Tenho pensado com mais frequência sobre o lugar que ocupo na vida das pessoas. Não o lugar simbólico que eu gostaria de acreditar que tenho, mas o lugar real, concreto, aquele que aparece quando eu paro de fazer, de resolver, de estar disponível. É desconfortável admitir, mas muitas vezes parece que minha presença só é percebida quando sou útil.
Em primeira pessoa, essa constatação dói mais. Porque não se trata apenas do outro que me procura por conveniência, mas de mim, que aprendeu a existir oferecendo algo. Como se o simples fato de ser não fosse suficiente. Como se eu precisasse justificar minha permanência através do que entrego. Aprendi cedo que ajudar aproxima, que resolver problemas gera afeto, que ser necessário garante algum tipo de vínculo. E assim fui ocupando espaços, agendas, escutas, funções. Fui me tornando “importante”. Mas importante para quê? Para quem? E por quanto tempo?
Quando estou cheio de recursos, emocionais, intelectuais, práticos, sou lembrado. Quando posso orientar, aconselhar, facilitar, apoiar, meu nome circula. Mas quando estou cansado, confuso ou simplesmente indisponível, algo muda. O telefone silencia. As mensagens cessam. Os convites desaparecem. E o que sobra é uma pergunta incômoda: será que gostam de mim ou do que eu faço por eles?
A Psicanálise nos ajuda a perceber que muitos vínculos se organizam pela lógica da utilidade. Não se trata de maldade consciente, mas de uma repetição inconsciente: usamos e somos usados para preencher faltas. O problema começa quando esse uso vira a base inteira da relação. Quando não há encontro, apenas troca. E o mais difícil de aceitar é que eu também sustento isso. Porque ao me oferecer demais, ensino o outro a me procurar apenas nesse lugar. Ao nunca faltar, nunca dizer não, nunca impor limites, eu me transformo em função. Deixo de ser sujeito e passo a ser ferramenta.
Existe um medo profundo por trás disso: o medo de não ser escolhido se eu não tiver nada a oferecer. Medo de que, sem desempenho, sem entrega, sem utilidade, eu não seja digno de vínculo. Então sigo fazendo. Mesmo exausto. Mesmo atravessado. Mesmo vazio, mas algo se revela quando eu paro. Quando digo “não posso”. Quando não resolvo. Quando não estou. É nesse vazio que os vínculos se mostram pelo que são. Alguns desaparecem sem explicação. Outros estranham. Poucos permanecem. E esses poucos não perguntam o que eu posso fazer, perguntam como eu estou.
Talvez nem toda ausência seja abandono. Às vezes é só o fim de uma função. E isso dói porque desmonta a fantasia de pertencimento que eu construí. Obriga-me a encarar que talvez eu tenha sido necessário, mas não amado. Procurado, mas não escolhido. Essa percepção também me responsabiliza. Porque enquanto eu insistir em valer pelo que entrego, continuarei cercado de relações condicionais. Enquanto eu confundir afeto com reconhecimento, continuarei refém da utilidade.
Então a pergunta não é apenas se as pessoas só se lembram de mim quando tenho algo a oferecer. A pergunta é mais profunda e mais incômoda: quem eu me permito ser quando não tenho nada para dar?
Talvez amadurecer seja aceitar que nem todo mundo vai ficar. E que isso não é fracasso, é critério. Talvez seja o preço de sair da conveniência e entrar, finalmente, na possibilidade de vínculos reais.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br









