Campinas chega na COP 30, que começa em menos de um mês em Belém, como exemplo de política pública municipal de enfrentamento da emergência climática, com soluções baseadas na natureza. O diagnóstico foi feito pela WRI Brasil, a representação brasileira do World Resources Institute (WRI), fundado em 1982 nos Estados Unidos e que hoje é referência global em temas socioambientais.
O WRI acompanha e assessora a Prefeitura de Campinas há quase 10 anos, compreendendo portanto os mandatos dos prefeitos Jonas Donizette e Dario Saadi. Neste período, o município implantou várias ações que lhe credenciam a ser uma referência nacional em políticas públicas locais de enfrentamento da emergência climática.
Começa com o Plano Municipal do Verde, de 2016, que previu a implantação de Parques Lineares, como uma das estratégias de proteção da biodiversidade, segurança hídrica e resiliência climática. Um ano depois foi lançado o Reconecta RMC, ampliando a abordagem de Parques Lineares e Corredores ecológicos para toda a Região Metropolitana de Campinas.
Em 2020, Campinas assimilou o conceito de soluções baseadas na natureza em suas políticas municipais. Houve então a revisão do Plano Municipal do Verde e dos Planos de Recursos Hídricos e de Educação Ambiental “a partir dessa perspectiva integral: de que é preciso abordar a um só tempo os desafios do clima, da biodiversidade e da desigualdade, e de que a dimensão climática precisa permear todo o planejamento”, segundo avaliação do WRI Brasil.
Entre 2019 e 2021, o WRI Brasil e a iniciativa Cities4Forests apoiaram a cidade no diagnóstico de vulnerabilidade climática que resultou na “Estratégia municipal multiescalar para a adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) para a cidade de Campinas”.
A metodologia desenvolvida em Campinas foi incorporada por Belo Horizonte, que também vem recebendo acompanhamento do WRI Brasil na formulação de sua política climática municipal. A de Campinas foi consolidada com o Plano Local de Ação Climática, de 2024.
São várias iniciativas, portanto, que vão colocar Campinas em destaque na COP 30, a COP da Amazônia. Também é preciso citar a proliferação de miniflorestas urbanas, em vários locais da cidade, também como forma de proteção da biodiversidade e enfrentamento da mudança climática.

Mas em vários outros pontos Campinas tem sido exemplo. Como fruto das ações da Defesa Civil, a cidade sedia o primeiro Centro de Resiliência do Brasil, assim reconhecido pelo Comitê de Coordenação Global da Iniciativa Construindo Cidades Resilientes e Escritório das Nações Unidas para Redução de Risco de Desastres.
Do mesmo modo, Campinas é líder nacional em saneamento básico, com integralidade em fornecimento e tratamento de água e esgotos urbanos, pela ação decisiva da Sanasa ao longo das últimas gestões.
E, claro, temos a contribuição fundamental de instituições como a Unicamp, com seus diversos pesquisadores dedicados à temática socioambiental. A publicação científica Elsevier listou recentemente 106 cientistas da Unicamp entre os mais influentes do mundo. Entre eles, por exemplo, Ivan Sazima, referência internacional em espécies da fauna, e Carlos Alfredo Joly, membro da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, o equivalente na Convenção da Diversidade Biológica do papel exercido pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) na Convenção das Mudanças do Clima.
Como jornalista e escritor que há 45 anos trabalha na questão socioambiental, só posso exaltar essa virada que Campinas deu na temática. Campinas que tem cerca de 5% de vegetação nativa (muito menos que os 10% da Mata Atlântica em média) e que há algumas décadas era muito criticada por não tratar os seus esgotos urbanos. Só posso atribuir esse novo momento à luta histórica de cidadãos e cientistas, como os “plantadores de florestas” Hermes Moreira de Souza (do Instituto Agronômico de Campinas), Wolfgang Schmidt (cujo trabalho foi reconhecido com o Prêmio Global 500 da ONU) e Hermógenes de Freitas de Leitão, que hoje dá nome ao lago no campus da Unicamp, onde foi professor.
Da Unicamp também é preciso citar Oswaldo Sevá e Mohamed Habib, dois pioneiros na luta socioambiental na região. Eles atuaram muito por exemplo no movimento contra a termelétrica a resíduo ultraviscoso de petróleo que estava prevista para Paulínia, no início da década de 1990.
Por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, em junho de 1992, no Rio de Janeiro (o principal evento socioambiental já realizado na história), tive a oportunidade, em uma conferência da imprensa internacional, de perguntar ao então governador Luiz Antônio Fleury Filho sobre os planos da termelétrica, que agravaria muito a poluição na região de Campinas. O governador respondeu afirmando que os planos da termelétrica estavam cancelados a partir daquele momento. Enfim, a história é feita de muitas mãos e em função dela hoje Campinas se apresenta em outro estágio na temática socioambiental.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












