A divulgação das notas do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) reacendeu um debate que que vai muito além de rankings ou comparações entre faculdades de Medicina. O que está em jogo é algo maior — e profundamente sensível: a qualidade da formação médica e seu impacto direto na segurança do paciente e no futuro da assistência em saúde no Brasil.
Quando discutimos fragilidades no ensino médico, não tratamos apenas de números, percentuais, desempenho acadêmico ou indicadores institucionais. Falamos de profissionais que, em pouco tempo, estarão diante de pessoas em situações de extrema vulnerabilidade, tomando decisões que podem salvar vidas ou comprometer trajetórias inteiras.
A formação médica é, antes de tudo, uma questão de responsabilidade social.
Na SMCC (Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas) – APM Campinas, essa preocupação não é recente. Há muitos anos temos chamado a atenção para a questão da expansão desenfreada de escolas médicas pelo governo, muitas delas se a mínima estrutura necessária, e sob o interesse de empresas e grupos de educação. O exemplo mais recente foi a promoção de um fórum regional em setembro de 2025, reunindo os diretores e representantes das faculdades de Medicina de nossa região para discutir temas fundamentais como estrutura dos cursos, capacitação de docentes e preceptores, residência médica, exame de proficiência, Enamed/ENARE e os desafios da formação profissional em um cenário de rápida expansão de escolas médicas no país.
O debate completo está disponível no 5º Fórum SMCC – “Faculdades de Medicina: Formação e Liderança Acadêmica para a Saúde do Futuro”:
Os dados agora divulgados apenas confirmam a urgência de um tema que a SMCC acompanha de perto há anos. As desigualdades na formação médica são reais, profundas e não podem ser ignoradas por quem pensa o futuro da saúde pública e privada.
É fundamental compreender que o Enamed — assim como qualquer instrumento avaliativo — deve ser visto como diagnóstico, não como fim em si mesmo. Avaliar é necessário, mas agir a partir da avaliação é indispensável.
Nesse sentido, a SMCC reafirma seu apoio à implantação de um exame nacional de proficiência para médicos, atualmente em discussão no Congresso Nacional. Trata-se de uma medida amplamente adotada em diversos países e já consolidada em outras profissões no Brasil, como a advocacia, com o objetivo de garantir um padrão mínimo de competência técnica e proteger a sociedade.
O exame de proficiência não deve ser visto como punição, mas como uma ferramenta de valorização do bom ensino, de estímulo à melhoria contínua das instituições formadoras e, sobretudo, de respeito ao paciente.
A formação médica de qualidade é uma responsabilidade compartilhada entre universidades, gestores públicos, entidades médicas e toda a sociedade. Ignorar os sinais de alerta — como os evidenciados pelo Enamed — é aceitar o risco de comprometer a segurança assistencial e a confiança da população no sistema de saúde.
E é importante lembrar: todos nós somos, ou seremos, pacientes um dia. Que tipo de médico queremos encontrar ao lado do nosso leito?
O debate está posto. Cabe a todos nós transformá-lo em ações concretas, com foco no que realmente importa: o cuidado seguro, ético e qualificado ao paciente.
José Roberto Franchi Amade é presidente da SMCC (Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas)









