O ano de 2026 marca um capítulo dourado na quase centenária história do Esporte Clube Primavera, clube de Indaiatuba, da Região Metropolitana de Campinas. Pela primeira vez em 99 anos, o Fantasma da Vila disputou a elite do futebol paulista, estreou na Copa do Brasil e quebrou recordes de público no Estádio Ítalo Mário Limongi, o Gigante da Vila Industrial.
A campanha no Paulista, que rendeu a classificação à Série D de 2027, e a estreia com vitória na primeira fase da Copa do Brasil são o ápice de um projeto gerido pela SAF que comanda o clube desde 2022 e contou com o ex-craque Deco como sócio.
Na última quinta-feira, o Primavera deu adeus à Copa do Brasil após ser derrotado pelo Ceará na Arena Castelão, mas encerrou este início de jornada com a cabeça erguida para a sequência do ano, com a disputa da Copa Paulista pela frente.
Para o torcedor que hoje celebra a vaga garantida no cenário nacional e a esperança de grandes dias pela frente, o brilho atual do time comandado por Rafael Marques traz um sentimento de déjà-vu de quando o Ítalo Mário Limongi foi o centro de um episódio raro, que marcou a cidade.
Foi em 18 de julho de 2010 que Indaiatuba parou para ver, de perto, o homem que está no Olimpo dos melhores da história do esporte: Lionel Messi.
Indaiatuba sob os holofotes
A conexão surgiu por intermédio de Deco, ex-companheiro do argentino no Barcelona. O luso-brasileiro — hoje diretor do clube catalão e mais distante das operações da SAF – organizou o jogo festivo que reuniu uma verdadeira constelação de craques no gramado indaiatubano. Para o jornalista Jean Martins, que na época cobria a partida pela Tribuna de Indaiá, aquele dia foi um marco para a cidade e a ‘batida de martelo’ definitiva em sua paixão pelo jornalismo esportivo.
“Eu tinha apenas três anos de formado e nunca tinha coberto algo desse porte. O Primavera jogava a quarta divisão para 200, 300 pessoas. De repente, o estádio estava lotado, uma atmosfera magnífica que encheu meus olhos. Foi ali que eu disse: ‘é isso que eu quero fazer'”, recorda Jean em entrevista ao Hora Campinas.
Naquela tarde, cerca de 10 mil pessoas se espremeram em um estádio que, oficialmente, comportava pouco mais de 6 mil. A mobilização se justificava pela reunião de lendas como Falcão, Vampeta, Amoroso e Rivelino, mas a grande atração era o camisa 10 da Argentina.
Clique aqui para ver reportagem na página Indaiatuba Não é Praia, com base em reportagem da EPTV.
Messi desembarcava em Indaiatuba recém-saído da Copa do Mundo da África do Sul, dias após a Albiceleste ser eliminada nas quartas de final após uma sonora goleada por 4 a 0 sofrida diante da Alemanha. “Foi um evento que parou a cidade. Não havia espaço para nada, as pessoas compareceram em peso para uma festa que Indaiatuba nunca tinha visto. Todo mundo ficou surpreso de ver o Messi, o Ronaldo. Não sabíamos exatamente os jogadores que estariam ali”, completa o jornalista.
Atualmente, o estádio construiu uma nova realidade após reformas para comportar o Paulistão.
Em 2026, o Primavera registrou o sexto maior público do campeonato, ficando atrás apenas de gigantes como Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos e Guarani. O jogo contra a Portuguesa, por exemplo, recebeu 7.426 pagantes, registrando o maior público oficial da história do clube em partidas próprias no Gigante da Vila.

Café com o “ET”: a raridade de um registro com Messi
Se hoje Messi é uma figura quase mítica e de difícil acesso, em 2010 sua timidez já era marca registrada. Enquanto astros brasileiros pareciam mais tranquilos durante a festa, o argentino, que já havia recebido o primeiro de seus oito prêmios de melhor jogador do mundo, permanecia em sua “bolha” de discrição. Ronaldo Fenômeno também participou do evento, mas não jogou por causa de uma lesão.
Poucos conseguiram furar o bloqueio do camisa 10 argentino. Jean recorda, por exemplo, que Ronald, filho de Ronaldo, foi um dos únicos que conseguiu uma fotografia com o craque, que não falou com a imprensa naquele dia.
Mas o indaiatubano Fernando Pereira, de 40 anos, detém um troféu que nem o mais fanático colecionador possui. Convidado para o jogo após ser campeão e artilheiro em um torneio de society da cidade, também organizado por Deco, ele não apenas conseguiu uma foto ao lado de Messi, como dividiu o campo e o vestiário com ele.
“Foi surreal, cheguei bem cedo pra aproveitar o dia mesmo. Foi bem legal, tudo arrumado, tudo organizado, cada um com teu nome. Eu tenho a camisa do uniforme até hoje com meu nome. Tem uma bolsa assinada pelo Messi também. Joguei no time do Messi, do Deco. E foi surreal, né? Eu cheguei a jogar no futebol de base, só não cheguei no profissional, então isso aí foi uma realização”, contou.

Ele relata que a proximidade com o craque revelou o lado humano do ídolo.
“O Messi é muito fechado, ainda mais que ele tinha acabado de ser o melhor do mundo. Ele ficava mais próximo do Sylvinho (ex-técnico do Corinthians), que até ajudou a escolher as chuteiras para ele. Mas eu consegui tirar foto com ele tomando café, depois no vestiário. Eu ia tirar só com o Messi, mas o Amaral entrou na foto de última hora.”
Dentro de campo, o placar de 3 a 3 foi o que menos importou. Messi teve um gol anulado e recebeu um cartão amarelo protocolar por chutar uma bola após o apito, para o delírio da arquibancada.
Fernando Pereira quase escreveu seu nome na história de forma ainda mais épica: “Eu quase fiz um gol, a bola bateu na trave. O lance foi entre mim, o Rivelino e o Messi; nós três trocamos passes.”
Hoje, enquanto o Primavera se prepara para a Copa Paulista e projeta um 2027 ainda maior no cenário nacional, o objetivo é continuar trazendo para o Gigante da Vila e para a cidade novos momentos inesquecíveis.
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