Celebrar o Dia Internacional da Mulher, em 08 de março, é mais do que uma data simbólica no calendário: é reconhecer a profundidade e a complexidade do papel feminino na constituição da sociedade e da família. À luz da psicanálise, a mulher ocupa um lugar estruturante na formação subjetiva dos indivíduos, sendo presença primordial nos primeiros vínculos afetivos que moldam o psiquismo humano. Falar da importância da mulher é, portanto, falar da origem do laço social e da construção da identidade.
Desde Sigmund Freud, compreendemos que os primeiros anos de vida são decisivos para a formação da personalidade. A figura materna; não necessariamente restrita à mãe biológica, mas à função de cuidado; representa o primeiro objeto de amor, o primeiro espelho afetivo no qual a criança se reconhece.
É nesse encontro inicial que se estabelecem as bases da autoestima, da segurança emocional e da capacidade de se relacionar com o outro. A mulher, nesse sentido, exerce uma função psíquica estruturante, sendo mediadora entre o bebê e o mundo.
Posteriormente, autores como Donald Winnicott aprofundaram essa compreensão ao falar da “mãe suficientemente boa”, aquela que, ao oferecer cuidado, acolhimento e adaptação às necessidades do bebê, possibilita o desenvolvimento saudável do self. A mulher, enquanto presença cuidadora, não apenas alimenta e protege, mas sustenta emocionalmente, criando um ambiente facilitador para que o sujeito possa existir com autenticidade. Esse cuidado inicial reverbera por toda a vida, influenciando a maneira como o indivíduo enfrentará frustrações, estabelecerá vínculos e lidará com suas próprias fragilidades.
Sob a perspectiva de Jacques Lacan, a mulher também ocupa um lugar simbólico fundamental na introdução da criança na linguagem e na cultura. Ao falar com o bebê, ao nomear suas experiências, ao traduzir seu choro e suas necessidades, ela o insere no universo simbólico, possibilitando que o desejo e a palavra se organizem. Assim, a mulher participa ativamente da constituição do sujeito enquanto ser social, capaz de significar o mundo e a si mesmo.
Na família, o papel feminino transcende funções práticas. A mulher frequentemente atua como eixo emocional do grupo familiar, articulando afetos, mediando conflitos e sustentando vínculos. Sua escuta, sua sensibilidade e sua capacidade de empatia tornam-se elementos essenciais para a manutenção da saúde psíquica coletiva. Em muitos contextos, é a mulher quem percebe silenciosamente os sofrimentos não verbalizados, funcionando como continente emocional para angústias que, sem acolhimento, poderiam se transformar em sintomas mais graves.
No âmbito social, a presença feminina amplia perspectivas, humaniza decisões e introduz nuances afetivas em espaços historicamente marcados pela rigidez e pela competitividade. A psicanálise nos ensina que a cultura é construída a partir das renúncias pulsionais e das negociações simbólicas; nesse processo, a contribuição feminina tem sido essencial para equilibrar razão e sensibilidade, firmeza e cuidado. A mulher, ao ocupar espaços profissionais, acadêmicos e políticos, não apenas reivindica direitos, mas transforma estruturas, trazendo novas formas de pensar o poder e a convivência.
É importante reconhecer que, historicamente, muitas mulheres enfrentaram silenciamentos e restrições que impactaram sua expressão subjetiva. A escuta psicanalítica revela quantas dores foram herdadas transgeracionalmente, quantos desejos foram reprimidos em nome de expectativas sociais.
Celebrar o 08 de março é também dar voz a essas histórias, legitimando experiências e promovendo a elaboração simbólica de traumas coletivos. O reconhecimento social tem efeito terapêutico, pois valida a existência e o valor de quem por tanto tempo foi inviabilizada.
Na educação dos filhos, a mulher frequentemente ensina, pelo exemplo, a importância da resiliência, da ternura e da responsabilidade. Ao equilibrar múltiplas funções, profissional, mãe, filha, companheira, demonstra a complexidade da identidade feminina, que não se reduz a um único papel. Essa multiplicidade desafia estereótipos e convida a sociedade a repensar concepções rígidas sobre gênero e função social.
Contudo, a psicanálise também nos alerta para o perigo da idealização. Reconhecer a importância da mulher não significa colocá-la em um pedestal inatingível, mas compreendê-la em sua humanidade, com desejos, limites e necessidades próprias. A verdadeira valorização passa pelo respeito à sua subjetividade, ao seu direito de escolha e à sua singularidade. A mulher não é apenas função; é sujeito de desejo, de pensamento e de criação.
Celebrar o Dia Internacional da Mulher é, portanto, reconhecer que a sociedade se sustenta sobre vínculos, e que esses vínculos têm, historicamente, na mulher uma de suas principais forças estruturantes.
É agradecer pelas mãos que cuidam, pela palavra que acolhe, pela coragem que enfrenta adversidades e pela inteligência que constrói caminhos. Mas é, sobretudo, reafirmar o compromisso com uma cultura que promova equidade, escuta e respeito.
Que o 08 de março seja não apenas uma homenagem, mas um convite à reflexão contínua sobre o lugar da mulher na família e na sociedade. Que possamos reconhecer sua importância não apenas em datas comemorativas, mas no cotidiano das relações, valorizando sua presença como fundamento do laço social e da saúde emocional coletiva.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br












