A semana começou no Brasil com a renovação de um importante debate: a qualidade dos cursos de medicina brasileiros e a consequente formação dos médicos que chegam ao mercado de trabalho.
A região de Campinas está no foco desta discussão. Referência nas áreas acadêmica e de saúde, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) foi destaque nos resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que avaliou 351 cursos de medicina em todo o País.
As informações foram divulgadas pelo Ministério da Educação (MEC).
Do total dos 351 cursos que passaram pelo crivo estatal, cerca de 30% tiveram desempenho insatisfatório, quando menos de 60% dos estudantes foram considerados proficientes.
Os cursos com nota insatisfatória passarão por um processo de supervisão em que medidas cautelares serão adotadas. Alguns deles pertencem ao Sistema Federal de Ensino, que inclui as universidades federais e as instituições privadas.
Ao todo, são 99 cursos nessa situação. As instituições públicas estaduais, distritais e municipais não passam pelo processo, uma vez que são supervisionadas pelos respectivos conselhos e secretarias de educação locais.
Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), cinco cursos passaram a estar na lupa da sociedade civil. O Hora Campinas publica as notas obtidas pelos cinco cursos de medicina da região.
O único que obteve a nota máxima (5) foi a FCM (Faculdade de Ciências Médicas) da Unicamp.
Inconsistências
Nesta terça-feira (20), o presidente do Inep, Manuel Palacios afirmou que não há erro no resultado, embora tenha admitido algumas inconsistências. Faculdades que se sentiram prejudicadas, como, por exemplo, a São Leopoldo Mandic, de Campinas, divulgaram notas oficiais contestando o resultado (veja ao final da matéria).
“Não tem qualquer problema, os resultados são válidos, estão corretos e não há qualquer intercorrência na publicação desses resultados. Tanto daqueles que participaram e receberam o boletim por meio da plataforma do participante, quanto a publicação recente dos resultados”, afirma o presidente.
Palacios reconhece, no entanto, a divergência no total de estudantes considerados proficientes nos cursos. A classificação dos cursos não utilizou esse dado.
“Houve um erro aqui no Inep desse quantitativo. Mas o cálculo dos indicadores de qualidade dos cursos não utilizou esse dado. Então, o que houve foi uma publicação restrita às instituições, com uma prévia do número de alunos com proficiência que saiu com dados incorretos.”
Em nota, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior destaca o reconhecimento pelo MEC das inconsistências e defende a apuração criteriosa dos fatos. Reafirma, portanto, que é impossível garantir que os conceitos produzidos e divulgados estejam corretos.
O Inep vai abrir prazo de cinco dias, a contar da próxima segunda-feira (26/1) para que as instituições possam esclarecer dúvidas e apresentar as suas manifestações a respeito do cálculo do resultado da avaliação dos cursos.
Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – NOTA 5
♦ Número de concluintes (118)
♦ Número de participantes (118)
♦ Número de participantes com nota igual ou acima da proficiência (113)
♦ Percentual de proficiência (95,8%)
Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) – NOTA 4
♦ Número de concluintes (119)
♦ Número de participantes (119)
♦ Número de participantes com nota igual ou acima da proficiência (95)
♦ Percentual de proficiência (79,8%)
Centro Universitário UniFAJ Jaguariúna – NOTA 3
♦ Número de concluintes (80)
♦ Número de participantes (80)
♦ Número de participantes com nota igual ou acima da proficiência (51)
♦ Percentual de proficiência (63,8%)
Centro Universitário UniMAX Indaiatuba – NOTA 3
♦ Número de concluintes (81)
♦ Número de participantes (81)
♦ Número de participantes com nota igual ou acima da proficiência (55)
♦ Percentual de proeficiência (67,9%)
Faculdade São Leopoldo Mandic Campinas – NOTA 2
♦ Número de concluintes (191)
♦ Número de participantes (191)
♦ Número de participantes com nota igual ou acima da proficiência (110)
♦ Percentual de proeficiência (57,5%)
Resultados
Os melhores desempenhos no Enamed foram observados entre 6.502 estudantes de instituições federais, que apresentaram uma pontuação média de 83,1% de proficiência, seguido dos alunos das estaduais, com média de 86,6%, entre os 2.402 inscritos.
Os piores desempenhos foram dos 944 concluintes da rede municipal, que somaram uma média de 49,7% da pontuação máxima, com resultado médio considerado insuficiente pelo exame. Os 15.409 estudantes da rede privada com fins lucrativos também apresentaram uma média de apenas 57,2% da pontuação máxima.
Enamed
Criado em abril de 2025, o Enamed é a adaptação do Exame Nacional de Avaliação dos Estudantes (Enade) para estudantes concluintes do curso de medicina, com o objetivo de avaliar a formação médica no Brasil. O exame é obrigatório e o programa de residência médica unificado do MEC, organizado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) por meio do Exame Nacional de Residência (Enare), utiliza o resultado obtido pelo estudante para ingresso.
Posição da São Leopoldo
“O Grupo Mandic reafirma seu compromisso histórico com a excelência na formação médica, fruto de investimentos contínuos em infraestrutura de ponta, corpo docente qualificado e uma proposta pedagógica centrada no cuidado integral do paciente. Diante da recente divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED), a instituição esclarece que foram identificadas inconsistências sistêmicas na divulgação pública dos dados pelo Ministério da Educação, com divergências significativas entre as notas publicadas e aquelas disponíveis às próprias instituições na plataforma oficial E-MEC. Este cenário afeta diversas instituições de ensino superior em nível nacional, sendo fundamental que a leitura dos resultados se baseie exclusivamente nas informações oficiais de acesso institucional.
Os dados institucionais oficiais apontam desempenho consistente, com destaque para a Faculdade de Medicina do Sertão (Conceito 4) e Campinas (Conceito 3). Sobre o resultado de Araras (Conceito 2), a instituição ressalta que o exame foi aplicado a alunos do 11º período, sem impacto imediato em suas carreiras, o que gerou um baixo engajamento, com apenas 15% de adesão ao Exame Nacional de Residência. A instituição reforça que o desempenho isolado em uma prova não reflete a qualidade de seu projeto pedagógico e defende uma revisão no modelo de avaliação para que os próximos ciclos garantam maior adesão discente e precisão nos resultados”,
Posição da Franco Montoro
Fora da RMC, a Faculdade Municipal Prof Franco Montoro, localizada em Mogi Guaçu, obteve nota 1, com 55 concluintes, 55 participantes na prova e apenas 18 com nota igual ou acima da proeficiência, um percentual de acerto de 32,7%.
“Nosso curso iniciou em 2020, com exatos 28 dias de aula ocorreu o “lockdown” da pandemia COVID-19 e, por longos 18 meses tivemos aulas on-line. Formamos a primeira turma com o curso reconhecido. Infelizmente, alguns alunos não entenderam a importância da prova para a Instituição e não respeitaram nem o tempo mínimo do exame, o que fez com que as notas, no cômputo geral, fossem puxadas para baixo. Muitos alunos obtiveram acima de 75% de aproveitamento, os mais comprometidos e cientes que o nome da Instituição são eles que levam adiante. Este ano, desde o início do ano letivo, já incentivaremos a importância desta prova para o nome da instituição de ensino”.











