Mar de Aral, entre Cazaquistão e Uzbequistão, na Ásia. Mar Cáspio, entre Ásia e Europa. Lago Rukwa, na Tanzânia. Laguna Mar Chiquita, na Argentina. Lago Poopó, na Bolívia. Lago Chad, no Chad. Lago Urmia, no Irã. Salton Sea, nos Estados Unidos.
Não é lição de geografia, é uma catástrofe que está acontecendo sob os olhos da comunidade internacional. Todos estes lagos e mares, espalhados por vários pontos do planeta, estão morrendo. Secando, definhando, sumindo do mapa.
Por vários motivos, mas todos agravados pelo aquecimento global, estes corpos hídricos estão prestes a desaparecer, com impactos sociais, econômicos, culturais e ambientais incomensuráveis. Pescadores sem ter o que comer e vender, sistemas de irrigação em xeque, paisagens culturais que são referência para milhares de pessoas em colapso.
A extinção de lagos e mares inteiros é a extinção de milhares de formas de vida. É uma diversidade de espécies impressionante, de peixes e outras criaturas, simplesmente sem ter mais o que comer. São cadeias alimentares inteiras prejudicadas para sempre.
E também tem o fenômeno da emissão de dióxido de carbono, quando um corpo de água cessa o seu fluir da vida. Ou seja, o desaparecimento de lagos e mares leva a mais emissão dos gases de efeito-estufa que são uma das causas centrais dessa ferida aberta no planeta que tem dois terços da superfície coberta de água.
Cada caso de desaparecimento progressivo de um corpo d’água desses resulta de um conjunto de práticas insustentáveis de manejo hídrico, com graves reflexos nos respectivos ecossistemas. São lições que já deveriam ter levado a métodos mais adequados de gestão da água, o que infelizmente não ocorre sempre.
O Mar de Aral, que outrora era considerado o quarto grande lago do mundo, foi devastado pelo desvio de dois rios que eram seus principais formadores, o Syr Darya e o Amu Darya, para irrigar as plantações de algodão na época do regime soviético. Não deu certo, a água de Aral foi secando e os agrotóxicos utilizados nas plantações provocaram inúmeras mortandades de peixe.
No caso do Mar Cáspio, que é o maior mar interior do planeta, seu rápido declínio tem sido observado desde os anos 1990, com causas igualmente derivadas do manejo insustentável de água durante o governo soviético.
Especificamente, foram implementados projetos como barragens e também de grandes áreas irrigadas que impactaram o rio Volga, que era o maior formador do Mar Cáspio.
Em torno de 80% das águas responsáveis pelo equilíbrio hídrico no Mar Cáspio derivavam do fluxo do Volga. Entretanto, como este fluxo foi declinando cada vez mais, o que passou a ocorrer é o oposto. As águas do Cáspio retornando à bacia do Volga.
Há um componente geopolítico muito sério nesta tragédia. O Mar Cáspio está localizado em uma das regiões com maior instabilidade política do planeta, entre a Rússia, Cazaquistão, Turcomenistão, Azerbaijão e Irã. Uma catástrofe ambiental que pode levar a um cenário ainda mais explosivo na balança geopolítica daquela região.
O Lago Rukwa, na Tanzânia, apresenta uma variação sazonal de volume, dependendo do fluxo dos rios que o alimentam, mas cientistas advertem que as mudanças climáticas estão afetando seriamente o seu equilíbrio natural.
A Laguna Mar Chiquita, na Província de Córdoba, na Argentina, sofre igualmente com os efeitos do aquecimento global, mas também com o uso desmedido de seu principal formador, o Rio Dulce, para projetos de irrigação.
Em uma das secas recentes, um povoado antigo, que outrora foi inundado por uma enchente histórica na Laguna, voltou a aflorar. Ruínas do povoado de Miramar, que antes era um ponto de turismo intensivo, apareceram com o ressecamento verificado em 2023, em um claro alerta sobre o que está por vir com o desaparecimento de corpos hídricos. Um efeito adicional do esgotamento progressivo de Mar Chiquita é que ele afeta a tradicional migração anual de dezenas de espécies de aves.
O Lago Poopó, na Bolívia, é outro caso de corpo hídrico com variação sazonal, mas o fenômeno também está sendo agravado pelas mudanças climáticas, com efeitos imprevisíveis. O Lago Chad, no Chad. por sua vez, perdeu 90% de seu volume desde a década de 1960, pela soma dos fatores apontados acima, em outras situações: projetos insustentáveis de irrigação + mudanças climáticas.
E chegamos ao Lago Urmia, no Irã, e ao Salton Sea, nos Estados Unidos. Os países atualmente em guerra estão igualmente assistindo ao desaparecimento progressivo de dois de seus importantes corpos de água.
No caso iraniano, a proliferação de barragens no rio Urmia e projetos de irrigação estão na raiz do colapso, agravado, sempre, pela intensificação do aquecimento global. Em Salton Sea, na Califórnia, a gênese da tragédia está no uso excessivo de água do rio Colorado, seu principal afluente.
No cenário devastador de Salton Sea, um efeito de sua progressiva extinção é a emissão de poeira contaminada pelo excesso de fertilizantes usados em seu entorno, em práticas impróprias de agricultura. Esta poeira está afetando seriamente a saúde de milhares de moradores da região, em especial crianças.
Em resumo, são tragédias (crimes?) ecológicas por toda parte, que ocorrem ao longo de décadas, em função de práticas que continuaram sendo executadas, muitas vezes por grandes interesses políticos e econômicos, não sem advertências dos moradores locais e de cientistas.
No momento, há iniciativas visando eventual recuperação do equilíbrio ambiental em vários desses casos, mas com resultado incerto e imprevisível.
Tomara que estas situações de enorme gravidade, entre muitas outras pelo planeta, estejam presentes de fato na programação do 11º Fórum Mundial da Água, que acontece em março de 2027, na Arábia Saudita. O Fórum Mundial geralmente tem foco prioritário em estratégias de financiamento e temas afins, mas o panorama é crítico demais em termos do volume de água em muitos pontos do planeta, para que as discussões fiquem em grande parte em torno de cifras e cifrões. Socorrer a água é urgente, para milhões de pessoas, que têm direito a um acesso democrático a este recurso natural, e também para ecossistemas inteiros.
Vejamos o caso brasileiro, por exemplo. De acordo com o MapBiomas, é cada vez mais grave a redução de corpos hídricos por todo o país, em função de dinâmicas inadequadas do uso da terra, mas obviamente também pelo agravamento das mudanças climáticas.
Ou seja, por toda parte vemos sumir a água que seres humanos e ecossistemas inteiros necessitam, mesmo sabendo que o planeta continuará tendo muita água, sempre, pelos sistemas naturais da biosfera.
Ocorre que, por uma série de práticas ruins, e pelo recrudescimento das mudanças climáticas, esta água pode não estar mais disponível em vários pontos da Terra. Os alertas são mais do que evidentes. Haverá tempo para as mudanças necessárias?
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












