Em todo o mundo, a sociedade prioriza a segurança. Cada vez mais, os lançamentos imobiliários destacam os aspectos de uma moradia protegida, bilhões são investidos para preservar, e bairros inteiros se fecham e se isolam.
Os centros urbanos crescem de forma desordenada e se aproximam cada vez mais das áreas marcadas pela exclusão social. O desemprego, a violência urbana, os muros pichados, o transporte caótico e as escolas abandonadas entristecem a nossa alma. A falta de perspectivas para os jovens, especialmente os de baixa escolaridade, representa um enorme desafio para o Estado e para toda a sociedade.
Como reverter um modelo que claramente nos conduz ao caos social e econômico? Não basta ajustar processos: é necessário repensar o sistema como um todo. É hora de reinventar o sentido da responsabilidade social e refletir, com urgência, sobre o futuro que queremos construir.
A arquitetura sempre refletiu os anseios sociais de um povo. Os condomínios residenciais de hoje lembram os tempos medievais: muros altos, portões reforçados, guardas, controle de acesso. As comunidades burguesas, em muitos aspectos, comportam-se como a antiga nobreza feudal, buscando proteção e exclusividade em detrimento da convivência coletiva.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, sonhou-se com uma era de paz global, mas esquecemos daqueles que permaneceram à margem. Sem esperança de progresso, muitos vivem invisíveis para o sistema, privados de perspectivas e oportunidades. Enquanto isso, arquitetos continuam a erguer muros e grades, numa tentativa de afastar os excluídos.
As crianças que crescem sem valores básicos perdem a referência de amor e respeito. Passam a viver em condições degradantes, sem acesso à cidadania plena e, quando desejam algo, podem agir de forma impulsiva, sem medir consequências.
Os condomínios fechados não resistirão à pressão dos marginalizados. Os castelos medievais não salvaram senhores feudais. O muro de Berlim não conteve a Alemanha Oriental. Nenhuma polícia antecipa as reações de uma sociedade desestruturada.
As elites precisam compreender a gravidade da situação e agir com responsabilidade. Não se trata de caridade, mas de sobrevivência. Um projeto estratégico de inclusão social é essencial. Diante de uma oportunidade real, a maioria buscará realizar seus sonhos de forma civilizada e construtiva.
Durante anos, apostou-se na esmola e na transferência caridosa de recursos, o que gerou dependência. O que realmente promoveu transformação foi o investimento em educação de qualidade. Quando o ensino foi priorizado, a desigualdade diminuiu; quando essa escolha não foi feita, a sociedade se tornou mais injusta.
A educação transforma e, quando aplicada de forma ampla em todos os níveis, prepara o indivíduo para um mundo competitivo. Se apenas a elite tiver acesso a uma escola de qualidade, o fosso social se aprofundará. Sem igualdade na formação, não há igualdade de oportunidades.
O saneamento, a saúde e a moradia são fundamentais, mas a educação deve ser prioridade. A maior injustiça é negar a uma criança o direito de aprender com qualidade. A educação básica bem estruturada nivela a competição e permite que o mérito prevaleça.
As pessoas sem educação adequada perdem a autoestima, vivem sem projetos, tornam-se apáticas ou vulneráveis a comportamentos destrutivos. Como afirmou Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.” Se quisermos um futuro com menos muros e mais pontes, o caminho é, sem dúvida, a educação.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar












