Os feeds das redes sociais estão inundados de posts sobre Eu Sou Celine Dion (I am Celine Dion), documentário lançado recentemente pela Prime Video e que expõe de forma nua e crua o frágil estado de saúde da superestrela canadense, diagnosticada com a rara Síndrome da Pessoa Rígida (SPR).
Gosto de ler biografias, especialmente quanto escritas por autores que pesquisam seus biografados para apresentarem uma imagem o mais realista possível. Se não há pesquisa muitas “biografias” acabam por mostrar apenas um lado da história, obviamente de quem vai dar nome à “obra”.
Quando a biografia é lançada em vídeo, uma luz amarela sempre acende pra mim, principalmente se o artista estiver envolvido no projeto. A chance de carregar nas tintas, especialmente para se valorizar como ser humano bonzinho, é imensa.
Comecei a assistir o documentário lembrando-me de outro, Na Cama com Madonna (Truth or Dare), lançado em 1991 e que expôs uma Madonna liberta sexualmente, mas também humanizada com problemas nas cordas vocais, saudosa de sua falecida mãe e em um romance fadado ao fracasso com seu então namorado, o ator Warren Beatty.
A humanização destas duas superestrelas da música é o único ponto em comum entre os dois documentários. Diferente de Madonna, Celine Dion forjou sua carreira galgada em uma voz de alcance estratosférico, elegância e uma vida discreta quando longe dos holofotes.
A construção do roteiro passa, primeiramente, por mostrar uma vaidade que Celine nunca escondeu. Seu guarda-roupas é um dos mais elegantes, caros e desejados por muitas mulheres de todo o mundo. Penso em Celine, nos primeiros minutos, como uma figura um tanto quanto blasé, que de tão entorpecida por tudo que pode comprar, mostra um closet com incontáveis pares de sapatos, todos de grife. Ela não deixa de comentar que sapatos são a sua paixão e que quando se apaixona por um modelo, não importa se há um par que seja do seu número ou não. Ela compra e se vira depois para os usar.

Mas é em um armazém, onde mantém um gigantesco acervo dos figurinos que vestiu desde o início de sua carreira, ainda como adolescente, é que se percebe o que de fato Celine quer apresentar nesta produção. Celine revela que gosta de visitar o lugar pois ele mostra a dimensão do que foi e é a sua vida como artista e também como mãe.
No local, além de seu guarda-roupas de palco, estão também a memorabilia de seus filhos, desde obras de arte que ela comprou para seus dois gêmeos brincarem quando deram os primeiros passos, até os rabiscos e desenhos. Celine quer guardar tudo, preservar sua história e dividi-la com outras gerações.
Não estou na cabeça de Celine para saber se ela, ao mostrar tanta beleza, exclusividade, dinheiro e fama, quis contrapor todo o seu sucesso com o fato de que nada disso conseguiu impedi-la de uma vertiginosa queda, iniciada pela morte de seu marido, René Angélil, aos 74 anos em 2016. Celine sempre se referiu a ele como “o grande amor da minha vida”.
Talvez seja este contraponto entre topo e fundo do poço que Celine queira nos mostrar, uma vez que apenas seis anos após da morte de René e mesmo com uma bem-sucedida residência de shows em Las Vegas, a artista viu-se cada dia mais debilitada e fez na frente das câmeras o seu mea culpa ao assumir ter mentido para o público quando teve de cancelar shows e que na fase inicial também disfarçava no palco os efeitos da síndrome, entre eles falhas na voz, seu maior e mais caro instrumento de trabalho.
Celine vai além, para mostrar o quanto a SPR interrompeu sua carreira. Submetendo-se a uma rotina de treinos físicos para ter mais mobilidade e com um pouco mais de confiança, tenta gravar uma nova música. Se no passado ela costumava gravar a mesma canção 5,6,7 vezes para atingir o’que ela considerava como perfeito, agora são várias tomadas cheias de quebras de voz, desafinos e frustrações. E ela sabe que não foi bem.
Mas é justamente em uma destas tomadas, que considera um passo na longa escada da recuperação, que seu entusiasmo a leva para o momento mais dramático do filme.
Sem maquiagem e roupas elegantes, Celine se deixa mostrar tendo uma crise convulsiva. Fortes dores e uma paralisia total a acometem e, catatônica, sofre enquanto seu terapeuta hesita entre a espera pela melhora após administrar remédios ou chamar os paramédicos.
Se você é fã de Celine vai sofrer com ela e se não é, talvez se compadeça de seu drama mostrado de uma maneira tão explícita. Os mais céticos podem classificar de mero exibicionismo e auto-exploração de imagem. Cada um vai ver a sua Celine à sua maneira. Entretanto, o mais importante nesta produção é que ela joga luz sobre a SPR, uma síndrome rara que afeta 1 a cada 1 milhão de pessoas.
Assista, eu recomendo.

Serviço: Eu Sou Celine Dion (I am Celine Dion) está atualmente no catálogo do Prime Video












