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Home Colunistas

O menino invisível do Culto à Ciência – por Alexandre Campanhola

Quando pisei pela primeira vez na área interna do colégio, eu era um rapaz franzino e assustado

Alexandre Campanhola Por Alexandre Campanhola
16 de abril de 2026
em Colunistas
Tempo de leitura: 4 mins
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O menino invisível do Culto à Ciência – por Alexandre Campanhola

O icônico Colégio Culto à Ciência, localizado no Botafogo, em Campinas - Foto: Alexandre Campanhola/Divulgação

Nesta semana, o tradicional Colégio Culto à Ciência comemorou mais um aniversário de fundação. E eu não poderia escrever sobre saudade sem destacar a imensa falta que sinto daquele colégio, que mora para sempre em minhas lembranças mais queridas.

Ao longo dos anos, tenho tentado expressar o carinho que sinto pelo Culto à Ciência em diversos textos, mas nenhum deles parece suficiente para traduzir esse sentimento. Talvez porque nenhum tenha sido capaz de me transportar de volta aos anos felizes de minha vida, naquela transição de século entre as décadas de 1990 e 2000, quando estive naquela instituição.

 

É engraçado, e até estranho, afirmar que fui aluno do Culto à Ciência em dois séculos diferentes: no final do século XX e no início do século XXI.

 

Quando pisei pela primeira vez na área interna do colégio, eu era um rapaz franzino e assustado, diante de um prédio cuja arquitetura nada se assemelhava à da minha antiga escola, Dr. João Alves dos Santos. Era um lugar imponente, carregado pelo peso de uma história gloriosa que eu sequer imaginava. Um espaço tão grandioso que me intimidava, embora eu já tivesse meus lampejos como aluno estudioso.

 

Os primeiros dias não foram fáceis: trotes dos veteranos, vergonha diante dos mais afortunados, timidez, insegurança. Em alguns momentos, tive vontade de desistir. A condição humilde era minha maior inimiga. Eu não estava mais na escola da periferia, onde quase todos os alunos eram pobres e não havia motivo para me intimidar.

 

O novo ambiente, onde eu buscava ser alguém na vida, era o mesmo que, de forma silenciosa, me dizia que ali eu não era ninguém.

E por que, então, sinto uma saudade tão intensa de um lugar que me refletia, no espelho da juventude, como alguém invisível e sem importância? Porque foi lá que aprendi a enfrentar meus maiores medos e a cultivar meus maiores afetos.

Após alguns meses, descobri que podia me afirmar mesmo sem roupas boas, cadernos da moda ou dinheiro para comprar lanche no intervalo. Eu tinha sonhos — e quem tem sonhos possui uma forma de riqueza.

Além disso, não era apenas o apelido estranho de “Costela”, por causa de minha magreza extrema, que eu havia trazido da antiga escola. Trouxe também a fama de estudioso, e essa condição tinha grande valor para aqueles que preferiam se dedicar mais às loucuras da adolescência. Por quê?

 

Entrada da tradicional escola, onde celebridades e personalidades históricas estudaram – Foto: Alexandre Campanhola

Eu era muito procurado em épocas de trabalhos e provas em dupla — e, nas demais ocasiões, era aceito com naturalidade.

Mas minha vida não foi feita apenas de estudos naqueles doces anos de juventude como aluno do Culto à Ciência. Guardo também as lembranças dos momentos em que me libertava das garras dos livros para viver o que há de mais intenso na adolescência: estar com os colegas, buscar novas experiências, experimentar emoções e se apaixonar.

Minha maior saudade não é do status de estudioso, antes e depois do Culto à Ciência, ele sempre esteve comigo, mas das vezes em que deixei essa condição de lado para ser apenas um adolescente comum, com suas turbulências, que independem de classe social, educação ou lugar.

Também vivi um amor secreto naquele colégio, daqueles que nunca se esquecem, ainda mais quando jamais foram revelados. E essa história tem grande peso em minha saudade.

 

Imagem das duas camisas usadas pelo colunista do Hora quando era estudante nos anos de colégio – 1999 a 2001 – Foto: Alexandre Campanhola

 

Foi lá também que escrevi meus primeiros poemas e me tornei esse poeta que sempre carregou consigo o perfume dos verdes anos. Cheguei a ganhar, naquela época, um livro de um colega do terceiro ano: a obra mais polêmica e icônica do poeta francês Charles Baudelaire, As Flores do Mal.

É curioso como o tempo passa e não nos damos conta de certas ausências. Só voltei a entrar no colégio em 2023, quando ele abriu suas portas em um sábado de festa junina. Nos anos anteriores, muitas vezes permaneci do lado de fora, observando o pátio vazio e enxergando ali os fantasmas do passado — suspirando por um amor irrealizável e chamando pelo “Costela” que já não estava mais lá.

Retornar ao colégio foi uma sensação difícil de explicar. Na primeira vez em que estive ali, era um jovem assustado, que se sentia um forasteiro; ao voltar, anos depois, senti-me como alguém que retorna para casa após longa ausência , reconhecendo cada canto e, em cada canto, encontrando um pouco de si.

 

Surpreendi-me quando, no ano passado, fui convidado a conversar com uma turma de alunos sobre a história de Campinas. Senti-me como um irmão mais velho, compartilhando experiências, transmitindo conhecimento e tentando me aproximar de uma geração tão diferente daquela em que fui aluno.

Acho que uma das coisas mais importantes que aprendi na vida foi amar os lugares onde estudei. Não apenas o Culto à Ciência, mas também a escola Dr. João Alves dos Santos, onde cursei o Ensino Fundamental, e a Escola SENAI Roberto Mange, onde realizei cursos técnicos. Esses lugares constituem uma parte essencial de quem sou e guardam fragmentos valiosos da minha história.

 

Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade

Tags: Alexandre CampanholaCulto à CiênciaEducaçãoHistóriaHora da SaudadeMemórianostalgiasaudosismo
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