Há alguns dias, li no Substack, espaço digital no qual autores publicam newsletters, artigos e conteúdos autorais, um artigo intitulado “Sou um pedacinho de todas as pessoas que já amei”, com o qual me identifiquei muito.
Após uma análise reflexiva sobre o tema, cheguei à seguinte conclusão: na verdade, nós somos, agora, um conjunto de qualidades e defeitos herdados de todas as pessoas que já passaram por nós, sejam elas as pessoas que amamos, as que odiamos ou até mesmo aquelas que passaram tão rápido que nenhum grande afeto chegou a ser criado.
Minha mãe, dona Gecilene, é formada em Letras e trabalha a semana toda em uma escola na zona rural de minha cidade. Por isso, vê as filhas – eu e minha irmã – apenas nos finais de semana e nas férias. Há cerca de três anos, eu e minha mãe iniciamos algo que parecia ser momentâneo, mas que se perdura até hoje: sempre que ela chega nos finais de semana, tomamos café e escutamos os clássicos da MPB.
Para ser honesta, o café não tem um gosto muito bom para mim, e a MPB, antes dela, preferia os mais modernos. Mas foi com ela que aprendi a apreciar os gostos das pessoas que amamos, aprendi também a valorizar os clássicos, Elis Regina, Ritchie e uma pitada de dance.
Todo conhecimento que ganhei através dos gostos dela, me fez ser quem eu sou hoje. Adoro MPB clássica. Mas e o café? Bem, posso dizer que sou “quase” viciada.
Mas não é assim com quase todo mundo?
Conhecemos pessoas que nos impõem diversas características. Conheço amigos que jogam alguns jogos só porque outro amigo joga, mesmo sem gostar; sei de pessoas que pedem determinada comida só porque o parceiro gosta, mesmo não gostando; já vi pessoas se interessarem por coisas que não gostavam, apenas para impressionar alguém; e existem casos como o meu, em que passamos a gostar de algo porque alguém que amamos gosta.
Ao longo do tempo, percebi que a identidade não é algo totalmente individual. Muito do que somos também nasce das relações que construímos ao longo da nossa vida.
A sociologia desenvolveu um conceito que explica justamente isso: a construção social da identidade, segundo a qual defende que nossa personalidade, gostos e formas de enxergar o mundo são moldados pelas experiências sociais e pelas pessoas ao nosso redor.
Novamente, nem sempre quem nos afeta — de forma positiva ou negativa — são as pessoas mais próximas de nós, às vezes, a moça do balcão da cafeteria nos ensina algo, o moço da sapataria, a atendente da padaria ou até mesmo os passageiros do ônibus que provavelmente nunca mais veremos na vida.
Somos um cemitério de todas as pessoas que já passaram por nós, porque, por mais que algumas pessoas se afastem ou percamos o contato, certos detalhes dessas pessoas sempre permanecerão em nós.
Somos seres incompletos sem o social, nós necessitamos ser preenchidos com as parcelas das pessoas que nos rodeiam.

Alina Abreu dos Santos, 17 anos, mora em Itupiranga, no Pará, e cursa o 3º ano do Ensino Médio. Interessada em compreender diferentes culturas e realidades, pretende seguir carreira na área de Relações Internacionais. Participante da Academia Educar On-line em 2023 e 2025, atualmente atua como monitora do projeto, experiência que tem fortalecido seu desenvolvimento pessoal e sua crença no protagonismo juvenil como ferramenta de transformação social.












