O clássico deste domingo (8) entre Corinthians e Palmeiras, realizado na Neo Química Arena, pela sétima rodada do Campeonato Paulista, gerou lances polêmicos e emoções à flor da pele. Em um jogo fisicamente disputado e com altos e baixos das duas equipes, o Palmeiras se sagrou vitorioso após gol do atacante Flaco López, no fim da segunda etapa.
O tento foi um banho de água fria para o Timão, que havia perdido grandes chances no jogo e viu seus melhores jogadores terem uma atuação abaixo da média. Um deles foi Memphis Depay, que desperdiçou o pênalti concedido à equipe alvinegra após saída embananada do goleiro Carlos Miguel, do Palmeiras.
Porém, uma situação curiosa se tornou alvo de controvérsia no pós-jogo.
Após a marcação da penalidade por Raphael Claus, no momento em que os jogadores das duas equipes pressionavam o árbitro – atitude tão naturalizada no futebol brasileiro – o jogador do Palmeiras Andreas Pereira, meio-campo da equipe de Abel Ferreira, foi flagrado pelas câmeras de transmissão praticando uma atitude sorrateira.
Com o jogo paralisado, o meio-campista raspou a chuteira sobre a marca em que o pênalti seria batido repetidas vezes, no intuito de deixar o gramado escorregadio e prejudicar a cobrança da penalidade.
Pelas imagens, é possível ver Andreas isolado dos companheiros, “sambando” em cima da marca do pênalti, enquanto jogadores dos dois times discutiam com a arbitragem ou recebiam instruções na área técnica.

O desfecho foi o que o jogador palmeirense visava: Memphis Depay, que realizou o chute, escorregou com o pé de apoio bem na região onde Andreas Pereira raspou com a chuteira.
O atacante holândes chutou para fora e “matou” o clima no estádio, em um momento em que o clube da casa estava melhor na partida e poderia abrir o placar.
Após o jogo, no entanto, a atitude de Andreas Pereira não gerou grandes questionamentos. O que se viu foram os jogadores, inclusive do Corinthians, minimizando a atitude do meio-campista.
O volante Raniele, do Corinthians, e o zagueiro Gustavo Gómez, do Palmeiras, disseram que foi uma atitude de jogo. O discurso de que o time do Corinthians não foi esperto o suficiente para proteger a marca do pênalti resumiu as opiniões da zona mista.
É compreensível que um profissional como o Raniele se importe mais com o futebol que seu time deixou de jogar do que com uma atitude isolada. É até admirável não se apoiar em desculpas para justificar a derrota.
O grande problema dessa narrativa, porém, é que se normaliza a sabotagem no futebol.

A ação de Andreas Pereira não teve nenhum motivo a não ser prejudicar a cobrança pelo time adversário. Ele deliberadamente provocou dano ao gramado com o objetivo de sabotar a batida do pênalti. Como definido pelo Dicionário Infopédia, ‘sabotagem’ significa “destruição ou inutilização voluntária de instrumentos de trabalho ou outros equipamentos, com o objetivo de prejudicar o curso normal do trabalho ou de uma atividade”. Isso vai muito além de uma catimba.
O jogador do Palmeiras intencionalmente prejudicou o exercício do ofício por um companheiro de profissão.
Estamos falando de uma classe de profissionais, os jogadores de futebol. A partir do momento que você altera, com dolo, as condições dos instrumentos de trabalho de um colega que pratica a mesma profissão que você, no intuito de alterar o desenrolar natural e justo de uma infração marcada pela autoridade competente da partida (o árbitro), você está praticando uma sabotagem.
A atitude do meio-campista se equipara à de Keno, em Dérbi Paulista disputado em 2017, quando o jogador, que atuava pelo Palmeiras, “enganou” o árbitro e o influenciou a expulsar o jogador errado.
O ponto é que, por mais que o futebol seja visto como uma guerra simbólica, e que por isso desrespeitos com os colegas de profissão sejam tolerados – e até incentivados –, ainda é um esporte como qualquer outro. É uma atração televisionada, nacionalmente assistida, e que mobiliza milhões de pessoas.
A educação de um país passa por aquilo que ela exalta, e uma atitude como a de Andreas não pode passar despercebida pelas autoridades do futebol brasileiro, justamente por ela dar um mau exemplo. Depreende-se dela que, para ter sucesso no futebol, os fins justificam os meios.
Muitas vezes o futebol não é visto por esse lado, mas estamos falando de instituições com centenas de milhões investidos em estrutura e salários, disputando partidas que podem alterar o futuro dos dois clubes e dos profissionais que os compõem.
Assim como qualquer outro ramo da vida, é necessário ter competição leal. Por isso, certas atitudes no jogo, como as faltas ou xingamentos, são punidas com cartões.
É por esse ponto de vista que a ação de Andreas Pereira deve ser analisada: uma atitude antidesportiva, que prejudica a disputa leal (fair play) e que é passível de punição. Se não no campo, no extra-campo.











