O tabagismo é um dos fatores mais comuns quando se pensa em alergias. Sua ligação com uma série de doenças dentro da marcha atópica – a cascata de alergias que começa com dermatite alérgica (como eczema) na infância, progride para rinite alérgica e finalmente se manifesta com asma – tem sido amplamente pesquisada. Quero neste relato ressaltar uma meta-análise, já um pouco antiga, mas não menos importante (de 2014), que analisou amplamente os dados de todas as pesquisas publicadas até então sobre o tema do tabagismo e sua relação com alergias.
O enorme volume de conhecimento acumulado e analisado muitas vezes dificulta a elaboração de boas recomendações para profissionais da saúde sobre os riscos envolvidos – quanto mais para outros pesquisadores da área que desejam entender como seu trabalho se encaixa no contexto. Uma meta-análise como esta permite que todos os estudos sejam avaliados em conjunto e oferece uma visão mais clara do panorama da pesquisa. Os autores identificaram 1457 artigos a partir de buscas em diversas bases de dados utilizando termos-chave. Os pesquisadores identificaram 196 estudos observacionais, publicados em 139 artigos em 51 países diferentes, que investigaram a associação entre exposição à fumaça e rinite alérgica, dermatite e alergias alimentares. O total inclui 97 estudos sobre rinite alérgica, 91 sobre dermatite alérgica e 8 sobre alergias alimentares.
Uma das principais conclusões desta meta-análise é que, em países onde o tabagismo é comum, uma proporção significativa de doenças alérgicas pode ser atribuída ao fumo. Em crianças, por exemplo, 14% dos casos de rinite alérgica e 13% dos casos de dermatite alérgica podem ser atribuídos ao tabagismo ativo. Portanto, a eliminação do tabagismo ativo entre crianças e adolescentes poderia prevenir um em cada sete casos de rinite alérgica e um em cada oito casos de dermatite alérgica.
Globalmente, o tabagismo, especialmente o tabagismo ativo, aumenta o risco de doenças alérgicas; ligeiramente em adultos e moderadamente em crianças e adolescentes. Entre crianças e adolescentes, observaram-se associações significativas entre o tabagismo ativo e passivo e a rinite e dermatite, enquanto o tabagismo passivo foi associado a um risco aumentado também de alergias alimentares. De 97 estudos, 34 foram sobre tabagismo ativo e 63 sobre tabagismo passivo. Os resultados mostraram que não houve associação entre rinite alérgica e tabagismo ativo quando todos os estudos foram considerados, embora tenha sido observada uma leve associação com o fumo passivo (utilizando análise de efeitos aleatórios e análises de subgrupos). A partir dos dados, os pesquisadores constataram indícios de uma possível falta de estudos que corroborem uma associação positiva entre a doença e o tabagismo — o que sugere um potencial viés de publicação.
Trinta e três estudos sobre tabagismo ativo e 58 sobre tabagismo passivo revelaram que o tabagismo ativo estava significativamente associado a um risco aumentado de dermatite alérgica. O mesmo foi observado para o tabagismo passivo. Apenas um estudo analisou a associação entre tabagismo ativo e alergias alimentares, e seis estudos analisaram o tabagismo passivo. O tabagismo ativo não apresentou associação significativa, enquanto o tabagismo passivo apresentou. Apesar da análise, ainda existem limitações. A precisão dos próprios estudos, por serem transversais, não permite inferências causais e, por vezes, pode superestimar os riscos relativos.
O tabaco já é conhecido como a causa de muitas doenças. As pessoas devem saber que ele também é um fator de risco para doenças alérgicas, especialmente entre crianças. Acredito que esforços devem ser feitos para reduzir o risco de exposição ao tabaco entre crianças. Todos nós sabemos de outros riscos do tabagismo, principalmente em relação de inúmeros tipos de câncer como pulmão, bexiga, dentre outros. Entretanto muitos outros agravos existem e este relato ressalta a possível associação do tabagismo as alergias, principalmente, respiratórias.
O sistema imunológico humano é extremamente complexo, com muitos tipos diferentes de células que desempenham funções distintas com o objetivo comum de proteger de agressores ou de invasores. Com monócitos, mastócitos, neutrófilos e outros polimorfonucleares macrófagos, linfócitos B, linfócitos T, etc. a força do exército de defesa é bastante poderosa. De tempos em tempos, essa força avassaladora é liberada contra algo tão inofensivo quanto pólen ou poeira, resultando em uma reação exacerbada, a alérgica. Há um consenso crescente de que existe uma sequência e inevitabilidade na cascata de alergias que todos parecemos desenvolver desde a infância. Como dominós em fila, todas essas doenças fazem parte de um estado contínuo, da mesma cascata — conhecida como “marcha atópica”.
Não só certas alergias e reações alérgicas são muito comuns, como parecem estar em ascensão — uma marcha inexplicável e aparentemente imparável de doenças alérgicas. Rinite alérgica, dermatite, asma e alergias alimentares são doenças comuns em todo o mundo. Podemos quase afirmar que é difícil encontrar um ser humano sem algum tipo de fenômeno alérgico. E os profissionais de saúde se deparam com elas diariamente. A rinite afeta até 20% da população na Europa e nos Estados Unidos — sendo uma parcela significativa dessas são crianças. A dermatite alérgica, por si só, pode afetar até 20% da população em muitos lugares. As alergias alimentares podem ter uma prevalência que varia entre 3% e 35%.
Eu costumo dizer que apesar de complexo e desenvolvido, nosso sistema imune parece ser “um hardware velho em software novo”, isto é, nosso sistema imune talvez não tenha tido tempo para se desenvolver para atender todas as “agressões” por que passamos nos dias cotidianamente.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.











