Às vezes, quando algo volta para casa, não é apenas um retorno — é a recomposição de uma ausência. A volta de Pipo, uma calopsita macho de estimação, significou justamente isso para a família de Michele Carvalho, em Jaguariúna. Há um ano o pássaro se tornou parte fundamental de um lar profundamente marcado pela dor.
Pipo chegou à família pouco tempo depois de uma tragédia, silenciosa e angustiante, que abalou a cidade e transformou a rotina de Michele e de seus filhos: a morte de Arthur, o caçula, aos três anos de idade, após uma picada de escorpião dentro da residência. O Hora Campinas acompanhou o drama da família na época.
Em meio ao luto, dois meses depois o pequeno pássaro foi resgatado em uma rua de São Paulo, e passou a ocupar um pedacinho importante, trazendo movimento, companhia e um novo ritmo àquela casa.
Na tarde desta quarta-feira (14), no entanto, Pipo acabou fugindo após encontrar uma brecha enquanto voava livremente dentro da residência, no bairro Jardim Europa. O desaparecimento trouxe apreensão à família.
Três horas depois do sumiço, um garoto encontrou Pipo no asfalto, quatro ruas para baixo de seu lar.
Pipo foi encaminhado para a casa de Bruna Escotom. Bruna, aliás, não apenas tinha estrutura para acolher a calopsita, como também carrega uma história semelhante. Ela própria já havia perdido uma calopsita e vivenciado a incerteza de um eventual reencontro. Por isso, fez questão de cuidar da pequena ave e aguardar até que o verdadeiro dono fosse localizado.
Comprou, inclusive, uma gaiola para levar Pipo até o restaurante onde trabalha, na possibilidade de dar conforto a ele na espera da família.
E assim aconteceu. Na manhã seguinte ao desaparecimento, Michele entrou em contato com o jornal O Jaguar, que publicou uma postagem nas redes sociais pedindo ajuda para encontrar Pipo, com um número de contato.
Ao ver a publicação, Bruna reconheceu as características da ave que estava sob seus cuidados e confirmou que se tratava do mesmo pássaro.
O reencontro aconteceu na tarde desta quinta-feira (15). Michele chegou a oferecer uma recompensa pelo gesto, mas a empresária recusou, desejando apenas felicidade à família.
Pipo, que estava sonolento antes da chegada da família, foi cantarolando rua abaixo, reconhecendo talvez a proximidade da sua casa.
São histórias que se cruzam: uma ave que chega para confortar, que se perde e retorna; pessoas unidas por experiências semelhantes; e gestos simples que transformam o cotidiano. Pequenos sinais de que o afeto ainda encontra caminhos.









