Uma intensa nevasca no Monte Everest, no Tibete, deixou mais de 200 pessoas presas nas encostas da montanha mais alta do mundo neste fim de semana. O episódio, considerado um dos piores já registrados em outubro por guias locais, mobiliza centenas de moradores e equipes de resgate em uma corrida contra o tempo para salvar o grupo. Nesta segunda-feira (6), a mídia estatal chinesa informou que conseguiu fazer contato com as pessoas isoladas. Nesta terça (7), eles continuavam isolados.
O fenômeno climático atingiu a encosta leste do Everest, no lado tibetano, a cerca de 4,9 mil metros de altitude, bloqueando trilhas. Segundo a mídia chinesa, cerca de 350 pessoas já foram resgatadas e levadas à cidade de Qudang, enquanto outras 200 ainda aguardam ajuda. Por segurança, o acesso turístico à área foi suspenso no sábado pela companhia de turismo local.
Estimativas de uma agência de notícias local indicam que, ao todo, cerca de mil pessoas acabaram presas em acampamentos nas encostas de ambas as faces do Everest após a nevasca
No extremo norte, na cadeia montanhosa de Qilian, um alpinista faleceu de hipotermia após ficar isolado durante a tempestade. Na noite de segunda-feira, 213 pessoas na área de Qilian (outro ponto distante de onde estão os 200 isolados) foram resgatadas em segurança, segundo a TV estatal chinesa.
A montanhista Aretha Duarte, de Campinas — primeira mulher negra latino-americana a chegar ao topo do Everest — acompanha o caso com preocupação.
Em entrevista ao Hora Campinas, ela disse ter ficado “bastante preocupada” com a notícia, especialmente pela época do ano em que o acidente ocorreu. “Essa é uma época em que as expedições e os trackings ainda acontecem normalmente. Estamos no fim da temporada, quando ainda é possível fazer trilhas em segurança”, afirmou. “Esse evento mostra como as mudanças climáticas podem estar alterando padrões que antes eram previsíveis.”
As fortes nevascas começaram na noite de sexta-feira e se intensificaram nas encostas orientais do Monte Everest, uma região popular entre alpinistas e caminhantes. Relatos de pessoas que chegaram a Qudang indicam que o grupo foi surpreendido pela virada brusca do tempo — a previsão apontava apenas neve leve no sábado e sol no dia seguinte. Durante a madrugada, no entanto, a tempestade ganhou força, com ventos intensos e neve incessante.
A região passa por fenômenos meteorológicos adversos.
Nos últimos dois dias, chuvas intensas provocaram deslizamentos de terra e inundações repentinas no Nepal e na Índia, deixando ao menos 68 mortos, sendo 50 no Nepal e 18 na Índia, além de várias outras desaparecidas.
Aretha explica que o acidente no Everest ocorreu pelo lado chinês — o oposto da face sul, no Nepal, por onde ela realizou sua escalada em 2021. Mesmo sem ter conhecido aquela região, ela entende bem os riscos e reforça a importância de agir rápido em situações como essa.
“Diante de uma adversidade como essa, é fundamental que o resgate aconteça o mais rápido possível. O tempo é determinante para salvar vidas. Ficar isolado em ambiente de montanha significa correr risco de hipotermia, desidratação e até queimaduras pela incidência do sol sobre a neve. É uma situação muito complexa.”

Riscos extremos e preparação constante
Na última semana, houve um aumento expressivo do turismo interno na China, em meio ao feriado nacional conhecido como Semana Dourada. O Everest, com seus 8.849 metros de altitude, segue entre os principais pontos turísticos do país.
Para Aretha, episódios como esse reforçam o quanto a preparação é vital para quem deseja viver experiências em alta montanha. “Quem quer subir um vulcão, fazer uma trilha ou escalar precisa entender o nível de risco e saber se há estrutura de resgate, condutores treinados e equipamentos adequados”, alerta. “É preciso se preocupar com o frio, o vento, a falta de oxigênio e até com o entrosamento da equipe, porque um grupo harmonioso é essencial para garantir segurança.”
A campineira lembra que, mesmo em expedições bem estruturadas, o risco nunca desaparece.
Ela ressalta que a taxa de mortalidade no Everest gira em torno de 1% — ou seja, a cada dez pessoas que tentam chegar ao cume, uma não retorna. “Mesmo com tecnologia e bons equipamentos, o risco ainda assim existe. São ambientes de altitude extrema, frio intenso, ventos imprevisíveis e ar rarefeito, que colocam o corpo e a mente no limite. Por isso, escolher guias e empresas com experiência e responsabilidade não é opcional, é questão de sobrevivência”, afirma.
Durante sua própria escalada ao topo do mundo, em 2021, Aretha enfrentou condições severas. “Nosso cérebro foi feito para funcionar com entre 95% e 100% de oxigênio, como a nível do mar. Lá, eu cheguei a ter 70% de saturação e precisei me cuidar com corticoides para continuar. A orientação, nesses casos, é sempre descer o quanto antes. Por isso, imagino a gravidade do que estão enfrentando agora.”
Ela também reforça que o verdadeiro objetivo de qualquer expedição é o retorno seguro: “O nosso verdadeiro cume não é chegar ao topo da montanha, é voltar para casa com integridade. Esse deve ser sempre o foco.”
Quem é Aretha Duarte
Nascida na periferia de Campinas, Aretha Duarte fez história ao se tornar, em 23 de maio de 2021, a primeira mulher negra latino-americana a alcançar o cume do Monte Everest, após 54 dias de expedição.
Para viabilizar o sonho, ela recolheu 130 toneladas de materiais recicláveis, com o apoio de amigos e familiares, até reunir os recursos necessários para a jornada.
Formada em Educação Física, Aretha acumula ampla experiência no montanhismo, tendo alcançado cumes em diversos países. Em setembro deste ano, ela guiou um grupo de cinco brasileiros até o Monte Kilimanjaro, na Tanzânia.
Além das conquistas nas montanhas, Aretha atua como palestrante em temas como impacto social, sustentabilidade e liderança, e é embaixadora de projetos e empresas que incentivam o esporte, a inclusão e o cuidado com o meio ambiente.
LEIA TAMBÉM
Filme sobre conquista de campineira Aretha Duarte no Everest tem estreia mundial











