“De minha terra para minha terra tenho vivido. Meu amor encerra a adoração de tudo quanto é nosso. Por ela sonho, num perpétuo enlevo, e, incapaz de servi-la quanto devo quero, ao menos, amá-la quanto posso!”
O poema de Martins Fontes era frequentemente usado por José de Castro Mendes (1901-1970), uma das mais respeitadas figuras da intelectualidade local, para celebrar sua paixão por Campinas. Jornalista, pintor, músico, fotógrafo e poeta, Zek (um de seus apelidos) adorava retratar sua terra. Qualquer assunto referente ao passado da cidade despertava o interesse de Castro Mendes, tema para o qual dedicou um artigo na Monografia de Campinas, organizada por Júlio Mariano e Carlos Francisco de Paula.
Autor de livros, artigos e pinturas, Castro Mendes foi desenhista até a aposentadoria e trabalhava no setor de Botânica do Instituto Agronômico, em Campinas, onde desenhava plantas. No IAC publicou seu primeiro trabalho, o álbum Velhas Fazendas Paulistas, realizado em parceria com o engenheiro J.E.Teixeira Mendes, em 1947. Coube a Zek compor as aquarelas, que tinham o intuito de mostrar ao mesmo tempo a pujança de tempos anteriores e o “atual estado” das fazendas da região.
Por este trabalho recebeu elogios do escritor Menotti Del Picchia, que referenciou Velhas Fazendas como um dos principais registros em imagem das antigas fazendas cafeeiras.
Segundo a crônica local, seu dia a dia era trabalhar no IAC e depois ir ao arquivo do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas, onde dedicava horas à leitura de jornais e documentos antigos. Também no CCLA, Zeca (como também era conhecido) foi criador e diretor dos museus Carlos Gomes e Campos Salles.

As antigas fotografias, algumas de coleção particular, outras do acervo do CCLA, que vez ou outra reproduzia em aquarelas, possibilitou-lhe compor alguns de seus mais conhecidos trabalhos, como o artigo Retratos da Velha Campinas, publicado inicialmente na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, em 1951, e Efemérides Campineiras, lançado em 1960, trabalho pelo qual ganhou a medalha Carlos Gomes de literatura.
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É admirável o trabalho Castro Mendes realizou no Correio Popular, de 1968 a 1970, no suplemento História da Cidade de Campinas. Capas belíssimas e textos que apontam aspectos marcantes da vida cultural e social da cidade. Vale lembrar que na época não havia computador e toda essa ajuda tecnológica.

Era máquina de escrever, pesquisas minuciosas, nada a ver com a rapidez do Google. Admirada, folheio os cadernos e imagino o esforço desse profissional para publicá-los.
Zek foi um grande memorialista e retratou uma cidade que já não existe. No Correio Popular, Castro Mendes trabalhou de 1927 (ano da criação do jornal) até o final de sua vida. Escreveu inúmeras séries a respeito da história da cidade, como Isto não é História, Documentário de duas épocas, Efemérides Campineiras e Retratos da Velha Campinas.
No início da década de 1960 ele elaborou, dessa vez para o jornal Diário do Povo, uma série em quadrinhos sobre a história da cidade, destinada às crianças. Castro Mendes costumava dizer “santo de casa não faz milagre”, referindo-se ao pouco interesse da população em geral para com seus trabalhos.
Comparava a gélida recepção dos estudos a respeito da história de Campinas com o tratamento que a cidade havia dado a Carlos Gomes, enquanto o maestro ainda era vivo. No final de sua vida, desiludido, resolveu queimar todos seus manuscritos.
Antônio Benedito Castro Mendes, o tio-avô de Zek, era dono da famosa Casa Livro Azul, loja importadora de instrumentos musicais e sempre aberta à produção cultural da cidade. Por sua vez, Zek não teve uma vida abastada e começou a trabalhar cedo para o ajudar no sustento da família.
Colaborou na revista modernista A Onda, ilustrou o livreto de poemas Nebulosas, do colega Júlio Mariano, e elaborou alguns cenários para peças do teatro amador da cidade, como, por exemplo, História da Vida de Jesus, produzida e estrelada por Carlos “Carlito” Maia, filho do ex-prefeito da cidade, Orosimbo Maia.

Como também era um especialista nas artes em geral, manteve por muitos anos, no Correio Popular, as colunas Minarete e Teatro e Cinema.
Em homenagem a essa ligação e principalmente aos serviços prestados como incentivador e divulgador do teatro amador, em 1974, o teatro da Vila Industrial ganhou o seu nome. Ele também foi homenageado com uma rua no bairro São Bernardo.












