Perdi parentes muito queridos em acidentes nas estradas, outros queridos por pouco não se foram pela mesma causa. Talvez não haja uma família no Brasil que não tenha sido atingida de alguma forma por acidentes em ruas ou rodovias.
Este é um dos maiores desafios em saúde pública no país, mas o assunto continua sendo negligenciado ou, no mínimo, sem merecer a atenção devida. Na recente campanha eleitoral para Prefeituras, por exemplo, foi tema quase ignorado, apesar de grande parte dos acidentes ocorrer nos espaços urbanos, sobretudo das grandes cidades.
Os números falam por si. Eles configuram uma verdadeira epidemia, com tantos casos de mortes e feridos em acidentes de trânsito.
Entre 2010 e 2019, correspondente à Primeira Década de Ação pela Segurança Viária, iniciativa da ONU, o Brasil contabilizou 392 mil óbitos por acidentes em ruas, avenidas e rodovias, ou por Sinistros de Transporte Terrestre (STTs), o termo técnico para essas tragédias.
Esse contingente de mortes é equivalente à população de uma cidade como Diadema, no ABC paulista, ou Anápolis, em Goiás. São números absurdos, confirmando como o trânsito brasileiro é um dos mais violentos do mundo e que por si só já demandariam medidas muito mais eficazes do que as existentes.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), assinado por Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho e Erivelton Pires Guedes, mostrou que entre 2010 e 2019 morreram em acidentes de trânsito no país 13% a mais do que na década anterior.
Com isso, o Brasil não cumpriu a meta estipulada para a Primeira Década de Ação pela Segurança Viária, que era de redução de 50% no total de óbitos ao final do período.
Realizado com base em dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM-Datasus), o estudo revelou que, em relação à década anterior, a proporção de mortes em atropelamentos caiu de 28% para 19% no período de 2010 a 2019. Essa queda mostra que houve algum sucesso nas ações para redução de atropelamentos nos centros urbanos, como os limites de velocidade em algumas vias, a aplicação de multas por excesso de velocidade e as campanhas educativas.
Por outro lado, entre 2010 e 2019 a proporção de mortes por acidentes com motocicletas representou 30% do total de óbitos, em comparação com os 17% da década anterior. Foram quase 120 mil mortes por acidentes com motos entre 2010 e 2019, um número equivalente ao da população de cidades como Itatiba ou Barretos, no interior de São Paulo.

“Este triste quadro é resultado da forte expansão da frota de motocicletas no Brasil ocorrida nos últimos 25 anos, além do aumento vertiginoso dos serviços de transporte de mercadorias e pessoas utilizando motocicleta, entre outros fatores”, comentam os autores do estudo do IPEA. É evidente que ações mais eficazes relacionadas à segurança dos usuários de motocicletas é uma das medidas mais urgentes para a proteção da vida no trânsito no país, considerando a Segunda Década de Ação pela Segurança Viária, já em curso e correspondente ao período 2021-2030.
Infelizmente, os primeiros números relacionados a essa nova Década de Ação no Brasil não são nada animadores. Em 2022, foram cerca de 34 mil mortes por acidentes em transportes terrestres, aumento de quase 2 mil óbitos em relação a 2019.
O estudo do IPEA dá indicações de onde o país precisa investir para melhorias substanciais nos dados na Segunda Década de Ação pela Segurança Viária. Além das já citadas medidas em relação à frota de motocicletas, é fundamental a melhoria nas condições da frota de veículos utilizados pela população de mais baixa renda.
O estudo apontou que a imensa maioria (mais de 90%) da proporção de mortes por acidentes acontece entre a população com até 11 anos de escolaridade, correspondente à população de menor renda. A proporção de óbitos entre a população com 12 anos ou mais de estudo, correspondente à população com mais alta renda e com veículos mais novos, é de 8,5%. Cerca de 60% das mortes foram entre a população com até 7 anos de estudo.
“A própria escolaridade reduzida, e, consequentemente, o menor nível de renda deste grupo, torna-se um fator de risco para ocorrência de sinistros de transporte em função do maior uso de veículos com manutenção precária, problemas com falta de habilitação e equipamentos de segurança, maior circulação em áreas mais pobres com poucos equipamentos de segurança de trânsito, além do maior uso de motocicletas de baixa cilindrada nesta faixa, que são veículos mais vulneráveis em termos de proteção ao motorista”, alertam os autores do estudo do IPEA.
Todos esses números são indicadores (não muito comentados e divulgados) da conhecida e triste desigualdade existente no Brasil.
Os signatários do estudo do IPEA entendem que a ampliação de espaços para pedestres nas cidades, o fortalecimento das campanhas educativas, o estímulo ao transporte público e medidas como melhoria da iluminação e da sinalização em vias públicas são algumas das ações que devem ser intensificadas com urgência.
São claramente temas relacionados à organização do espaço urbano que deveriam ser mais debatidos durante a campanha para as prefeituras, o que infelizmente não ocorreu, indicando como a segurança viária ainda está longe de figurar de fato na agenda de grande parte dos gestores e postulantes a gestores nas cidades brasileiras.
Além das perdas humanas, aquelas que devem ser mais lamentadas, as mortes por acidentes viários também representam enormes gastos com saúde pública. Maior segurança viária já, uma das prioridades para o Brasil que desejamos e merecemos!
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: [email protected]












