Gostaria de avisar aos leitores que este texto foi escrito em 2001. Ao relê-lo, no entanto, percebi o quanto segue atual e talvez ainda mais necessário. Pode parecer ingênuo, mas ainda acredito que é possível construir um mundo mais justo e humano, não como uma promessa distante, mas como um processo que começa nas escolhas que fazemos hoje. A pergunta central não é se esse mundo pode existir, mas como começamos a construí-lo com as nossas próprias mãos.
Vivemos um tempo marcado por contradições profundas.
De um lado, avanços tecnológicos e aumento da produção de riqueza; de outro, guerras, crises humanitárias e desigualdades persistentes. Milhões de pessoas enfrentam inseguranças, deslocamentos forçados e falta de oportunidades. Diante desse cenário, a construção de um futuro mais equilibrado deixa de ser uma ideia abstrata e passa a ser uma necessidade concreta.
Parte dessa consciência pode e deve nascer da experiência. Na minha infância, frequentar o Lar dos Velhinhos e o Orfanato Dom Nery, em Campinas, foi decisivo para a formação do meu olhar. Ali, aprendi que cuidado, empatia e presença são valores que não se ensinam apenas no discurso, mas também na convivência. Essas experiências me ajudaram a enxergar verdadeiramente o outro.
A história mostra que a preocupação com o outro não é recente. No século XIX, a filantropia ganhou força como resposta aos impactos sociais da industrialização. Ao longo do tempo, deixou de ser apenas um gesto pontual e passou a assumir um papel mais estruturado, voltado à redução de desigualdades e à ampliação de oportunidades.
Na mesma linha, o historiador e pensador político francês Alexis de Tocqueville já destacava o papel da participação cidadã como base da democracia. A vida em sociedade exige mais do que direitos garantidos, precisa de envolvimento, responsabilidade e ação coletiva.
No entanto, esse exercício enfrenta obstáculos contemporâneos. Em muitos contextos, valores como vaidade, ego, ganância, arrogância e soberba — que podemos sintetizar como “VEGAS” — ganham espaço e enfraquecem o senso de comunidade.
Quando o individualismo se sobrepõe ao coletivo, perde-se a capacidade de construir soluções duradouras.
Ao mesmo tempo, a crise ambiental impõe um novo nível de urgência. Não se trata apenas de preservar recursos naturais, mas de garantir condições dignas de vida para as próximas gerações. Sustentabilidade e justiça social não podem mais ser tratadas separadamente.
Diante disso, o chamado “outro mundo possível” deixa de ser uma ideia distante. Ele depende de um exercício real de cidadania, de uma filantropia comprometida com transformação e de uma responsabilidade ambiental praticada no cotidiano, tanto por indivíduos quanto por empresas e instituições.
A mudança, no entanto, não começa apenas em grandes estruturas. Ela se manifesta em atitudes simples: no engajamento local, na escuta, na disposição para colaborar. Pequenas ações, quando multiplicadas, têm o poder de gerar transformações significativas.
Pode parecer utopia, mas toda transformação relevante já foi, em algum momento, vista dessa forma. A diferença está entre observar e agir.
Diante de tantos desafios globais e locais, temos uma oportunidade concreta de redefinir prioridades. Fortalecer valores coletivos, ampliar o senso de responsabilidade social e construir caminhos mais equilibrados não é apenas desejável, é necessário.
O futuro não se impõe, ele se constrói e precisamos começar agora.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar











