O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, falecido neste domingo, aos 93 anos, é a principal expressão do ecossistema de ciência, tecnologia e inovação estruturado em Campinas. Muito desse polo se deve a esse cientista nacionalista, de opiniões fortes e que não fugia de uma polêmica.
Em 1976, ano de nascimento do CPqD, então como um centro de pesquisa da Telebrás, Cerqueira Leite liderou a criação da CODETEC – Companhia de Desenvolvimento Tecnológico, idealizada para fomentar projetos que pudessem se transformar em pequenas empresas de base tecnológica. Era um embrião das futuras incubadoras de base tecnológica.
Na época, o físico era interlocutor de José Roberto Magalhães Teixeira, então vice-prefeito de Campinas e que foi motivado pelo cientista a lançar as bases para a estruturação de um polo tecnológico. Em uma das oportunidades em que assumiu a Prefeitura, por licença do titular, Francisco Amaral, Magalhães Teixeira assinou, a 19 de agosto de 1981, o decreto nº 6619, inserindo mudanças no zoneamento urbano de Campinas, em particular em uma área do Distrito de Barão Geraldo. O decreto delimitava uma área para a instalação de empresas de alta tecnologia.
Nas justificativas do decreto, Magalhães Teixeira evidencia a intenção de estruturação em Campinas de um similar ao “Vale do Silício” da Califórnia. Dizia a justificativa: “Considerando ser indispensável a reserva de uma região destinada à indústria de tecnologia avançada, procedimento este adotado nos Estados Unidos (onde se sobressai o parque industrial de Stanford) e, também, nos países europeus; Considerando que as Indústrias de alta tecnologia, como, por exemplo, de instrumentação, microeletrônica, informática, telecomunicações etc. somente se desenvolvem satisfatoriamente nas proximidades de centros de estudos e pesquisas; Considerando que existe em Campinas uma área ideal à finalidade almejada, especialmente face à sua localização, vizinha da Universidade de Campinas (Unicamp) e da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC Campinas)”.
Os entendimentos avançaram e, em 1983, quando Magalhães Teixeira já era prefeito, eleito no ano anterior, foi criada a Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec). Três anos depois, veio o Parque Tecnológico Ciatec I e, em 1992, o Ciatec II.
Cerqueira Leite entendia que essas oportunidades históricas poderiam ter sido melhor aproveitadas.
De qualquer forma, ficou esperançoso com iniciativas que se tornaram realidade, como o Projeto Sirius, que recebeu recursos de vários governos federais, a partir das bases lançadas pelo Laboratório Nacional de Luz Síncroton. Também ficou animado com o funcionamento dos núcleos criados na órbita do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
Opiniões fortes
O físico não fugia de controvérsias. Em uma de nossas últimas conversas, me disse que em várias oportunidades tinha manifestado aos presidentes Lula e Dilma ter sido um equívoco o investimento em exploração de petróleo no pré-sal e não em energias renováveis e alternativas, em um momento em que já se tornavam evidentes os graves impactos das mudanças climáticas alimentadas pelos combustíveis fósseis.
Cerqueira Leite era grande defensor do etanol, no qual via importante protagonismo do Brasil.
Foi um entusiasta, então, de iniciativas como o Centro de Pesquisas em Engenharia “Prof.Urbano Ernesto Stumpf”, concebido com o objetivo de desenvolvimento de motores adaptados ou criados especificamente para etanol e outros biocombustíveis.
Carreira brilhante
Graduado em Engenharia Eletrônica e Computação, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e com doutorado em Física de Sólidos pela Universidade de Paris (Sorbonne), trabalhou como pesquisador nos Laboratórios da Bell/EUA (1962-1970) e lecionou no I.T.A., na UNICAMP e na Universidade de Paris (Professeur d´echange).
Entre outros prêmios, foi agraciado com a Comenda da Ordem Nacional do Mérito da França e com a Cátedra da Universidade de Montreal, Canadá. Foi diretor dos Institutos de Física e Artes e Coordenador Geral das Faculdades da Unicamp. Foi Professor Emérito dessa mesma Universidade, da qual foi Professor Titular de 1970 a 1987.
Pesquisador Emérito do CNPq. Publicou dezenas de trabalhos em revistas especializadas, foi editor da Solid State Communications, editada em Oxford (Inglaterra), de 1974 a 1988, e “referee” de cerca de 20 revistas internacionais. Obteve cerca de 3.000 citações em revistas científicas de impacto.
Foi membro da Comissão de Energia da União Internacional de Física Pura e Aplicada e Presidente de Honra do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais que inclui o Laboratório Nacional de Luz Sincrotron, de Biotecnologia, de Nanotecnologia e do Bio-Etanol, todos sediados em Campinas, onde o cientista residia. Um dos maiores nomes da ciência no Brasil, um orgulho para Campinas.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











