Me lembro de quando ingressei na Universidade, no primeiro dia de aula do curso de Filosofia (o qual me formei), fiz uma pergunta ao professor de viés utilitária: “Afinal, para que serve a Filosofia?” A resposta que obtive foi a luz de Aristóteles, em seu livro chamado de Metafísica: ‘Não serve para nada, por que deveria servir?’. Após essa provocação logicamente o professor deu inúmeros argumentos para a utilidade da Filosofia, mas ainda sim fiquei incomodado com o tema: a necessidade da Utilidade.
Qual a utilidade da Filosofia? Qual a utilidade de apreciar um belo pôr do sol? Qual a utilidade em abraçar alguém? Isso tudo seria inútil?
Trocamos de celulares, de carros, de empregos com argumentos embasados na utilidade ou na falta dela, mas e quando se envolvem pessoas e afetos? Ao observar os relacionamentos humanos, dos diversos tipos, é possível notar que há um interesse por parte de pelo menos um dos envolvidos.
É como se enxergássemos no outro uma utilidade para nós. É como se o outro tivesse algo que precisamos, tal como um objeto, uma informação, ou nos proporcionasse algo de que estamos carentes, como atenção, carinho, descontração.
O interesse pela utilidade do outro perpassa por amigos, por namoros, casamentos, ambientes de trabalho… Há uma corrente filosófica que recebe o nome de Utilitarismo, desenvolvida por Benthan e Mill. Esta corrente visa o aumento do prazer ao maior número de pessoas e a diminuição de dor para a mesma proporção.
Há ainda uma proposta mais familiar, a do filósofo Maquiavel, com uma famosa frase à ele atribuída: “Os fins justificam os meios”, ou seja, não importa o meio, o caminho, o método, o “como” eu fiz, o que realmente importa é se consegui ou não alcançar meus objetivos, agindo ou não segundo um código de ética e/ou segundo as leis.
Usar o outro é se aproveitar da sua utilidade para ganharmos algum benefício: seja dinheiro, status, atenção, segurança, conforto… Mas e na hora que o outro não tiver mais o que nos proporcionar? Na hora em que ele não for mais útil a nós? É fácil ser querido e amado quando se é útil para alguém, mas será que o interesse permanecerá no momento em que você não tem mais nada a oferecer, no momento em que você se torna inútil?
Seria utopia pensar em Amor na Inutilidade? Amizade na Inutilidade? Seria a Inutilidade a ‘prova de fogo’ que revelaria quem de fato está conosco pelo que somos e não pelo que temos?
Me fez lembrar o famoso poema ‘E agora José’ de Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou… Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho… Sozinho no escuro tal qual bicho-do-mato…” É possível também recordar a parábola bíblica do filho pródigo, quando tal filho perdendo toda a fortuna percebe-se incapaz de ser útil aos chamados ‘amigos’, enxergando-se abandonado por estes…
Talvez seja na Inutilidade que você tenha a possibilidade de conhecer quem de fato está ao seu lado por quem você é, sem nada à oferecer, talvez oferecendo singelos sorrisos, companhia e olhares sinceros… É nesse momento que você perceberá que no quesito “relacionamento humano” a qualidade importa mais que a quantidade.
A provocação que lhe deixo é: você seria amado (a) não tendo absolutamente nada a oferecer? Você amaria sabendo que não há nada a receber em troca? Um grande abraço.
Thiago Pontes é Filósofo e Neurolinguísta (PNL) – Instagram @institutopontes_oficial












