Ano de Copa do Mundo sempre acende em mim a lembrança de meados da década de 1990, quando eu era fascinado por futebol. Eu tinha meus 11 anos em 1994, quando a seleção brasileira conquistou o tetracampeonato.
Antes de começar a Copa, meu avô apareceu em casa com dois álbuns de figurinhas daquele campeonato e mal sabia o problema que havia arrumado. Todo garoto que ganha um álbum de figurinhas quer completá-lo — e esse era o grande problema: meu avô não tinha condições de comprar figurinhas constantemente para dois netos.
Mas, de vez em quando, ele comprava, porque adorava ver nossa felicidade ao colar mais algumas figurinhas naqueles álbuns. O que irritava eram as figurinhas repetidas, que não davam para aproveitar nem por mim nem por meu irmão.
Minha alegria era chegar da Escola Municipal Dr. João Alves dos Santos, onde cursava o Ensino Fundamental, e ver os pacotinhos de figurinhas em cima do guarda-roupa de meu avô.
Ele trabalhava como cobrador de ônibus na Viação Santa Catarina e, quando passava pelo centro de Campinas — a “cidade”, como dizíamos —, parava em uma banca para comprar alguns pacotinhos. Suspeito que, em algumas dessas vezes, tenha comprado na Banca do Alemão, pois gostava de passar pela Praça Guilherme de Almeida para engraxar seus sapatos sociais de cobrador.
E, por falar na Banca do Alemão, recentemente estive conversando com meu amigo Denílson, que atualmente cuida da tradicional banca fundada por seu avô em 1951. Ele estava bastante chateado e preocupado por causa de um projeto do Condepacc de remover 52 bancas de regiões tombadas, inclusive a dele, que, pelo tempo de existência e pela relevância, é um patrimônio histórico — assim como os locais que o órgão deseja proteger.
Aproveitei nossa conversa para perguntar qual era a maior saudade que ele tinha do centro de Campinas, já que, há tanto tempo, aquele cenário é seu local de trabalho.
Denílson expressou, com muita emoção, sua saudade do movimento que havia no Centro: as pessoas passando pela calçada da Rua General Osório diante de seu olhar, aquele vaivém cotidiano; gente atravessando a Avenida Francisco Glicério, circulando pelo Largo do Rosário ou mesmo pela Praça Guilherme de Almeida, onde fica sua banca.

Saudade de ver o Restaurante Rosário receber seus fregueses. Dos engraxates, que eram muitos, em vez dos poucos que ainda resistem às mudanças do tempo.
O Palácio da Justiça, em sua lembrança, aparecia cheio de movimento, e todo o entorno da banca pulsava, cheio de vida. Quem sabe até meu avô, que já não habita este mundo, um dia não esteve no brilho de suas retinas, em uma manhã agitada da semana?
Denílson viu o Centro de Campinas se transformar, perder o brilho, muitas lojas fecharem, os engraxates desaparecerem aos poucos — e viu também a evolução do tempo se tornar um obstáculo ao seu negócio.
As revistas e os jornais foram perdendo espaço para a internet; as crianças mudaram seus hábitos; antigos fregueses partiram, enquanto outros ainda prestigiam e visitam aquela banca histórica.

Uma banca que também precisou se reinventar para continuar sua história, honrando o trabalho e o esforço de Ângelo Falsarella, que montou sua própria banca de latão e madeira, em 1951, naquela localidade — em uma época em que a Igreja do Rosário ainda existia e o bonde passava pela Rua General Osório.
Torcemos para que não haja a remoção dessa banca que faz parte da história da cidade e da memória afetiva de tanta gente.
Que ela não se torne uma saudade dolorida naquela região do Centro, já tão castigada, mas que, por muitas gerações, ainda cumpra sua importante missão nesta cidade.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade











