Todos os anos, não apenas no Dia Mundial da Luta contra a AIDS comemorado em 1º de dezembro através do mundo, ainda devemos refletir sobre o progresso alcançado na luta contra o HIV e a AIDS, reconhecendo também os desafios que ainda persistem. A lembrança pelas milhões de vidas perdidas é um chamado à ação para continuarmos avançando na prevenção, no tratamento e na equidade.
A epidemia de HIV moldou a saúde pública por mais de quatro décadas, e as lições aprendidas continuam a orientar a forma como respondemos às crises de saúde emergentes da atualidade.
De estudos sobre estigma e acesso a cuidados até abordagens inovadoras em prevenção e tratamento, muitos artigos científicos ressaltam a importância de soluções lideradas pela comunidade e estratégias baseadas em evidências. Juntos, eles nos lembram que o progresso é possível quando ciência, políticas públicas e experiências vividas se encontram — e que a luta contra o HIV continua sendo um desafio crucial para a saúde. Um exemplo vivido recentemente, e que juntam duas pandemias, é que pessoas vivendo com HIV-1 em tratamento com terapia antirretroviral combinada (TARV) apresentam incidência de infecção por SARS-CoV-2 semelhantes à de pessoas sem HIV-1. No entanto, aproximadamente 25% destas pessoas em todo o mundo não têm acesso à TARV. A influência da depleção de células T CD4 + no risco de (re)infecção por coronavírus humano, incluindo o SARS-CoV-2, é em grande parte desconhecida.
Outro tema preocupante, é o de adolescentes e jovens adultos (AJA), com idades entre 15 e 24 anos, vivendo com HIV apresentam adesão subótima ao tratamento antirretroviral em comparação com seus pares adultos, o que gera preocupações adicionais quanto à saúde precária e à resistência aos medicamentos.
Embora se saiba que os AJA necessitam do apoio de cuidadores e familiares para uma transição bem-sucedida para o autocuidado do HIV, o envolvimento dos cuidadores nesse sentido tem sido limitado. Para preencher essa lacuna, é importante a educação para o autocuidado a fim de melhorar os resultados do tratamento do HIV nessa faixa etária.
Mais um ponto crítico para a ciência e a medicina é o da transmissão do HIV durante a fase inicial da infecção, que é uma ameaça à saúde pública, visto que o diagnóstico geralmente ocorre após esse período onde há um elevado risco de transmissão. A duração do TARV inicialmente prescrito é crucial para a supressão viral a longo prazo em pessoas vivendo com HIV. No entanto, os dados sobre a incidência de modificação do regime e seus fatores associados ainda são limitados. As adolescentes apresentam um risco desproporcionalmente alto de contrair HIV e de gravidez indesejada.
Intervenções eficazes para aumentar a adesão aos testes de HIV e ao uso de contraceptivos são urgentemente necessárias em muitas regiões do mundo, particularmente na África. Um ensaio clínico randomizado, realizado em 46 escolas africanas avaliou a intervenção SKILLZ:
(a) 12 sessões extracurriculares de educação sexual e em saúde sexual e reprodutiva (SSR), culminando em um evento comunitário de futebol de “formatura”, onde uma clínica móvel ofereceu testes de HIV e contraceptivos;
(b) para as pessoas soropositivas, encaminhamento para tratamento de HIV com auxílio de treinadores, psicoterapia interpessoal em grupo ou serviços adaptados para jovens; e
(c) distribuição comunitária de autotestes de HIV e contraceptivos.
A infecção aguda pelo HIV é o estágio mais infeccioso do HIV, porém os testes rápidos existentes não conseguem detectar o HIV de forma confiável nessa fase inicial e exigem até 90 dias após a exposição para resultados precisos. Os testes moleculares realizados em laboratório podem detectar a infecção aguda, mas muitas vezes são inacessíveis para populações de alto risco com acesso limitado aos serviços de saúde.
Novos testes rápidos estão em desenvolvimento, permitindo a detecção precoce e descentralizada.
O que descrevi acima demonstra que avançamos muito, mas ainda há muito o que se fazer no domínio e controle do HIV em nossa sociedade. Importante é manter a prioridade e as pesquisas em todos estes campos para evoluirmos para o total controle desta enfermidade.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.












