Às vezes, ao pensar nos primeiros anos de minha infância no Jardim Eulina, em meio a lembranças tão queridas, parece que volto a sentir o envolvente aroma da sopa preparada em uma instituição de caridade vizinha à humilde casa onde minha família morava. Todos os domingos, aquele inesquecível perfume invadia a janela de casa como se fosse um convite, um chamado para saborear um prato feito com tanto carinho.
Curiosamente, mesmo depois de não morar mais naquele bairro, eu ainda sentia o aroma daquela sopa em momentos solitários e silenciosos, enquanto caminhava por alguma rua ou mesmo quando estava em casa. Isso me fez acreditar que a saudade não é apenas a falta. Ela é o vestígio de algo que continua existindo em nós e que não se apaga com o passar dos anos.
Semanas atrás, fiz uma publicação despretensiosa nas redes sociais sobre um lanche muito famoso servido nas Lojas Americanas nos anos 1980: o Club Lasa. Fiquei impressionado com a enxurrada de comentários e sentimentos que aquela lembrança despertou nas pessoas.
A imagem de uma mulher saboreando seu lanche em uma unidade das Lojas Americanas, criada por mim com o auxílio da inteligência artificial, gerou inúmeras reações saudosistas. Uma lembrança foi se associando a outra, motivando até pessoas de diferentes regiões do Brasil a compartilharem suas próprias recordações.
Muitos se lembraram da companhia das mães na hora de degustar aquele lanche especial.
Era um verdadeiro acontecimento. Ir ao centro da cidade, passar nas Lojas Americanas e pedir um Club Lasa. Era um momento adorável: a companhia da mãe, o fascínio de um lugar repleto de novidades e lanches deliciosos. E, de sobremesa, a banana split, outro clássico que despertou a memória dos leitores.
Realmente, nas décadas de 1970 e 1980, as Lojas Americanas eram o shopping center de muita gente. O fato de alguns lanches não serem acessíveis às pessoas mais pobres demonstra como aquele lugar representava um certo status na época. Para saborear o famoso sundae Havaí servido dentro de um abacaxi, era preciso ter uma condição financeira um pouco melhor. Nada muito diferente do que acontece hoje em alguns estabelecimentos instalados em shopping centers.

Apesar do sucesso da lembrança do Club Lasa, o lanche mais citado naqueles dias de fervorosas recordações nas redes sociais foi o imbatível cachorro-quente com molho de pimentão. Talvez poucos lanches do passado, poucos sabores, tenham deixado uma marca tão profunda na memória das pessoas quanto aquele cachorro-quente.
Só de lembrar, muitos diziam sentir novamente o gosto do lanche.
Alguns lamentavam nunca terem conseguido reproduzir o sabor de um lanche tão simples, sem as dezenas de combinações de ingredientes que os cachorros-quentes atuais costumam oferecer.
O segredo, diziam, era o molho com pimentão. É curioso pensar como a simplicidade de um lanche conseguiu torná-lo tão inesquecível. Ou será que era a simplicidade da própria vida que revestia essas pequenas experiências de uma beleza que hoje parece mais difícil de encontrar?

Nos dias atuais, tudo é tão excessivo e passageiro que mal temos tempo de permitir que um lanche se torne parte de nosso acervo afetivo. A todo momento surgem novidades, novos lugares, novas pessoas… Já não conseguimos construir preferências sólidas, duradouras. Nem mesmo criar rituais inesquecíveis, como ir ao Centro com a mãe, já esperando o momento de saborear o lanche preferido.
Hoje, é raro encontrar um aroma ou um sabor que se transforme em um álbum de lembranças felizes, como aconteceu com a sopa daquela instituição de caridade ou com os lanches das Lojas Americanas.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade












