A Copa do Mundo de 1994 foi a mais marcante de minha vida e aquela a que assisti com mais entusiasmo. Acredito que também tenha sido a preferida de meu avô, pois as anteriores talvez ele nem tenha acompanhado direito, seja porque morava na roça e não tinha televisor, seja porque, mesmo morando na cidade grande, as condições de vida não lhe deram o luxo de assistir aos jogos da Seleção.
Mas a Copa do tetracampeonato brasileiro ele pôde assistir a todos os jogos, sempre com minha companhia na torcida eufórica e fascinada. O jogador preferido de meu avô era Taffarel. Mas ele sempre errava o nome do goleiro e o chamava de “Taquaral”.
Meu avô gostava muito da posição de goleiro. Em nossas brincadeiras no fundo de casa, ele adorava ficar no gol. Outra coisa que contava repetidamente era sobre um jogo de futebol em sua juventude, quando ainda morava na roça. Vangloriava-se de ter encaixado no peito uma bola chutada com violência por um jogador adversário. Seu irmão, Lazinho, correu assustado para saber se estava tudo bem, afinal meu avô era magro e franzino, como muitos membros da família.
Naquela Copa, meu jogador preferido também foi um goleiro: Jorge Campos, que defendia a seleção mexicana.
Sua baixa estatura para a posição e suas roupas estilosas chamavam minha atenção e conquistavam minha torcida. Muitas coisas me marcaram naquela inesquecível Copa: o assassinato do zagueiro Andrés Escobar, da Colômbia, após a eliminação de sua seleção; o choro emocionado do atacante nigeriano Rashid Yekini, agarrado à rede, após marcar o primeiro gol de seu país em Copa do Mundo; o incêndio criminoso na casa do goleiro camaronês Joseph-Antoine Bell, que havia sofrido seis gols da Rússia; o doping de Maradona; a cotovelada do jogador Leonardo, da seleção brasileira, no norte-americano Tab Ramos…
Recentemente, soube por meio de meu amigo e artista plástico Guilherme Cotegipe, o Mário de Andrade campineiro, quais eram suas lembranças da Copa do Mundo.

Guilherme é um artista autodidata e talentoso que, assim como Mário de Andrade, transmite em seus trabalhos, por meio das experiências que teve ao longo da vida, a cultura e a identidade nacional, valorizando os elementos naturais e culturais do nosso Brasil.
E foi com estas palavras que ele expressou sua saudade da Copa do Mundo de 1958.
“Existe entre nós, brasileiros, uma paixão incondicional que, durante o período de Copa do Mundo, transborda em um nacionalismo exagerado. Nelson Rodrigues definiu esta paixão como sendo ‘A Pátria de Chuteiras’, uma coletânea de crônicas escritas entre os anos de 1950 e 1970.
Nelson, além do jornalismo, deixou registrado também o seu lado de dramaturgo, com textos para teatro que também foram adaptados para o cinema.
Sou veterano de Copas do Mundo, tendo participado de dezessete e caminhando para a décima oitava.
No entanto, o meu comentário será sobre a primeira Copa, afinal a primeira vez a gente nunca esquece.

O ano era 1958, quando eu completaria dez anos, e o futebol era o esporte preferido dos meninos, em campinhos improvisados na Rua Otoniel Mota com a Rua Piraju, no Jardim Leonor, local onde funciona o Topp do Brasil, com bolas de meia, borracha e capotão.
Acompanhava também meu pai nos jogos de futebol e tive a oportunidade de ver vários jogadores do selecionado brasileiro na Copa da Suécia.
Os jogadores pertenciam aos clubes do eixo Rio-São Paulo. O goleiro era Gilmar (Corinthians); nas laterais, dois Santos que esbanjavam categoria: Djalma Santos, da Portuguesa, e Nilton Santos, do Botafogo, também conhecido como a Enciclopédia do Futebol. No miolo da zaga, Bellini e Orlando, do Vasco da Gama; e no meio-campo estavam dois mestres do domínio da bola e da armação das jogadas. Didi, do Botafogo, com seus preciosos lançamentos, e Zito, do Santos, na destruição e construção das jogadas, caminhavam em campo, afinal quem tinha de correr era a bola. Didi também se destacava por ser um exímio cobrador de faltas, com uma maneira de bater na bola que ficou conhecida como folha seca.
Na ponta direita, Garrincha, do Botafogo, com seus dribles desconcertantes, era um espetáculo à parte. O centroavante era Vavá, do Vasco da Gama, e na meia esquerda estava o camisa 10, Pelé, surgindo para o futebol aos dezesseis anos, além de Zagalo, do Flamengo, na ponta esquerda. A seleção saiu perdendo, mas o gesto de confiança do príncipe Didi fez com que os brasileiros virassem o jogo e, quase ao final, com um gol de Pelé, o Brasil vencesse a Suécia por 5 a 2 e se consagrasse campeão da Copa do Mundo pela primeira vez.”

Atualmente, Guilherme dedica-se à realização de seu grande sonho: criar o Instituto Brasileiro de Arte e Cultura Guilhermina Cotegipe, um espaço em homenagem à sua mãe, onde possa divulgar aquilo que o Brasil produz de mais rico em termos culturais.

Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade












