A eliminação da Seleção Brasileira encerra muito mais do que uma campanha esportiva. Ela coloca diante de milhões de pessoas uma pergunta desconfortável, porém necessária: e agora? O que você fará quando o espetáculo terminar, quando as bandeiras forem guardadas, quando as mesas-redondas perderem o interesse e quando o cotidiano voltar a ocupar o espaço que, por algumas semanas, foi tomado pela Copa do Mundo?
Durante um mês, o país parece respirar em outro ritmo. Conversas giram em torno das partidas, os horários são reorganizados, famílias se reúnem, amigos se encontram e as redes sociais vivem em função de um único assunto. Não há nada de errado nisso.
O problema começa quando o espetáculo deixa de ser apenas entretenimento e passa a ocupar o lugar de um anestésico emocional, capaz de suspender, ainda que temporariamente, os conflitos que habitam a vida de cada indivíduo.
Sob a perspectiva da Psicanálise, o futebol raramente é apenas futebol. Freud demonstrou que o ser humano desloca seus afetos para objetos de identificação. Durante a Copa, a Seleção Brasileira torna-se esse grande objeto coletivo. A vitória parece nossa. A derrota também. Projetamos no time nossos desejos de grandeza, reconhecimento, pertencimento e superação. Por alguns dias, vivemos intensamente uma história que não é nossa, enquanto a nossa própria história permanece em pausa.
Enquanto a bola rola, contas continuam vencendo, relacionamentos continuam precisando de diálogo, sonhos continuam esperando uma decisão, medos permanecem escondidos e angústias apenas encontram um breve intervalo. A Copa oferece aquilo que poucos acontecimentos conseguem produzir: uma suspensão coletiva da realidade. É um intervalo emocional que permite esquecer, ainda que momentaneamente, aquilo que continua existindo quando o árbitro encerra a partida.
A Psicanálise também ensina que aquilo que é apenas silenciado jamais desaparece. O sintoma retorna. O sofrimento retorna. As perguntas retornam. Quando o Brasil é eliminado, não acaba apenas uma competição; termina também o efeito do placebo. A realidade, paciente, permanece exatamente onde estava, aguardando o reencontro com aquele que passou semanas olhando para outro lugar.
Como no célebre poema de Drummond, chega o instante em que o espetáculo termina, as luzes do estádio se apagam, as bandeiras são recolhidas e o silêncio substitui os gritos da torcida. A euforia coletiva cede lugar ao encontro inevitável consigo mesmo. Não há mais jogo para assistir, não há mais adversário para vencer, não há mais expectativa para alimentar. Resta apenas a realidade, com suas responsabilidades, seus conflitos e seus desejos adiados. A pergunta, agora, deixa de ser sobre o destino da Seleção Brasileira e passa a ser sobre o destino da sua própria vida. Afinal, e agora?
A Filosofia já observava esse fenômeno muito antes da invenção do futebol. Pensadores como Pascal afirmavam que o ser humano cria distrações para não encarar sua própria existência. Nietzsche denunciava a tendência de procurar sentidos prontos em vez de construir o próprio caminho. Schopenhauer descrevia a alternância entre o desejo e o tédio como uma das marcas da condição humana. O entretenimento, quando se transforma em fuga permanente, deixa de servir ao homem; é o homem que passa a servi-lo.
Talvez por isso tantos sintam um estranho vazio quando a Copa termina. Não é apenas a ausência dos jogos. É o desaparecimento de uma narrativa coletiva que organizava emoções, conversas e expectativas. O sujeito precisa, novamente, assumir o protagonismo da própria vida. E essa tarefa costuma ser muito mais difícil do que torcer durante noventa minutos.
A questão mais importante, portanto, nunca foi quem levantaria a taça. A questão é quem conduzirá a sua vida quando não houver mais partidas para preencher seus pensamentos. Você conhece a tabela da Copa, mas conhece seu projeto de vida? Você acompanhou cada escalação da Seleção, mas consegue descrever quais são suas prioridades para os próximos anos? Você comemorou vitórias que pertenciam a onze jogadores, mas tem celebrado suas próprias conquistas?
Isso não significa abandonar o futebol, nem condenar a paixão pelo esporte. O futebol é cultura, identidade, memória e lazer. O problema surge quando ele deixa de ser uma celebração da vida e passa a funcionar como substituto dela. Quando vibramos mais intensamente com um gol do que com uma meta alcançada. Quando investimos mais tempo acompanhando a trajetória de atletas do que construindo a nossa própria.
A eliminação da Seleção pode, paradoxalmente, representar uma oportunidade rara. O espetáculo terminou. A anestesia perdeu o efeito. As emoções que estavam voltadas para um evento externo agora podem ser redirecionadas para aquilo que realmente depende de você: sua família, seus estudos, seu trabalho, sua saúde mental, seus projetos, seus vínculos afetivos e seu crescimento pessoal.
Porque haverá outra Copa. Haverá outra convocação, outro técnico, novos ídolos, novas promessas e, inevitavelmente, novas frustrações. O ciclo do futebol continuará. A pergunta é outra: sua vida continuará presa ao mesmo ciclo de distrações ou finalmente encontrará um propósito que sobreviva ao apito final?
No fim das contas, talvez a derrota da Seleção seja apenas um detalhe diante da única partida que realmente importa. A que começa quando a televisão é desligada, o estádio fica vazio e você se encontra, finalmente, diante da pessoa da qual passou semanas tentando se distrair: você mesmo.
E então, sem torcida, sem bandeiras, sem transmissão ao vivo e sem prorrogação, resta apenas a pergunta que nenhum comentarista pode responder por você: agora que o placebo da Copa do Mundo acabou, como você dará seguimento ao seu cotidiano e de que maneira irá gerenciar as emoções que, durante algumas semanas, foram silenciosamente entregues ao espetáculo?
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br












