Quando uma pessoa perde o emprego, a primeira preocupação costuma ser financeira. É natural. Afinal, existe uma série de compromissos que continuam chegando, independentemente de haver um salário entrando na conta. Mas existe um outro aspecto que, na minha experiência acompanhando profissionais em recolocação, pesa tanto quanto o financeiro e recebe pouca atenção: a forma como a rotina passa a ser conduzida.
É muito comum que, nos primeiros dias, a pessoa acorde pensando apenas em procurar emprego. Ela abre os sites de vagas, envia currículos, conversa com recrutadores, faz candidaturas e, quando percebe, passou o dia inteiro fazendo praticamente a mesma coisa. Em outros casos, acontece justamente o contrário.
Sem uma rotina estruturada, os dias vão sendo consumidos por atividades aleatórias e, no fim da semana, fica a sensação de que pouco foi feito em direção ao objetivo.
Nenhum dos dois extremos costuma ajudar.
Procurar emprego também precisa de planejamento. Não basta apenas decidir que vai dedicar o dia inteiro à recolocação. É importante organizar a agenda e definir quais atividades realmente fazem parte desse processo. Buscar vagas é uma delas, mas não é a única. Networking precisa acontecer com frequência. O LinkedIn precisa de atenção. Atualização profissional também faz parte da estratégia. Dependendo da área, estudar pode ser tão importante quanto enviar currículos. Ao mesmo tempo, existe a vida acontecendo: cuidar da casa, da família, dos filhos e de tudo aquilo que faz parte da rotina de quem, muitas vezes, passou a ter mais tempo disponível dentro de casa.
Organizar a semana ajuda a garantir que todas essas frentes recebam atenção, sem que uma única atividade ocupe todo o espaço.
Existe ainda um ponto que considero fundamental e que, muitas vezes, é negligenciado. A recolocação profissional é um processo emocionalmente desgastante. Quem já passou por isso sabe que a ansiedade faz parte do caminho. Os retornos costumam demorar, muitas candidaturas sequer recebem resposta e, quando ela chega, na maior parte das vezes é negativa. Não é uma fase simples e não faz sentido agir como se fosse.
Recentemente, um cliente me contou que passava das sete da manhã até uma da madrugada enviando currículos, pesquisando empresas e entrando em contato com recrutadores. Quando perguntei se ele saía de casa, fazia alguma atividade física ou reservava algum momento para descansar a cabeça, ele respondeu que não. Minha preocupação, naquele momento, não era apenas com o desgaste que ele estava vivendo, mas também com o impacto que aquilo teria quando surgisse uma entrevista. Afinal, quem passa semanas vivendo sob esse nível de tensão dificilmente consegue demonstrar tranquilidade, segurança e confiança em uma conversa decisiva.
Por isso, eu sempre recomendo que, junto com a rotina de busca por emprego, exista também uma rotina de cuidado consigo mesmo. Fazer atividade física, caminhar, tomar um pouco de sol, encontrar pessoas, dedicar tempo a alguma atividade que dê prazer ou simplesmente criar momentos de descompressão não significa deixar a recolocação em segundo plano. Significa criar condições para sustentar esse processo por mais tempo, preservando a saúde física e emocional.
Outro ponto que considero importante é compartilhar essa rotina com quem vive ao seu lado.
Muitas vezes, o cônjuge, os pais ou a família enxergam apenas o resultado — ou a falta dele — e não conhecem tudo o que está sendo feito diariamente. Contar quais são os seus planos, explicar como você organizou sua semana e dividir o andamento da busca ajuda a criar um ambiente de apoio e reduz cobranças desnecessárias, que normalmente surgem muito mais da falta de informação do que de qualquer outra coisa.
Por fim, é claro que esse momento também exige uma reorganização financeira. Entender quanto tempo a reserva financeira consegue sustentar as despesas da casa, revisar gastos e adaptar o orçamento faz parte da realidade de quem está passando por uma transição profissional. O cuidado que eu faria é para que essa reorganização não signifique abrir mão de tudo aquilo que traz qualidade de vida.
Vejo muitas pessoas que, ao perderem o emprego, deixam de fazer qualquer programa, param de encontrar os amigos e passam os finais de semana dentro de casa porque acreditam que não podem gastar absolutamente nada. Evidentemente, talvez não seja o momento de manter exatamente o mesmo padrão de consumo, mas isso não significa que seja preciso abrir mão do convívio social ou dos momentos de lazer.
Muitas vezes, pequenas adaptações resolvem a questão. Em vez de um restaurante caro, um programa mais simples. Em vez de uma saída que pesa no orçamento, um encontro em casa, uma caminhada, uma ida ao parque ou qualquer outra atividade compatível com a nova realidade financeira.
O desemprego já traz uma carga emocional importante por si só. Quando a pessoa soma a isso uma rotina desorganizada, isolamento social e uma pressão constante para conseguir uma nova oportunidade o mais rápido possível, ela torna esse período ainda mais difícil do que ele já é.
A recolocação profissional exige estratégia, disciplina e persistência, mas também exige equilíbrio.
Afinal, quando a oportunidade aparecer, não será apenas o currículo que estará sendo avaliado. Será você. E chegar a esse momento preservando sua confiança, sua energia e sua saúde emocional faz toda a diferença.
Karine Camuci é fundadora da Jornê Soluções para Carreiras e Empresas, marca que nasceu da evolução da Você Empregado, consultoria criada em 2020. Especializada em carreiras e gestão de pessoas, a Jornê atua com desenvolvimento de carreiras, recrutamento e seleção, coaching executivo e treinamentos corporativos, conectando profissionais e empresas em diferentes momentos de crescimento, transformação e tomada de decisão.












