A cada quatro anos, a Copa do Mundo transforma-se em um dos maiores fenômenos sociais da humanidade. No Brasil, em especial, os dias de jogos da seleção nacional transcendem o universo esportivo e adquirem características quase ritualísticas. Empresas suspendem atividades, escolas alteram horários, famílias se reúnem, ruas se vestem de verde e amarelo e milhões de pessoas compartilham uma mesma expectativa (já não mais como em outras épocas isso é fato, porém há quem insista em fazer e irei explorar o porquê a seguir). Sob a ótica da psicanálise, entretanto, esse fenômeno revela algo muito mais profundo do que a simples paixão pelo futebol: trata-se de uma poderosa mobilização da libido coletiva.
Para Sigmund Freud, pioneiro da Psicanálise, a libido representa a energia psíquica que movimenta nossos desejos, investimentos afetivos e expectativas. Durante a Copa, essa energia deixa de ser direcionada às frustrações cotidianas, como o trabalho, contas, conflitos familiares, ansiedade e inseguranças e passa a ser investida em um objeto externo, no caso desse artigo a Seleção Brasileira no contexto da Copa do Mundo. A esperança de uma vitória, a emoção de um gol e a possibilidade do título torna-se recipientes dessa energia psíquica, produzindo intensa excitação emocional.
Essa mobilização gera aquilo que Freud chamou de descarga pulsional. O grito do gol, o abraço coletivo, o choro, a tensão dos pênaltis e até mesmo a raiva diante de uma derrota representam formas de descarregar uma energia emocional que, muitas vezes, permaneceu reprimida durante meses de rotina, obrigações e sofrimento psíquico. Por alguns instantes, o indivíduo sente-se aliviado. Contudo, esse alívio é passageiro. Terminado o jogo, retornam as mesmas dificuldades existenciais que haviam sido temporariamente silenciadas.
É justamente nesse ponto que a reflexão de Jacques Lacan, outro grande nome da psicanálise, amplia nossa compreensão. Segundo Lacan, o desejo humano estrutura-se em torno da falta. O sujeito vive permanentemente buscando um objeto que acredita ser capaz de preencher seu vazio interno, mas nenhum objeto consegue fazê-lo de maneira definitiva (tal desejo já era trabalhado pelo filósofo grego Platão).
A Copa do Mundo funciona, então, como um grande significante desse desejo coletivo. Durante algumas semanas, anseia-se pelos jogos como uma fuga e possibilidade dessa descarga pulsional, entretanto, ao final do torneio, a falta permanece intacta. O desejo apenas desloca-se para outro objeto e os problemas pessoais, familiares, no trabalho, as contas, emocionais permanecem.
Sob essa perspectiva, a Copa opera como um gigantesco placebo emocional. O placebo produz efeitos reais sobre o sofrimento, mas não elimina sua causa. Da mesma forma, o futebol oferece momentos autênticos de prazer, pertencimento e esperança, porém não resolve os conflitos internos, os traumas, as angústias ou os dilemas existenciais que acompanham o sujeito. Trata-se de uma anestesia psíquica temporária.
A filosofia também lança luz sobre esse fenômeno. Arthur Schopenhauer, grande filósofo alemão, afirmava que a vida oscila continuamente entre a dor e o tédio. Quando estamos privados de algo, sofremos; quando conquistamos aquilo que desejávamos, rapidamente retornamos ao vazio. A Copa do Mundo encaixa-se perfeitamente nessa dinâmica: durante semanas existe intensa expectativa; encerrado o campeonato, instala-se novamente o cotidiano, frequentemente acompanhado da mesma sensação de incompletude.
Já Friedrich Nietzsche, outro gigante da filosofia alemã, compreenderia a Copa como uma explosão dos impulsos dionisíacos: uma celebração coletiva da emoção, da intensidade e da suspensão temporária da racionalidade. O estádio transforma-se em um espaço onde as regras sociais parecem ser momentaneamente flexibilizadas. O indivíduo sente-se parte de algo maior, quase dissolvendo sua identidade na massa, entretanto, Nietzsche advertia que nenhuma festa substitui o desafio de construir uma existência autêntica.
A embriaguez coletiva pode aliviar, mas não pode fundamentar o sentido da vida.
A crítica filosófica torna-se ainda mais contundente em Herbert Marcuse, representante da Escola de Frankfurt. Em sua obra “O Homem Unidimensional”, Marcuse, filósofo e sociólogo alemão, argumenta que as sociedades modernas produzem formas sofisticadas de entretenimento capazes de aliviar tensões sem modificar as estruturas que geram sofrimento. O lazer passa a funcionar como mecanismo de adaptação social. Sob essa leitura, a Copa do Mundo pode ser compreendida como um evento que permite uma catarse coletiva enquanto a realidade econômica, política e social permanece praticamente inalterada.
Também Blaise Pascal, filósofo francês, já observava, no século XVII, que o ser humano cria inúmeros “divertissements” (distrações) para evitar confrontar sua própria condição existencial. Permanecer ocupado impede que o indivíduo pense sobre sua finitude, sua solidão e suas angústias. Nesse sentido, a expectativa pelos jogos da Seleção Brasileira oferece exatamente essa função: ocupar a mente, suspender momentaneamente as preocupações e adiar o encontro com questões mais profundas.
ATENÇÃO: Isso não significa que o futebol seja negativo ou deva ser rejeitado, muito menos nesse período de Copa do Mundo torcendo e vibrando pela seleção brasileira! A psicanálise não condena o prazer; ao contrário, reconhece sua importância para o equilíbrio psíquico. O problema surge quando o prazer transforma-se em fuga permanente. Quando a Copa deixa de ser celebração e passa a ser utilizada como única estratégia para suportar uma vida emocionalmente adoecida, ela converte-se em anestésico. O anestésico reduz a dor, mas não cicatriza a ferida.
Talvez a maior contribuição da psicanálise seja justamente recordar que nenhuma vitória esportiva pode preencher aquilo que pertence ao campo do inconsciente. Nenhum título mundial elimina traumas, restaura vínculos afetivos rompidos ou resolve conflitos internos. Da mesma forma, a filosofia recorda que nenhuma distração, por mais intensa que seja, substitui o exercício do autoconhecimento e da reflexão crítica.
Assim, a Copa do Mundo revela uma das maiores paradoxos da condição humana: buscamos incessantemente momentos de euforia para escapar da dor, mas é justamente no enfrentamento consciente dessa dor que reside a possibilidade de transformação. O futebol emociona, une pessoas e produz memórias inesquecíveis entretanto, quando o árbitro apita o fim da partida, a vida continua exigindo aquilo que nenhum campeonato pode oferecer: a difícil tarefa de elaborar nossos conflitos, assumir nossa liberdade e construir, dia após dia, um sentido para existir.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br












