Na década de 1980, quando eu era um jovem médico e professor universitário, aprendi muito sobre hematologia, minha especialidade, e, circunstancialmente, um pouco sobre doenças infecciosas, com as epidemias de meningite (ainda como médico residente) e a pandemia do vírus HIV. Tive a responsabilidade de implantar o Hemocentro da Unicamp e a HEMO-REDE do Estado de São e assim trabalhar para a superação da grave crise sanitária causada pelo vírus HIV transmitida por transfusões. Também adquiri naquele momento, alguma compreensão sobre a cultura da ciência, principalmente sua difusão junto à sociedade.
Naquela época, a cultura dizia que interagir diretamente com o público era uma empreitada arriscada, e tentar interagir diretamente com jornalistas, mesmo jornalistas científicos sérios, era frequentemente criticado e potencialmente algo que poderia violar as normas profissionais do médico e do cientista. Anos depois, atuando e conversando com colegas, percebi que eu não estava sozinho nessa imersão cultural.
Avançando mais de 40 anos, constato que a cultura do silêncio, na qual os cientistas só falam e escrevem uns aos outros, ainda é bastante comum em muitos centros acadêmicos da área da saúde. Argumento que essas atitudes são, na verdade, prejudiciais e criaram um vácuo, permitindo que movimentos anticientíficos ganhassem força e até mesmo florescessem.
Como prova, pesquisas realizadas nos EUA mostram que a maioria dos americanos não consegue nominar um cientista vivo, enquanto outra pesquisa revela que apenas uma minoria de cientistas mantém blogs ou fala sobre seu trabalho nas redes sociais ou órgãos de imprensa. Isto também deve ser assim no Brasil. A ascensão atual do movimento antivacina é um exemplo do que acontece quando os cientistas se calam.
Tudo começou pouco antes do início deste século, com um artigo publicado na importante revista The Lancet, de altíssimo impacto, e que acabou por gerar temores generalizados de que as vacinas poderiam causar autismo. Embora o artigo tenha sido retratado 12 anos depois (muito tempo para um tema tão importante e sensível), o movimento antivacina já havia ganhado impulso e força.
Agora que estamos prestes a entrar na terceira década desse movimento, temos uma boa oportunidade para analisar os danos causados, especialmente na Europa, onde tudo começou, e também nos Estados Unidos, onde o movimento se consolidou e também, porque não dizer, no Brasil.
O sarampo é um bom indicador de atividades antivacina. Devido à sua alta transmissibilidade, quando a cobertura vacinal cai abaixo de 90% ou 95%, surtos de sarampo se tornam possíveis. Quando isso ocorre, as consequências costumam ser terríveis. O sarampo é uma doença potencialmente mortal que, durante a década de 1980, provavelmente matou mais crianças do que qualquer outra infecção pediátrica.
No início dos anos 2000, com a queda na cobertura vacinal, começamos a ver surtos de sarampo no Brasil, no Reino Unido e, posteriormente, em toda a Europa. Durante o primeiro semestre de 2018, a Organização Mundial da Saúde relatou mais de 40.000 casos de sarampo na Europa, com um aumento abrupto nas atividades antivacina, por exemplo, na Itália. Nos EUA, houve um surto terrível de sarampo em Minnesota em 2017. Em diversos estados do oeste americano, vários condados negaram vacinas às crianças.
O movimento antivacina, infelizmente, agora é global, atuando em vários países. O movimento é bem organizado e, em muitos casos, bem financiado. Nas últimas duas décadas, tenho observado o movimento antivacina crescer em termos de alcance e domínio na internet e nas redes sociais.
Vi este movimento se organizar politicamente e influenciar governos nacionais e estaduais. Li livros e assisti a “documentários” que criam deliberadamente uma imagem falsa das vacinas como agentes tóxicos.
Entretanto, abundantes evidências demonstram a inexistência de qualquer ligação entre vacinas e autismo ou qualquer outro agravo a saúde física ou mental. Este fato deve ser cada vez mais enfatizado e todos devemos lutar pelas vacinas. Nossas crianças merecem um futuro seguro e sadio.
Referência:
(1). Hotez PJ (2018) As vacinas não causaram o autismo de Rachel. Johns Hopkins University Press.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.











