Um lugar que visito frequentemente em Campinas é o Terminal Rodoviário Ramos de Azevedo. Raramente para viajar. Quase sempre para observar o movimento, a espera ansiosa das pessoas, as filas nos guichês, as despedidas apertadas, os reencontros emocionados.
Por que este fascínio?
Eu gosto de locais onde a emoção desabrocha, humaniza as pessoas, perfuma a alma com sentimentos diversos. Sabe aquele frio na barriga de viajar para um destino desconhecido, como me ocorreu quando fui pela primeira vez ao Rio de Janeiro, ou do reencontro com o ente querido há anos ausente? A ansiedade de chegar à terra natal?
Quando era criança dificilmente viajava, tanto que fui conhecer o mar aos 30 anos. Viajar para minha família era passar o Natal em Santa Bárbara d’Oeste, na casa da família da irmã de meu avô. E geralmente, um dos primos levava a gente de carro, pois éramos o lado da família que não tinha automóvel. Outras viagens simplesmente não faziam parte de nossos sonhos e realidade.
Devido a esta infância enraizada em Campinas, conheci pouco a antiga Rodoviária Dr. Barbosa de Barros. Uma vez ou outra estive nela, quando a viagem de minha família para Santa Bárbara d’Oeste, certamente em uma época diferente do Natal, não podia contar com aquela carona. Mas, lembro-me do local, da estrutura, do movimento de ônibus, até do dia que ajudei uma senhora a levar suas bagagens.
Como estudei no Colégio Culto à Ciência, passei muitas vezes por aquela região, e vi a rodoviária desaparecer.
Aquele pedaço do bairro Botafogo é muito curioso. Gosto de brincar que é “o pedaço do Dr. Barbosa de Barros”. Quem foi este doutor?

José Barbosa de Barros, campineiro, nascido no dia 14 de setembro de 1877, foi um importante médico que colaborou para fundação da primeira Maternidade de Campinas. Ela ficava justamente no local onde mais tarde seria construída a rodoviária, em uma área delimitada pelas avenidas Barão de Itapura, Andrade Neves e pela Rua Barão de Parnaíba.

Ele foi homenageado na cidade com um busto na Praça Regente Isabel, que fica entre a Avenida Andrade Neves e a Rua Saldanha Marinho, na confluência com a Avenida Barão de Itapura. O busto foi furtado em 2023, e recuperado segundo a imprensa, mas não voltou ao seu local. Há uma rua com seu nome, onde fica a Igreja Sagrado Coração de Jesus, bem perto da antiga rodoviária.
O curioso pedaço do Dr. Barbosa de Barros sempre esteve ligado a começos e despedidas. Primeiro, maternidade. Depois, rodoviária. Hoje, hospital. Vida que começa. Vida que parte. Vida que recomeça.
Quem nasceu ali, quem desembarcou em Campinas pela primeira vez naquela rodoviária ou quem se despediu da cidade naquele local, carrega uma saudade difícil de explicar.
E eu carrego a minha, daqueles Natais simples, quando a maior alegria da família era viajar alguns quilômetros até Santa Bárbara d’Oeste. Era perto, mas era o nosso pedaço mais afastado de Campinas.
Carrego também a saudade dos que já fizeram sua última viagem. De meus avós, daquela tia-avó e seu esposo, e do primo que sempre nos levava de carro. Eles partiram para sempre e hoje vivem apenas na estação mais silenciosa de minha memória.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade
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