O planeta Terra, a nossa casa comum de todos, está enfrentando três graves crises socioambientais concomitantes. Uma delas é a da emergência climática, a mais comentada e foco de muita polêmica, entre outros fatores porque tem muito dinheiro envolvido. A exploração dos combustíveis fósseis, quais sejam, petróleo, carvão, gás natural, envolve investimentos bilionários. Abandonar, assim, os combustíveis fósseis, responsáveis diretos pela crise climática em curso, não é algo simples. A segunda crise, igualmente grave mas menos citada, é a da erosão da biodiversidade.
A vida no planeta vem sendo tecida ao longo de bilhões de anos pela interação entre espécies vegetais e animais e essa relação está sendo perdida pelo rápido desaparecimento da biodiversidade, o que coloca em xeque o próprio futuro da humanidade, da mesma forma que a emergência climática. A terceira grave crise contemporânea também é pouco falada e gera ameaças igualmente gigantescas para a civilização como conhecemos. É a crise da água.
No final do ano, mais precisamente entre 2 e 4 de dezembro, os Emirados Árabes Unidos vão sediar a Conferência das Nações Unidas sobre a Água. Um grande fórum para debater o estado atual e o futuro dos recursos hídricos. De modo específico, serão discutidas alternativas para viabilizar o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 6, “Garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos”.
O tom da Conferência deve ser dramático, a julgar pelo recente relatório “Falência Hídrica Global”, que acaba de ser lançado pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. Sim, para esta importante organização da ONU o mundo já vive a Era da Falência Hídrica Global e são vários dados confirmando essa afirmação.
“Muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”, alertou o diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, no momento de divulgação do relatório. Ele destacou que a falência da água é uma questão séria de justiça e segurança globais.
Segundo o relatório, metade dos grandes lagos do mundo, dos quais 25% da humanidade depende, perderam água desde o início da década de 1990. Além disso, 70% dos principais aquíferos apresentam declínio. Nas últimas cinco décadas, acrescenta o documento, 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais foram destruídos, quase o equivalente ao tamanho de toda a União Europeia.
O aquecimento global naturalmente repercute na situação dos recursos hídricos. De acordo com o relatório da Universidade das Nações Unidas, secas ocasionais em algumas áreas se transformaram em escassez permanente de água. O documento cita igualmente a degradação dos recursos hídricos por diversas fontes de poluição, como aditivos usados na agricultura, despejo de esgoto, resíduos de mineração, poluição por plásticos e contaminantes como produtos farmacêuticos e de higiene pessoal.

O relatório sobre a “Falência Hídrica Global” se soma, portanto, ao levantamento anual feito pela própria ONU sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Com relação ao ODS 6, que trata da água e saneamento, o relatório de 2025 lembra que mais de 2 bilhões de pessoas em todo mundo ainda não têm acesso a água potável e 3,4 bilhões vivem sem acesso a saneamento. Em 129 países, que representam quase 90% da população mundial, o tratamento de esgoto urbano é de pouco mais de 50%.
Neste cenário global, vem a pergunta: e o Brasil, país que soma 12% da água doce do planeta? Sim, país privilegiado em água, mas que tem enorme disparidade em sua distribuição. Cerca de 80% da água doce brasileira estão na Amazônia, onde vivem 30 milhões de pessoas, mais ou menos 15% da população do país.
No estado de São Paulo, onde vivem 46 milhões de habitantes, 21,6% da população brasileira, estão menos de 2% da água doce disponível no país. A diferença é grande, especialmente, então, em território paulista. Mas a dificuldade de acesso à água doce e potável é uma realidade em todo país, claro que guardada a realidade local.
De qualquer forma o Brasil tem declinado no acesso a água a cada ano. Segundo o MapBiomas, nos corpos hídricos naturais, houve uma queda de 30,8% ou 6,3 milhões de hectares em 2023, em relação a 1985.
“Enquanto o Cerrado e Caatinga estão experimentando aumento na superfície da água devido à criação de hidrelétricas e reservatórios, outros, como a Amazônia e o Pantanal, enfrentam uma grave redução hídrica, levando a significativos impactos ecológicos, sociais e econômicos. Essas tendências agravadas pelas mudanças climáticas ressaltam a necessidade urgente de estratégias adaptativas de gestão hídrica”, afirmou Juliano Schirmbeck, coordenador Técnico do MapBiomas Água.
Esta é a grande incógnita. As mudanças climáticas cada vez mais aceleradas estão mudando o regime de chuvas e portanto de disponibilidade hídrica no Brasil e também em todo o planeta. Pode chover demais em determinada região e momento do ano, pode ocorrer uma seca intensa e severa em outra região e em outro período.
É neste caso que devemos nos preocupar na Região Metropolitana de Campinas. A estiagem de 2014-2015 quase que levou ao caos hídrico na região, por exemplo com a redução do nível do Sistema Cantareira à reserva técnica, ou seja, muito abaixo do volume normal nos reservatórios, alimentados pela bacia do rio Piracicaba.
Recentemente, a situação do Cantareira voltou a ficar crítica e as chuvas das últimas semanas melhoraram um pouco a situação. Mas nada garante que não ocorra outra estiagem intensa. Como precaução para a segurança hídrica na região, estão sendo construídas duas barragens, em Pedreira e Amparo, em fase final de obras.
Mas todo cuidado é pouco. É fundamental que haja um cuidado permanente com a gestão das águas na região e, mesmo que seja privatizado o sistema das duas barragens, como ocorreu com a Sabesp, que seja observado antes de tudo o princípio do bem comum, da democratização e do direito humano à água acima de tudo, acima dos interesses particulares.
Assim como nas crises climática e da biodiversidade, a crise da água, agora caracterizada pela Universidade da ONU como Era da Falência Hídrica Global, também é uma questão política. Política porque está em jogo o direito humano à água e ao saneamento que, aliás, foi reconhecido apenas recentemente pelas Nações Unidas – em julho de 2010, mais precisamente. Estão em jogo grandes interesses e, de novo, acima de tudo deve estar o interesse da população, do ser humano, de ter acesso à água com qualidade e em quantidade e ao saneamento adequado. Respeitar esse direito é fundamental, é um pilar civilizatório inegociável.
Todas essas reflexões também são válidas em relação ao Dia Mundial da Água, celebrado a 22 de março de cada ano. Em 2026, o tema do Dia Mundial da Água é Água e Gênero. Mais um apelo à igualdade do acesso à água potável, independente do gênero.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












