Nem toda vontade de comprar vem de você, e vale a pena prestar atenção nisso. Você já comprou algo só porque viu na internet e depois percebeu que nem precisava daquilo?
Pois é, talvez nunca tenha acontecido com você (e que bom), mas isso infelizmente acontece com bastante frequência entre a maioria dos usuários de redes sociais, especialmente em plataformas de alto engajamento, como Instagram e TikTok. De acordo com uma pesquisa realizada pela Bankrate, empresa de mídia financeira estadunidense, cerca de 48% das pessoas ativas digitalmente já fizeram compras impulsivas por influência das redes sociais.
Um fato curioso nessa pesquisa é que boa parte dessas compras vem acompanhada de arrependimento. Ou seja, o problema não está exatamente em comprar, mas na fragilidade da decisão, que muitas vezes não se sustenta depois.
Há alguns meses fiz uma compra em uma plataforma chamada SHEIN – empresa chinesa, uma espécie de comércio online que se popularizou no Brasil pós pandemia -, confesso que assim que os produtos chegaram, me senti muito satisfeita pela compra, mas ao passar dois ou três dias comecei a sentir umas “pontadas” de arrependimento, pois percebi que tinha sido totalmente influenciada a comprar algo que não me traria nem uma utilidade, nem sequer entretenimento.
Esse tipo de consumo não acontece de forma isolada. Ele aparece com bastante força em setores que dependem diretamente de velocidade e renovação constante, como as indústrias da moda e da alimentação, representadas pelos termos ingleses fast fashion e o fast food.

A palavra “fast”, do inglês, significa “rápido”, e é esse o pilar dessas indústrias. A lógica é simples: lançar tendências o tempo todo, tornar produtos rapidamente ultrapassados e incentivar novas compras de forma contínua.
E, infelizmente, isso não fica só nas indústrias.
Se analisar a forma como você consome as redes sociais, provavelmente vai seguir esse padrão: você abre o celular rapidinho, começa a rolar a tela e quando vê, já passou um tempão vendo praticamente a mesma coisa, só que com pequenas mudanças. Um produto aparece, depois outro parecido, depois alguém usando, depois algum influencer recomendando. Aos poucos, aquilo começa a parecer familiar. E, sem perceber muito bem como, também começa a parecer necessário.
Essa dinâmica também conta com a participação dos “influencers”. As trends são reproduzidas, amplificadas e, de pouquinho em pouquinho, viram referência. Com o tempo, o que começou como sugestão passa a ser escolha pessoal – ou a parecer.
É um padrão de consumo que faz parte do nosso cotidiano. A gente deixa de usar coisas que ainda estão em bom estado só porque não estão mais em alta. Come algo só porque virou tendência. Compra pensando na estética, sem uma necessidade real.
Esse fenômeno é conhecido como obsolescência psicológica: quando algo perde valor não por deixar de funcionar, mas por deixar de ser desejado.
Mas será que a culpa é só nossa?
Até aqui, nós falamos sobre o nosso comportamento como consumidor. Só que existe outro lado nessa discussão que também precisa ser considerado: o das empresas.
Esse padrão de consumo não surge por acaso. Ele é construído e reforçado o tempo todo.
Hoje, as empresas não vendem apenas produtos, elas estudam comportamento. E é aqui que entra um ponto que muita gente não percebe, e se percebe acha muito entediante pensar sobre: o funcionamento do nosso próprio cérebro.
Nosso cérebro responde a estímulos de recompensa. Quando a gente vê algo novo, interessante ou desejável, há uma liberação de dopamina (um mensageiro neuroquímico ligado à sensação de prazer). O cérebro não reage tanto ao ver, se preocupa mais com o querer.
Daí a famosa frase “A ânsia de ter, e o tédio de possuir”. Ou seja, muitas vezes a sensação boa não está na compra, e sim na expectativa de ter aquilo. Agora junta isso com as redes sociais.
Conteúdos rápidos, repetitivos, pensados exatamente para prender sua atenção. Você não vê algo uma vez só. Você vê várias vezes, em formatos diferentes, com pessoas diferentes. E aí acontece uma coisa bem simples: o cérebro começa a reconhecer aquilo.
E tudo que é familiar parece mais confiável. Isso se conecta com outro ponto que quase não é discutido: a obsolescência programada.
Enquanto a obsolescência psicológica faz você perder o interesse, a programada faz o produto, literalmente, deixar de funcionar com o tempo pois possuem um tempo de vida propositalmente programado.

São estratégias diferentes, mas que caminham juntas. E, no final, o resultado é o mesmo: você volta a consumir.
Sabendo disso, fica difícil ignorar o papel das grandes empresas nesse processo, principalmente quando tudo isso acontece de forma tão constante.
E cria uma situação um pouco desconfortável: Você compra porque realmente gostou ou porque foi exposta tantas vezes que começou a parecer uma boa ideia?
Se aquilo não aparecesse repetidamente na sua tela, ainda faria sentido?
Se grande parte das nossas decisões de consumo não é totalmente consciente, então até que ponto a gente realmente escolhe o que compra?
Não é sobre parar de consumir, isso nem faz sentido. Meu ponto com essa reflexão é esclarecer um pouco sobre esse consumo desenfreado que já alcançou um nível mundial, cabe a nós, pensar que talvez, seja sobre começar a prestar mais atenção no porque a gente quer tanto certas coisas repentinamente.
Pois é. Vale a reflexão, é sobre perceber quando a vontade de ter determinada “coisa” veio da gente e quando ela só apareceu depois de ver pela décima vez na tela.

Alina Abreu dos Santos, 17 anos, mora em Itupiranga, no Pará, e cursa o 3º ano do Ensino Médio. Interessada em compreender diferentes culturas e realidades, pretende seguir carreira na área de Relações Internacionais. Participante da Academia Educar On-line em 2023 e 2025, atualmente atua como monitora do projeto, experiência que tem fortalecido seu desenvolvimento pessoal e sua crença no protagonismo juvenil como ferramenta de transformação social.












