Quando Sigmund Freud, o pai da psicanálise, escreveu a obra literária “O Mal-Estar na Civilização”, ele nos alertou que viver em sociedade exige renúncias pulsionais. Para existir cultura, é preciso conter desejos. Para existir ordem, é preciso recalcar impulsos. O preço da civilização é o mal-estar. Não há promessa de felicidade plena; há, no máximo, administrações possíveis do sofrimento. A frustração não é um acidente do sistema, é parte estrutural dele que vem desde o Contrato Social na história.
Décadas depois, Zygmunt Bauman descreve a “Modernidade Líquida” como um tempo em que tudo se torna fluido: vínculos, identidades, valores, compromissos. Se antes o sofrimento vinha do excesso de repressão, agora ele brota do excesso de possibilidades. Somos livres para escolher tudo e esmagados pela responsabilidade de sustentar essas escolhas. Nada é feito para durar; tudo é feito para consumir e descartar.
O que acontece quando colocamos Freud e Bauman para conversar em plena terça-feira de Carnaval? Vemos um país inteiro nas ruas, fantasiado, cantando, dançando, gastando, tentando suspender por alguns dias o peso da existência.
O Carnaval é, sem dúvida, uma expressão cultural legítima, uma catarse coletiva, uma celebração estética e histórica, mas também pode funcionar como sintoma social.
Freud diria que a festa é uma válvula de escape das tensões acumuladas pela repressão cotidiana. Bauman acrescentaria que, na modernidade líquida, essa válvula se transforma em produto. A fuga vira mercadoria. O bloco tem abadá. A alegria tem pacote. A experiência tem preço. Compra-se a sensação de pertencimento, a euforia temporária, o esquecimento programado.
E não há nada de ingênuo nisso. A lógica contemporânea promete anestesia rápida. Sofreu? Viaje. Está angustiado? Beba. Sente-se vazio? Poste. Está sobrecarregado? Consuma uma experiência. A palavra-chave é imediatismo. A dor precisa ser silenciada agora. O desconforto não pode esperar elaboração.
Nesse cenário, o investimento em um processo psicanalítico parece caro e demorado demais. Afinal, ele não promete felicidade instantânea. Não oferece três sessões milagrosas. Não vende cura rápida. Pelo contrário: propõe atravessar o desconforto, sustentar a angústia, escutar o sintoma. É um caminho que exige tempo, justamente aquilo que a modernidade líquida não tolera.
É aqui que está a provocação dessa crônica de hoje: quanto custa não se conhecer? Quanto custa repetir padrões por décadas?
Quanto custa manter relações frágeis, decisões impulsivas, escolhas guiadas pela urgência emocional? O que parece caro talvez seja, na verdade, investimento estrutural. O que parece barato pode ser apenas paliativo sofisticado.
Bauman afirma que vivemos em uma sociedade de consumidores, não apenas de bens, mas de experiências e até de identidades. O sujeito torna-se produto. Precisa ser interessante, desejável, atualizado. No Carnaval, essa dinâmica se intensifica: corpos, performance, felicidade. A tristeza é quase uma infração estética. A dor precisa ser escondida sob glitter. Freud lembraria que aquilo que é recalcado retorna. O que não é elaborado reaparece como sintoma.
A ressaca não é apenas física; muitas vezes é existencial. Depois da euforia, volta o silêncio. Depois da multidão, o quarto. Depois do excesso, o vazio.
Não se trata de condenar a festa. A questão não é moral, é estrutural. O problema não é dançar; é acreditar que dançar resolve o que precisa ser simbolizado. O problema não é viajar; é imaginar que mudar de cidade muda conflitos internos. O problema não é gastar; é usar o consumo como substituto de elaboração psíquica. Nossa geração, e as que vêm, estão sendo treinadas para a impaciência. Relações rápidas, respostas instantâneas, recompensas imediatas. O algoritmo nos condiciona. A cultura reforça. A economia lucra. Nesse contexto, qualquer processo profundo parece lento demais.
A psicanálise, porém, é quase um ato de resistência cultural. Ela contraria a lógica da pressa. Afirma que o sujeito não é descartável. Sustenta que o sofrimento tem sentido. Defende que a liberdade não está em fazer tudo, mas em compreender por que fazemos o que fazemos. Se Freud mostrou que o mal-estar é inerente à civilização, Bauman evidencia que a liquidez amplia a sensação de insegurança e fragilidade.
Vivemos menos reprimidos, mas mais ansiosos. Menos contidos, porém mais vazios. Mais conectados, porém mais solitários.
O Carnaval, então, torna-se metáfora perfeita: explosão coletiva em meio a uma estrutura social marcada por instabilidade afetiva e econômica. É o grito que antecede o retorno à rotina. É o brilho que tenta ofuscar a angústia estrutural. A pergunta provocativa é: estamos celebrando ou fugindo? Estamos vivendo ou anestesiando? Estamos investindo em autoconhecimento ou apenas comprando distrações?
Talvez o grande desafio da nossa geração seja reaprender a suportar o tempo. Tempo de análise. Tempo de silêncio. Tempo de construção de vínculos sólidos. Tempo de amadurecimento. Em um mundo líquido, escolher profundidade é quase revolucionário. Porque, no fim, a festa passa. O bloco dispersa. A música silencia. O que permanece é o sujeito consigo mesmo.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br












