O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado nesta quinta-feira (20), marca a resistência, o protagonismo e a luta da população negra brasileira. Decretado como feriado nacional em 2023, homenageia Zumbi dos Palmares, símbolo da luta contra a escravidão e o racismo. Em Campinas, a data ganha um significado ainda mais profundo. Conhecida por historiadores por carregar a herança de um passado escravocrata, hoje essa mesma cidade abriga um dos mais importantes centros de pesquisa e memória negra do país: o Projeto Afro Memória, sediado no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp, uma das iniciativas mais relevantes na preservação e difusão da memória negra brasileira.
Fruto de uma parceria entre o Afro/Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o AEL/Unicamp, o CEMI (Centro de Estudos de Migrações Internacionais) e a Universidade da Pensilvânia (Upenn), o projeto reúne e digitaliza acervos pessoais e institucionais de ativistas, intelectuais e organizações negras. O projeto integra o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), que completou 50 anos de existência em 2024.
Criado durante a ditadura civil-militar, o AEL tem servido, ao longo das décadas, como um espaço de memória, preservação de documentos e registro de movimentos sociais do Brasil e do exterior.
Iniciado em 2019, o Afro Memória já acumula 16 acervos de diferentes ativistas, intelectuais e organizações vinculadas às lutas antirracistas no país. O professor Mário Medeiros, diretor do projeto e docente do Departamento de Sociologia da Unicamp, explica que o objetivo central é preservar a memória dos movimentos negros:
“Temos aqui um arquivo de história e documentação social. É um centro de preservação. Um arquivo que tem como tarefa a salvaguarda e dar o acesso público e gratuito para essas memórias, especialmente com essas memórias de caráter progressista que guardam aqui.”
Entre os materiais em destaque estão registros históricos do Movimento Negro Unificado (MNU), organização pioneira da luta antirracista no Brasil, fundada em 1978 durante a ditadura e ainda hoje protagonista na defesa da igualdade racial. O projeto reúne o acervo ligado ao legado de Milton Barbosa, um dos fundadores do MNU, cuja trajetória percorreu diversas cidades do interior paulista — incluindo Campinas.

O Afro Memória também preserva a documentação dos acadêmicos negros Reginaldo Bispo e Margarida Barbosa, moradores de Campinas e figuras centrais no movimento por décadas.
O acervo inclui registros sobre a expansão do movimento hip-hop no Brasil, com fotografias, cartas e materiais de comunicação que ajudam a reconstruir a formação dessa cena cultural. Há também o conjunto documental de Januário Garcia, fotógrafo que atuou na indústria musical, produzindo capas de discos de artistas como Belchior, Chico Buarque e Raul Seixas, e que dedicou grande parte de sua carreira ao registro visual do movimento negro. Integram ainda o projeto documentos de Geledés – Instituto da Mulher Negra, criado em São Paulo em 1988 e que segue como referência nacional, além de diversos outros conjuntos documentais.
Entre fotografias, cartazes, atas de reuniões e até peças de roupas, o Afro Memória tornou-se o espaço com a maior documentação reunida sobre o protagonismo negro brasileiro. Mário ressalta que o acervo nasceu da urgência de preservar essa memória, preocupação que, desde o início do projeto, buscava evitar o risco de apagamento histórico.
“Os movimentos sociais, como os movimentos negros, de mulheres, feministas, LGBT+, indígenas, tinham e ainda têm receio não só do que poderia acontecer com seus militantes, mas também com a memória do que acumularam e produziram ao longo de décadas”, destaca Mário.
Fotografia, música e o movimento negro
Os documentos coletados revelam manifestações culturais que ultrapassam a militância política e alcançam o campo das artes. O acervo de Januário Garcia, fotógrafo dedicado ao registro do avanço do movimento negro, compõe uma narrativa visual de momentos cruciais da luta antirracista.
O lado “famoso” do fotógrafo — que morreu em 2021, vítima da Covid-19 — também o coloca como autor de capas de discos icônicos, como Alucinação (1976), de Belchior; Coisas do Meu Pessoal (1977), de Leci Brandão; e Há 10 Mil Anos Atrás (1976), de Raul Seixas.
“Ele tinha a ideia de que, se até a geração dele não havia uma história visual do movimento negro, a partir dele haveria”, diz Mário.
“Então ele documentou marchas, protestos, pessoas, além de ser um grande fotógrafo da propaganda e da indústria fonográfica brasileira.” Parte desse acervo é compartilhada com o Instituto Moreira Salles (IMS) e está disponível no AEL.

A relação do movimento negro com a música também se manifesta nos registros raros da expansão do hip-hop no Brasil. Revistas, flyers, cartazes e cartas compõem o acervo do King Nino Brown, reunido ao longo da atuação pioneira do militante, que guardava toda documentação sobre o hip-hop que recebia.
“O Nino é uma espécie de historiador amador, diletante, que guardava toda a documentação de bailes e festas de Hip-Hop que ele ia. Ele possuía documentação de bailes, festas, cartazes, flyers, cartas, livros raros que não existiam na universidade e que, quando chegam aqui, enriquecem muito o acervo”, explica Mário.
Entre os materiais, há uma foto de King Nino com Mano Brown, do Racionais MC’s ainda jovem. “Ele recolhia anúncios e materiais de conscientização da juventude negra. Tinha essa preocupação de registrar o que estava acontecendo no momento.”
Campinas e o interior paulista
Campinas é centro de diversas histórias guardadas pelo projeto. Mário explica que os materiais de Reginaldo Bispo e Margarida Barbosa, que integram o acervo, foram trabalhadores da Unicamp e militantes que ajudaram a organizar o movimento negro na região. Seus acervos incluem documentos de encontros, reuniões, pautas, agendas e denúncias de casos de racismo na cidade.
Reginaldo Bispo foi militante histórico do Movimento Negro, atuou em grupos de teatro, partidos e sindicatos em Campinas e foi membro do MNU durante décadas. Funcionário da Unicamp, foi desligado durante a ditadura militar. Já Margarida Barbosa, funcionária do setor de saúde da Unicamp, ocupou cargos executivos no sindicato em várias gestões e teve trajetória importante no MNU-SP.
O acervo dos dois foi incorporado ao AEL em março de 2020, após anos de preservação doméstica. Documentos sobre violência policial nos anos 1980 estavam guardados em gavetas do casal, em sua casa em Campinas, e foram recebidos pelos pesquisadores.
A relação de Campinas com a memória negra dentro dos acervos vai além. Mário destaca os clubes negros, espaços essenciais de sociabilidade e cultura ao longo do século XX, registrados no Afro Memória e outros acervos do AEL.

Em Campinas, o Clube Cultural e Recreativo Campinas, o “Machadinho”, em homenagem a Benedito Carlos Machado, é o mais emblemático. No interior, destacam-se o Grêmio Recreativo Familiar Flor de Maio, em São Carlos, e a Sociedade Beneficente 13 de Maio, em Piracicaba.
“Antes do Afro Memória, houve um projeto no AEL sobre a preservação da memória dos clubes negros do interior paulista”, explica Mário.
“Esses clubes existiam em pelo menos 21 cidades. Eram lugares onde se dançava, onde as famílias se encontravam, onde era possível ter reuniões políticas e socializar longe, ainda que temporariamente, de ações racistas.”
A tradição foi parcialmente recuperada na década de 1970 com os bailes negros, festas de soul e funk que celebravam estética, orgulho racial e encontros comunitários. “Era como retomar uma ideia de poder se ver, se achar bonito, se gostar, namorar, se organizar”, afirma o professor.
Campinas também aparece no acervo da Corporação Musical Homens de Cor, fundada no início do século XX e ainda ativa na região central. O material, composto por fotografias, partituras, anúncios e arquivos administrativos, foi digitalizado pelo AEL e devolvido à corporação.
Preservação e restauração
A preocupação com a integridade da memória exigiu um trabalho constante de preservação. “Se pensarmos no MNU, são 45 anos de um movimento nacional. E, de repente, tudo isso poderia ser perdido, queimado, alvo de violência. E não seria estranho que isso acontecesse”, afirma Mário.
“A universidade pública, especialmente a Unicamp, foi vista por muitos movimentos como um lugar seguro para proteger e preservar esse conhecimento, pela reputação que o AEL construiu ao longo de 50 anos.”
Ele lembra que o AEL guarda acervos fundamentais da história brasileira, como o “Brasil: Nunca Mais” e o Comitê Brasileiro pela Anistia, sempre consultados por pesquisadores, familiares, ex-presos políticos e jornalistas do Brasil e do exterior. “O AEL é um lugar de conservação de memórias, onde as pessoas sabem que podem acessar informações de forma fidedigna.”

Noêmia, funcionária do setor de preservação e restauro há 15 anos, explica que o processo exige paciência e cuidado: “Eu trabalho no setor de preservação e restauro de documentação. Toda a documentação passa primeiro por nós: fazemos triagem, verificamos presença de fungos ou insetos. Muitos materiais chegam úmidos, com mofo; alguns estavam até enterrados. Precisamos higienizar tudo antes de restaurar e acondicionar.”
Possibilidade de estudantes negros conhecerem sobre o passado
Para Mário, o acervo ganha ainda mais força quando observado à luz das ações afirmativas da universidade. Em 2025, de acordo com a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), a Unicamp possui 3.467 estudantes negros matriculados: 21,17% se declaram pardos e 5,88%, pretos. A soma passou de 15,5% em 2009 para 27,3% em 2025.
Para esses alunos, o Afro Memória pode representar a chance de acessar a história de seus antepassados. “Se eles quisessem ter contato com experiências que contassem a história das suas famílias, algo que servisse de referência, instrumentos para lutar contra o racismo e criar uma cultura antirracista, até pouco tempo atrás isso não existia”, afirma Mário.
“O Afro Memória encontra a universidade em um momento de mudança social, ainda que tardia, mas felizmente em curso.”
Como visitar?
Qualquer pessoa pode visitar tanto o AEL quanto o Projeto Afro Memória. Os arquivos funcionam de segunda a sexta, das 9h às 17h. Agendamentos podem ser realizados pelo e-mail: aeldigit@unicamp.br.
Endereço:
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas — IFCH
Arquivo Edgard Leuenroth
Rua Cláudio Abramo, 377 — Campinas — SP












