Basta entrar na Catedral Metropolitana de Campinas para conhecer um pouco do admirável trabalho do entalhador baiano Vitoriano dos Anjos Figueiroa. Embora tenha feito altares para igrejas de Salvador e Valença, na Bahia, foi em Campinas que realizou sua obra mais importante. Em tempo: ele chegou aqui com mais de 90 anos de idade e morreu aos 106, pobre e esquecido. Não há imagens ou documentos do artista. Apenas alguns livros que citam a existência de um filho, também entalhador, que morreu sem constituir família.
Foi Antonio Francisco Lisboa, português que viveu um tempo na Bahia e por isso recebeu esse apelido (Bahia), que em 1853 pagou as despesas de viagem e trouxe alguns entalhadores baianos, comandados por Vitoriano dos Anjos Figueroa e três assistentes. Eles seriam encarregados da ornamentação interna da Matriz Nova de Nossa Senhora da Conceição.

Vitoriano era tratado como “professor de entalhe”. Valendo-se dessa prerrogativa, formou na cidade um corpo de aprendizes, entre eles Antonio Dias Leite, José Antunes de Assunção e Laudíssimo Augusto Melo, que era deficiente auditivo e considerado pelos contemporâneos como um profissional muito habilidoso.
Vitoriano ficou responsável pelos entalhes do altar-mor, das tribunas, dos púlpitos e da varanda do coro, isso até 1862, quando foi dispensado pelo novo administrador, Antônio Carlos de Sampaio Peixoto, o Sampainho, genro do Barão de Indaiatuba. Depois que deixou a Catedral, dedicou-se a ministrar aulas de entalhe e a fazer oratórios e peças de mobiliário sob encomenda. Em 1864, já empobrecido, foi citado em ata de Sessão da Câmara de 15 de outubro por não poder prover o calçamento da via onde morava (Rua do Bom Jesus).
Em 1869, foi encontrado estendido na rua pelo pintor e dourador Francisco de Paula Marques, que teve a ideia de fundar uma instituição para amparar homens como Vitoriano. E então, em 1869, surgiu a Sociedade Artística Beneficente; 15 anos depois, já havia 800 sócios.

A memória de Vitoriano dos Anjos só foi recuperada em 1974, quando o Diário do Povo publicou uma série de reportagens sobre a Catedral Metropolitana de Campinas. A Rua Vitoriano dos Anjos fica na Vila João Jorge.
Há poucos textos que falam sobre o final da vida do artista em Campinas, e um deles é de José de Castro Mendes. Diz o seguinte: “Quando ele parou de trabalhar, tinha as mãos trêmulas e os cabelos brancos, arrastando-se pelas ruas, ignorado e combalido.”
O substituto
No lugar de Vitoriano dos Anjos Figueiroa entrou o ituano Bernardino de Sena Reis e Almeida, que realizou os altares da nave e as duas capelas laterais em estilo neo-barroco. Nesta ocasião, estava à frente dos trabalhos o arquiteto da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, Bittencourt da Silva.

As obras foram realizadas até 1866, quando o desmoronamento de uma parte dos alicerces culminou com a morte de quatro pessoas. Houve novas trocas de equipes e delas participaram Vilaronga (1871), Cantarino, Cristovam Bonini (1876) e Ramos de Azevedo (1879).
Na fase final dos trabalhos, o engenheiro Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo, de posse do projeto do arquiteto Cristóvan Bonini, edificou uma nova estrutura de tijolos para sustentar os elementos decorativos. Seguindo o projeto de Bonini, foram criados três planos decorativos em estilo clássico. Em 1923, a Catedral passou por reformas que criaram uma cúpula de cimento para sustentar uma imagem da Virgem Maria, em lugar de um pequeno zimbório de vidros coloridos
ALMA DE POETA
“Tenho visto poucos trabalhos tão peregrinos executados em madeira. É um poema de flores, arrendados, colunatas, arabescos, grinaldas, florões, enlaçados com profusão e simetria, beleza e unidade, traduzindo as ideias de uma alma de poeta sob as formas mais puras, graciosas e sublimes que se podem reproduzir pelo cinzel do escultor! O cedro passou do templo da criação ao templo da arte, cantando um salmo não interrompido de louvor a Deus, primeiro como expressão da natureza, e depois como um hino da humanidade!”
Comentário do viajante português Augusto Emílio Zaluar, que em 1861 visitou Campinas
DESGOSTO
“Este notável artista, já ancião e coberto de cãs, vive na mais ignorada obscuridade. Os seus trabalhos não são talvez apreciados nem remunerados como devem, o que explica a expressão de profunda tristeza e desgosto que se descobre na fisionomia do infatigável entalhador baiano. Surpreende ver o trabalho concluído por este homem em pouco mais de seis anos”
O viajante português Augusto Emílio Zaluar escreveu quando visitou Vitoriano dos Anjos em Campinas












