Um horror o que acontece em Juiz de Fora, mas também no Rio de Janeiro, no litoral de São Paulo. Assim como aconteceu com o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024. Enchentes devastadoras, enxurradas impressionantes, deslizamentos de terra, desmoronamentos, mortes, muitas mortes e desaparecidos.
O enredo tem se repetido, notadamente no Verão ou pouco depois dele, mas não importa. As mudanças climáticas estão aí, na nossa cara, na cara dos governantes, dos poderosos que acham que estão imunes e não estão. Mas, claro, os mais vulneráveis são e continuarão sendo os mais pobres.
Um dos riscos lamentáveis de toda essa narrativa de dor e desespero é achar que a água é inimiga. Não é, nunca foi, em particular no país que tem alma de água, um certo Brasil, 12% da água doce do planeta. Sim, a distribuição dessa água é desigual, ela está em sua grande parte na Amazônia, onde vive cerca de 30 milhões de pessoas, mais ou menos 15% da população brasileira.
Em termos comparativos, o estado de São Paulo, onde vivem 46 milhões de habitantes, ou 21,6% da população brasileira, contempla menos de 2% da água doce do país. A conta não fecha já por aí. Mas água doce em São Paulo, se bem administrada, gerenciada e distribuída de forma democrática, e não se pensando em quanto vai render para os chamados investidores, é sim suficiente, ainda mais com uso racional e sem perdas como ocorre hoje.
Esta não é a questão deste artigo. A questão é que a água não é inimiga. A negligência, que marca a postura histórica de governantes em relação ao planejamento das cidades, com raras exceções, ela sim é perigosa e danosa para a sociedade, sobretudo para os mais pobres e vulneráveis.
Foram esses governantes, atendendo mais a interesses próprios e de alguns grupos, que aceitaram a ocupação inadequada das áreas de risco. Foram eles que não quiseram adotar políticas habitacionais corajosas, ousadas, para dar moradia digna a milhões de brasileiros, que assim se viram sem alternativas. O caminho foi ocupar as encostas de morros, as margens de rios, e quando não havia espaço em terra firme o próprio mar, como as palafitas que ainda sobrevivem em muitos cenários de cidades ricas Brasil afora.

Voltemos à Campanha da Fraternidade de 2026, assunto de artigo anterior neste Hora Campinas. A Campanha deste ano é de enorme atualidade diante do que estamos vendo. O texto-base lembra que, segundo o próprio Ministério das Cidades, são 8,9 milhões de pessoas no Brasil vivendo (?) em áreas de risco. Uma população que seria a segunda metrópole mais populosa do país, atrás somente de São Paulo, convivendo com o medo a cada chuva mais pesada.
Um temor que apenas tende a aumentar, porque as mudanças climáticas já anunciaram a que vieram. Vou citar novamente o texto-base da CF 2026, que reproduz um trecho de artigo de Betânia Alfonsin, “Direito à moradia e crise climática: o impacto dos eventos extremos sobre os mais pobres das cidades”: Não é necessário ser um gênio da meteorologia para entender que, com o aumento da temperatura, aumenta também a evaporação de água dos oceanos, bem como da superfície da terra e que tal fenômeno ocasiona o aumento do volume de chuvas no planeta. Esse fenômeno teria impactos importantes em qualquer região do planeta, mas é particularmente grave em áreas fortemente urbanizadas e densamente povoadas, considerando os altos índices de impermeabilização do solo e o aumento do risco de alagamentos que decorre dessa combinação de fatores. Quando esse tema se combina com a história da urbanização do Brasil, fortemente marcada por desigualdades, encontramos um cenário perfeito para tragédias urbano-ambientais de grande magnitude, que vem se agravando em intensidade e frequência”.
É isto. O que vimos ontem, nos bairros de Juiz de Fora mais atingidos pelas chuvas: Cerâmica, Esplanada, Três Moinhos, Santa Rita, Parque Burnier, Nossa Senhora de Lourdes e Distrito Industrial. Soterramentos, mortes, desaparecidos, desabrigados, depois de chuvas históricas, o equivalente a um mês em poucas horas.

Infelizmente isto tende a se repetir em outras partes do Brasil. Com muitas ameaças às áreas de risco, mas não apenas a elas. Veremos avenidas e ruas importantes de bairros considerados “nobres” inundadas, automóveis caríssimos boiando e, lamentavelmente, mortes também nestes episódios.
Os atuais gestores públicos, prefeitos, governadores, presidente da República, herdaram uma situação de outros ciclos de governo. Mas os atuais governantes têm diante de si esse enorme, gigantesco, desafio, o de pensar como de fato garantir resiliência para as suas cidades para os próximos anos, em que o aquecimento global com certeza aumentará, trazendo novos grandes prejuízos, materiais e o maior deles, o de vidas humanas.
Novamente citando o texto-base da Campanha da Fraternidade de 2026, que trata da questão da moradia no Brasil: “Dados da Confederação Nacional dos Municípios revelam que os impactos das enchentes, secas e outros eventos extremos somaram mais de R$ 732 bilhões de prejuízo às cidades brasileiras nos últimos 12 anos, sendo R$ 92,6 bilhões apenas em 2024. Os valores podem estar subestimados já que menos da metade dos municípios consegue registrar seus danos no sistema federal S2iD, evidenciando a falta de estrutura técnica para mensurar com precisão os custos da crise climática” (Fonte: Climainfo, “Prejuízo das cidades com desastres climáticos supera R$ 700 bi em 12 anos”).
Esse dinheiro enorme teria sido muito melhor utilizado se, antes, fosse investido em uma política habitacional e urbana mais justa, democrática e em consonância com os maiores desafios contemporâneos. Enfim, o mega-desafio está posto. Os atuais governantes, em conjunto com a sociedade civil, movimentos de moradia, Igrejas preocupadas de fato com a vida de seus fiéis, empresários e outros segmentos, juntos, pensando o que fazer e logo.
As últimas sinalizações de cientistas são evidentes. O aquecimento global vai continuar, gerando muita chuva em algumas regiões, secas de grande magnitude em outras. O Brasil, país-continente, com alma de água, água generosa, símbolo de vida em abundância, precisa e para já um olhar mais atento e resolutivo para o caos que tem se repetido. A água não é e continuará não sendo um mal, uma inimiga. A negligência, o lavar as mãos, com perdão da ironia, sim, esta postura dará como resultado a continuidade de tragédias e calamidades. Aprendamos com o que já testemunhamos, que já foi suficiente para indicar o que é preciso fazer. Cidades muito melhor preparadas, no seu desenho, na sua resiliência, mas em particular com políticas habitacionais muito mais humanas e justas, avanços civilizatórios urgentes diante das atuais perspectivas climáticas globais.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












