

Redação Por Redação
30 de novembro de 2021
em Opinião
Tempo de leitura: 3 mins
A A
Crônica: Fios emaranhados – por Cecília Prada

“A vida é um novelo que alguém emaranhou. Há um
sentido nela, se estiver desenrolada e posta ao
comprido, ou enrolada bem. Mas, tal como está, é um
problema sem novelo próprio, um embrulhar-se sem
onde”. – Fernando Pessoa

 

Hoje quero escrever uma coisa assim, de fios . Dos fios detectados, dos que nos sustentam. Fantoches somos na mão invisível de alguém que nos manipula? Ou, simplesmente, falar dos múltiplos fios em que estamos todos enrolados, na imensa rede que não foi inventada pela indústria da comunicação virtual, como se poderia pensar numa simplificação – mas na enorme rede da vida. Pior: do cosmo. E que nós, pobres fiozinhos atormentados e complicados no nosso emaranhamento, temos a pretensão de querer entender, desenrolar. Enfim – ridículas formiguinhas.

Anos atrás inventei a pretensão de contar minha vida, para entendê-la um pouco. Não me contentei com o livro pronto. Vim amontoando quilômetros de entulho literário feito de coisas e loisas, e amores e desamores, e desesperos e retemperos, material que está todo por aí, pelas gavetas dos móveis, do micro, do Ser – um dia será amarrado em pacote, espero, e definitivamente selado e entregue. (A quem? A quem?)

 

Enquanto isso, indago consistente : que fio afinal usarei para amarrar esse pacote de mim?

 

Que fios usarei para bordar a eterna tapeçaria que nós mulheres tecemos, desde aquela nossa protoavó Penélope, para deixar em legado à família? – para que em mim não se cumpra o destino das mulheres silenciadas, tias-avós de diários bolorentos jogados fora pelo primeiro sobrinho aparecido após o enterro, versos escritos com aplicada letra de curso primário, indefectíveis rosas secas dentro de um livro esmaecido, e os murmúrios, e os lamentos que ressoam em todos os haréns, em todas as salas de todas as famílias.

Ou simplesmente morrerei de boca costurada, como foi durante tanto tempo o destino das mães e avós loucas?

Mas não é fácil contar esta história um tanto estranha, feita de tantos pedaços, te confesso. Não é fácil costurar seus elementos – que linha usarei, pois? A linha da mediocridade, comprada na feira, parda e resistente, que minha avó italiana usava para cerzir eternamente, num ovo de madeira, as meias da família? Minha avó que nunca falava, que morreu silenciosamente aos 97 anos, doce e apagada velhinha de cabelos de algodão e olhos azuis.

A linha triste e discreta com que me costuravam os botões do uniforme azul-marinho do externato de freiras? Ou talvez eu deva escolher, por que não? algum dos fios mais brilhantes que me foram concedidos pela vida, tons rosa-salmão do meu primeiro vestido de baile? Ou o fio de cetim imaculado do vestido de noiva? Ricas nuanças de tapeçarias medievais? (Não fui por acaso castelã e prisioneira?)

– Já sei. Usarei, para tão digno bordado, aquele fio de seda mista que as freiras já no primeiro ano primário queriam nos obrigar a usar, com paciência nos adequando para as exigências da vida : enfiar, e enfiar de novo, e mais uma vez, e sempre, uma linha enfezada e resistente na agulha fina de buraco que se esquivava manhoso em um trabalho de amostras de pontos de bordado, um paninho de linho branco que se queria – como tudo para nós – puro, imaculado. E que só eu, menina má, amarfanhava num canto da pasta, retirando-o de má vontade, medrosa, na hora de trabalhos manuais. E minha linha, só a minha, parecia se obstinar em criar nós e complicações. (Como estas urdidas – ardidas? – memórias de hoje.)

Irmã Louise, vermelhona, de pelos no rosto, me dizendo, vidente, talvez: “Mas isto não é um mostruário. É um monstruário.” Teria ela realmente seus dons? Veria já no paninho encardido, sujo de tinta, vergonhoso, de linhas emaranhadas, alguns dos lagartos, das serpentes, das complicações existenciais em que eu me veria mais tarde colhida?

 

Mas agora, só agora, revelo meu segredo: ah, no meio do pano encardido bordei uma tosca florzinha inventada, com linhas gloriosamente espalhafatosas, azul-real, verde-pavão, vermelho-sangue. Depois disse para a freira que tinha perdido meu pano de amostras – que me dessem outro, talvez tenham me dado, nem me lembro o que aconteceu com ele.

E a aprendiz de bordadeira seguiu e segue vida afora emaranhada na teimosia de tantos nós, tantas linhas enfezadas alinhavando pontos impossíveis – tentando lembrar ainda qual era aquela flor inventada com todos os tons brilhantes da esperança, um dia.

 

 

Cecília Prada, jornalista e cronista, é integrante da Academia Campinense de Letras (ACL). Ocupa a cadeira número 7

Tags: ACLCecília Pradacrônicajornalismoliteratura
CompartilheCompartilheEnviar
Redação

Redação

O Hora Campinas reforça seu compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade. Nossa redação produz diariamente informação em que você pode confiar.

Notícias Relacionadas

Artigo – Justiça ‘analógica’ no combate à violência sexual digital – por Celeste Leite dos Santos
Opinião

Artigo – Justiça ‘analógica’ no combate à violência sexual digital – por Celeste Leite dos Santos

Por Redação
3 de maio de 2026

...

Campinas 249 anos: imagens da história, lugares e cores da metrópole
Opinião

Artigo – Música e canto: uma proposta da ABAL – por Regina Márcia Moura Tavares

Por Redação
2 de maio de 2026

...

Protesto contra ‘devastação verde’ na Praça do Coco tem abraço simbólico; veja fotos e vídeo

Artigo: Morte da Praça do Coco, 1999-2026 – por Adilson Roberto Gonçalves

2 de maio de 2026
Artigo – Dia do Trabalho: Quando o coração não acompanha o relógio – por Deborah Dubner

Artigo – Dia do Trabalho: Quando o coração não acompanha o relógio – por Deborah Dubner

1 de maio de 2026
Artigo: Sertão THC – por Guilherme Athayde Ribeiro Franco

Artigo: Sertão THC – por Guilherme Athayde Ribeiro Franco

30 de abril de 2026
Artigo: Educação e tecnologia em prol da tradição indígena – por Flávio Santos

Artigo: Educação e tecnologia em prol da tradição indígena – por Flávio Santos

29 de abril de 2026
Carregar Mais
  • Avatar photo
    Alexandre Campanhola
    Hora da Saudade
  • Avatar photo
    Carmino de Souza
    Letra de Médico
  • Avatar photo
    Cecília Lima
    Comunicar para liderar
  • Avatar photo
    Daniela Nucci
    Moda, Beleza e Bem-Estar
  • Avatar photo
    Gustavo Gumiero
    Ah, sociedade!
  • Avatar photo
    José Pedro Martins
    Hora da Sustentabilidade
  • Avatar photo
    Karine Camuci
    Você Empregado
  • Avatar photo
    Kátia Camargo
    Caçadora de Boas Histórias
  • Avatar photo
    Luis Norberto Pascoal
    Os incomodados que mudem o mundo
  • Avatar photo
    Luis Felipe Valle
    Versões e subversões
  • Avatar photo
    Renato Savy
    Direito Imobiliário e Condominial
  • Avatar photo
    Retrato das Juventudes
    Sonhos e desafios de uma geração
  • Avatar photo
    Thiago Pontes
    Ponto de Vista

Mais lidas

  • Entre bicicletas e lembranças: a saudade de Edson Lunardi – por Alexandre Campanhola

    Entre bicicletas e lembranças: a saudade de Edson Lunardi – por Alexandre Campanhola

    0 Compartilhamentos
    Compartilhe 0 Tweet 0
  • Cartórios da região de Campinas terão horário ampliado para regularização de títulos

    0 Compartilhamentos
    Compartilhe 0 Tweet 0
  • Pioneiro da Praça do Coco sai em defesa da Prefeitura e diz que árvores estavam ‘mortas’

    0 Compartilhamentos
    Compartilhe 0 Tweet 0
  • Artigo: Morte da Praça do Coco, 1999-2026 – por Adilson Roberto Gonçalves

    0 Compartilhamentos
    Compartilhe 0 Tweet 0
  • Artigo – Música e canto: uma proposta da ABAL – por Regina Márcia Moura Tavares

    0 Compartilhamentos
    Compartilhe 0 Tweet 0
Hora Campinas

Somos uma startup de jornalismo digital pautada pela credibilidade e independência. Uma iniciativa inovadora para oferecer conteúdo plural, analítico e de qualidade.

Anuncie e apoie o Hora Campinas

VEJA COMO

Editor-chefe

Marcelo Pereira
marcelo@horacampinas.com.br

Editores de Conteúdo

Laine Turati
laine@horacampinas.com.br

Maria José Basso
jobasso@horacampinas.com.br

Silvio Marcos Begatti
silvio@horacampinas.com.br

Reportagem multimídia

Gustavo Abdel
abdel@horacampinas.com.br

Leandro Ferreira
fotografia@horacampinas.com.br

Caio Amaral
caio@horacampinas.com.br

Marketing

Pedro Basso
atendimento@horacampinas.com.br

Para falar conosco

Canal Direto

atendimento@horacampinas.com.br

Redação

redacao@horacampinas.com.br

Departamento Comercial

atendimento@horacampinas.com.br

Noticiário nacional e internacional fornecido por Agência SP, Agência Brasil, Agência Senado, Agência Câmara, Agência Einstein, Travel for Life BR, Fotos Públicas, Agência Lusa News e Agência ONU News.

Hora Campinas © 2021 - Todos os Direitos Reservados - Desenvolvido por Farnesi Digital - Marketing Digital Campinas.

Welcome Back!

Login to your account below

Forgotten Password?

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Log In

Add New Playlist

Sem Resultados
Ver todos os resultados
  • ÚLTIMAS
  • CIDADE E REGIÃO
  • COLUNISTAS
  • ARTE E LAZER
  • OPINIÃO
  • ESPORTES
  • EDUCAÇÃO E CIDADANIA
  • SAÚDE E BEM-ESTAR
  • BRASIL E MUNDO
  • ECONOMIA E NEGÓCIOS
  • TURISMO
  • VEÍCULOS
  • PET
  • FALECIMENTOS
  • NOSSO TIME

Hora Campinas © 2021 - Todos os Direitos Reservados - Desenvolvido por Farnesi Digital - Marketing Digital Campinas.