Na semana passada, em uma conversa com minha ex-professora de Língua Portuguesa do Colégio Culto à Ciência, trouxemos à tona a memória dos momentos soberanos do rádio na vida cotidiana. Ela comentou que seu pai adorava o rádio e teve vários aparelhos ao longo da vida. Também lembrou da era de ouro do rádio, entre as décadas de 1930 e 1950, quando cantoras como Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira e Ângela Maria reinavam nas emissoras.
A conversa trouxe também a lembrança de meu saudoso avô, que amava o rádio. Ele sempre teve um aparelho e começava o dia ouvindo Zé Béttio. Na época em que morava no Jardim Eulina, nos fins de tarde, lá estava ele no bar do português Fernando, ouvindo modas sertanejas em seu Motorádio de pilhas. Naquele tempo, morávamos em frente ao bar, na Rua João Rodrigues Serra, em uma casinha simples, mas acolhedora.
Meu avô tinha o hábito de se deitar e colocar o rádio sobre o peito para ouvir música.
Como era sanfoneiro, o rádio lhe servia de inspiração para reproduzir, no violão e na sanfona, aquelas modas de sucesso. Mais do que isso, era sua janela para o mundo: pelos programas jornalísticos, sabia o que acontecia naquele mundão que nunca ousou explorar. Era seu estádio de futebol, onde imaginava as partidas e os lances narrados com voz vibrante. Eram suas festas noturnas, quando os sanfoneiros Nardeli, o “sanfoneiro dos dedos de ouro”, e Mário Zan animavam suas horas de folga, para a fúria de minha avó, que detestava aquela barulheira no quarto.
O problema era quando a pilha enfraquecia, a chuva caía forte, o narrador, em tom monótono, informava: “Interrompemos nossa programação…”, ou o trecho da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, interrompia “Menino da Porteira” para atualizar o povo sobre os movimentos de Brasília. Tudo isso causava ruídos e interrupções naquele instrumento que meu avô usava para sair de seu mundo e mergulhar em outros, nos quais, ainda assim, estava inserido, sem os compreender plenamente.

Meu avô falava muito do Bambuzinho, figura marcante do rádio em Campinas, mas não me recordo de mencionar outros nomes importantes, como Salvador Lombardi. Talvez nem morasse na cidade quando o radialista construiu seu legado. Havia também nomes mais contemporâneos, que ele ouvia com frequência.
Na mesma sintonia de meu avô, tive minha fase de ouvinte fervoroso, sobretudo na adolescência, quando adorava escutar os flashbacks da Antena 1. Naquele período, também acompanhava com entusiasmo o futebol e apreciava ouvir o jornalista Brasil de Oliveira, o Brasa, demonstrar seu profundo conhecimento na Rádio Central. Um momento especialmente marcante foi quando fui entrevistado pelo radialista Luiz Antônio Piva, em seu programa “A Grande Parada”, na Rádio Brasil. De repente, minha voz e minhas palavras passaram a integrar aquele universo que marcou a vida de tanta gente e que ainda resiste em um mundo tão competitivo por atenção.

Não posso deixar de destacar, nessa saudade de quando o rádio era mais influente em nossas vidas, outras lembranças: a voz suave e romântica de Michel Fine, em seu programa “Momento de Amor”, que ecoava da casa da vizinha e coloria meus dias de estudo na juventude; o suspense que Gil Gomes transmitia em seus relatos, deixando-nos roendo as unhas; e Ary Costa, com suas histórias tensas, tornadas mais leves por seu estilo singular.

Sem dúvida, uma conversa sobre o rádio sempre desperta recordações profundas de nossa vida cotidiana e de nosso passado. O rádio foi soberano nos lares e, mesmo após perder seu reinado, deixou hábitos e preferências que não se apagaram , e que ainda hoje encontram espaço na vida de muita gente.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade












