Este texto foi publicado pela Zeppelini Publishers nesse último mês de maio e que estou reproduzindo, com pequenos ajustes e contribuições (1). Trata das variações geográficas de um país, e o Brasil é um país extremamente heterogêneo, onde as políticas públicas podem e devem variar de acordo com as realidades e necessidades regionais. Quando se trata de ciência, não é diferente. A ciência é, por excelência, um empreendimento humano destinado a ampliar os horizontes do saber e a oferecer respostas aos desafios da sociedade. No entanto, embora a sua vocação seja universal, os contextos nos quais o conhecimento é produzido e aplicado são, inevitavelmente, locais ou regionais.
Nesse paradoxo entre a universalidade da ciência e a particularidade das realidades vívidas, algumas questões fundamentais se sobrepõem: como a edição científica pode valorizar e fomentar pesquisas que dialoguem diretamente com os contextos sociais, econômicos e ambientais regionais? Mais ainda, como fazer isso sem perder de vista a legitimidade e o reconhecimento no cenário acadêmico internacional? Estas perguntas permitem respostas estratégicas e éticas.
A ciência, quando sensível ao território, pode se tornar uma poderosa ferramenta de transformação social. Para isso, os jornais científicos precisam assumir um papel mais ativo na promoção de uma ciência comprometida com o impacto local e com a inclusão de vozes historicamente marginalizadas nos processos de produção do saber.
É impossível desvincular o conhecimento científico dos contextos nos quais ele é produzido. O território influencia a formulação de problemas, a escolha de metodologias, o tipo de dados encontrados e a forma como os resultados são interpretados. Um estudo sobre os efeitos da mudança climática na agricultura, por exemplo, deve considerar as especificidades de solo, o regime hídrico e as práticas agrícolas locais. Sem isso, a pesquisa corre o risco de ser genérico, impreciso e, portanto, ineficaz.
Tomemos como exemplo os estudos sobre saneamento básico em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Pesquisas realizadas com base nos modelos urbanos do Sudeste tendem a ignorar a geografia fluviátil, a fuga da presença do Estado e a organização sociocultural dessas comunidades. Nesse sentido, levantamentos contextualizados dados mais precisos e fortalecem o vínculo entre ciência e cidadania.
Os periódicos acadêmicos exercem uma função vital na validação, circulação e consagração do conhecimento científico. Por isso mesmo, eles podem – e devem – atuar como orientações da produção de ciência voltada para a resolução de problemas locais.
Infelizmente, muitos jornais ainda seguem critérios que privilegiam a portabilidade do conhecimento, em detrimento de sua aplicabilidade concreta. Para romper com esse modelo, algumas ações são fundamentais:
• Criação de tópicos temáticos sobre conhecimento aplicado: Revistas científicas podem instituir especificações específicas para pesquisas externas a contextos regionais, destacando não apenas a originalidade teórica, mas também a pertinência social. Isso conferiria visibilidade a estudos muitas vezes negligenciados por não atenderem aos critérios considerados “globais”.
• Diversificação dos conselhos editoriais: A presença de editores e pareceristas com vivência e experiência em diferentes territórios pode enriquecer as avaliações e reduzir visões centralizadoras. A diversidade regional nos conselhos editoriais promove maior sensibilidade às complexidades locais e amplia o alcance da revista.
• Valorização de metodologias participativas e interdisciplinares: Estudos que envolvem envolvimento local, saberes tradicionais ou práticas comunitárias são, por vezes, desvalorizados por parecerem “menos científicos”. Os periódicos podem reverter essa lógica ao considerar o valor epistêmico dessas abordagens.
• Publicação bilíngue ou multilíngue: A tradução de artigos para idiomas locais e internacionais pode democratizar o acesso à ciência e permitir que os resultados retornem às comunidades de origem, além de facilitar a leitura por pesquisadores estrangeiros interessados em estudos contextuais.
A ideia de que a ciência produzida com foco local é “menos relevante” ou “menos sofisticado” revela um preconceito arraigado no sistema de avaliação científica global. Contudo, esse pensamento não se sustenta à luz de experiências bem-sucedidas. A revolução verde, por exemplo, foi viabilizada por pesquisas agronômicas profundamente enraizadas em contextos específicos de clima e cultura agrícola.
Da mesma forma, estratégias de prevenção de doenças como os vírus zika e dengue foram desenvolvidas com base em estudos periódicos em regiões específicas, sendo depois incorporadas em protocolos globais de saúde pública. Ou seja, a ciência local não é um “subproduto” da ciência global — ela pode, inclusive, liderá-la, desde que tenha espaço e reconhecimento. Para isso, é preciso reconfigurar as métricas de impacto. Um artigo que muda a política pública de saneamento em uma cidade amazônica deve ser tão valorizado quanto aquele que é citado centenas de vezes em outros artigos internacionais. Afinal, o impacto social direto também é uma forma de excelência científica.
Algumas revistas científicas e instituições acadêmicas já adotam práticas mais homologadas a essa visão. A Revista Brasileira de Educação Ambiental, por exemplo, tem valorizado estudos de caso em comunidades tradicionais, agroecologia e ensino contextualizado. No México, a Revista Mexicana de Biodiversidad publica artigos em espanhol e inglês, incentivando tanto a difusão local quanto a internacionalização. Na África, iniciativas como o African Journals Online (AJOL) reúnem centenas de periódicos comprometidos com o desenvolvimento regional e com a inclusão de vozes africanas na ciência.
Como se vê, é possível ampliar o alcance e a prestígio científico sem renunciar ao compromisso com as realidades locais. Entretanto, a mudança não depende apenas dos jornais. Ela exige uma reformulação das políticas de fomento e avaliação científica. As agências de financiamento devem também adotar critérios que considerem o impacto territorial das pesquisas.
As universidades precisam apoiar a publicação em revistas locais ou regionais, regulando seu valor nos currículos dos pesquisadores. E os próprios cientistas devem compensar suas prioridades, equilibrando a busca por prestígio com o dever social de transformar a realidade que os cerca.
Além disso, a ciência aberta, que preconiza o compartilhamento de dados e o acesso irrestrito às publicações, pode ser aliada estratégica nesse processo. Ela permite que os resultados de pesquisas regionais cheguem a diferentes públicos, fomentando a transparência, a interdisciplinaridade e a colaboração entre saberes acadêmicos e populares.
A edição científica sensível ao contexto local representa não apenas uma inovação editorial, mas uma mudança de paradigma na forma como concebemos e utilizamos o conhecimento. Ao promover a valorização de realidades regionais, os jornais importantes para uma ciência mais plural, equitativa e socialmente relevante. A tensão entre a visibilidade internacional e a pertinência local não deve ser vista como um obstáculo, mas como uma oportunidade de construir pontes para um conhecimento verdadeiramente transformador.
(1)- Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas de produção de publicações impressas e online.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do Estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.







