As ferramentas generativas já ocupam um espaço tão vasto na paisagem digital que, em muitos segmentos, produzem mais conteúdo do que pessoas reais. A internet, que um dia foi anunciada como espaço digital da pluralidade humana, parece ceder lugar a um fluxo incessante de textos, imagens e ideias fabricadas por sistemas cujo único compromisso é manter o ciclo de produção contínua. Nesse ambiente saturado, resquícios de humanidade se tornam apenas mais um ruído entre tantos outros.
Dispositivos como chatbots, afinal, funcionam como grandes repetidores. Não criam: reorganizam. Não inventam: plagiam e dissimulam. Apropriam-se de materiais autorais, esvaziam-nos de contexto lastreado por memórias e devolvem-nos às infovias destituídos de assinatura. A suposta originalidade que oferecem é apenas mais uma versão refinada do déjà vu, uma criativa ausência de criatividade. Na prática, operam como espelhos manipuláveis do pensamento humano.
A lógica que sustenta esse funcionamento se promove pela promessa de personalização. Cada usuário recebe conteúdos moldados a partir de seu histórico, de suas preferências, de seus rastros digitais. Trata-se de um tipo de “intimidade algorítmica” que promete entregar o que mais combina com cada pessoa, ao mesmo tempo em que molda silenciosamente seus gostos e expectativas. É a ilusão de um diálogo privado com uma máquina que, no fundo, está corroendo singularidades.
No movimento de aperfeiçoamento contínuo, os algoritmos caminham paradoxalmente para a uniformização dos resultados. Quanto mais consomem, deformam e produzem, mais se repetem. O entretenimento, que deveria servir ao inusitado, transforma-se em variações que miram engajamento viral através da espetacularização das banalidades. O universo digital se torna uma vitrine homogênea em que a diferença é permitida apenas como detalhe cosmeticamente administrado.
Esse processo tem implicações claras para a experiência humana. Estímulos que antes provocavam entusiasmo hoje geram saturação. A hiperexposição às telas e a obrigatoriedade tácita de produzir e consumir conteúdo dissolvem o prazer original da novidade. O excesso produz indiferença. A dopamina, antes abundante, torna-se escassa. E, nesse ponto, nem a máquina mais veloz consegue simular o frescor do que já se esgotou.
No campo afetivo, a limitação é ainda mais evidente. A IA simula diálogo, mas não vivência; simula escuta, mas não presença. São simulacros, aparências de relação que não contêm a alteridade que nos constitui. Falta-lhes subjetividade, e isso as torna incapazes de responder às demandas emocionais que tentam imitar.
Como nas distopias futuristas das décadas passadas, essas mesmas ferramentas já são usadas para gerar outras IAs, num ciclo de autorreplicação que artificializa até mesmo os processos criativos que pretende ampliar. Os sistemas começam a aprender menos com humanos e mais com produtos de outras máquinas. É um ecossistema que se alimenta de si mesmo, com resultados progressivamente empobrecidos, como réplicas que perdem nitidez, textura e riqueza de detalhes a cada reprodução.

Esse cenário está ancorado num fenômeno mais amplo: a datificação da existência. Transformamos experiências em métricas, tempo em mercadoria, vida em objeto quantificável. A promessa de eficiência oculta um empobrecimento subjetivo e social profundo. Em vez de ampliar horizontes, o aparato digital parece estabelecer um horizonte cada vez mais estreito, onde tudo se converte em função, desempenho e controle.
Curiosamente, são os mais jovens que começam a reagir. Muitos já buscam distância das telas, ressignificam o contato com a natureza, valorizam vínculos familiares e experiências presenciais. Surge, como sintoma da crise terminal do neoliberalismo autopredatório, uma sensibilidade que questiona o ritmo acelerado e a lógica produtivista da era informacional. Há uma busca por espaços de silêncio, de pausa, de trabalho dotado de sentido e, com cada vez mais ênfase, de vida offline.
Simultaneamente, as estratégias das big-techs vêm sendo expostas com maior clareza: a coleta abusiva de dados, a manipulação comportamental, as arquiteturas de vigilância. Movimentos sociais, iniciativas legislativas e campanhas de conscientização começam a impor limites a esse modelo. Embora ainda insuficientes, essas resistências indicam que o entusiasmo ingênuo com a tecnologia já não encontra terreno tão fértil.
A deterioração das ferramentas generativas parece não apenas provável, mas inevitável. Um sistema baseado na repetição tende a esgotar-se por sua própria lógica interna. A saturação não é falha, mas destino. E, quando o encanto se dissipa, abre-se a possibilidade de revalorização do pensamento crítico, do gesto criativo, da imaginação que não cabe em fórmulas preditivas.
Resta a pergunta mais incômoda: se essas tecnologias caminham para sua própria degeneração, o que isso diz sobre nós? Estaremos dispostos a recuperar a autonomia que lentamente cedemos aos algoritmos? Ou nos degeneraremos junto com eles, acostumados demais ao conforto de terceirizar nossas escolhas, nossas relações e até nossos pensamentos? A resposta é decisiva não só para o futuro das IAs, mas das sociedades que a criaram.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia









