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Home Opinião

Artigo: O agro além do mito! – por André Naves

Redação Por Redação
21 de janeiro de 2026
em Opinião
Tempo de leitura: 8 mins
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Artigo: O agro além do mito! – por André Naves

Foto: Freepik

O Brasil, uma nação de dimensões continentais e vocação inegável para a produção de alimentos e energia, encontra-se preso, em seu debate público e político, a uma imagem anacrônica e estigmatizada de um de seus pilares mais robustos: o agronegócio. Essa visão distorcida, muitas vezes alimentada por narrativas simplistas e descoladas da realidade, impede um debate sério e construtivo sobre o futuro do país.

É imperativo que superemos essa percepção há muito ultrapassada, que teima em pintar o setor como um vilão ambiental e social, para entendê-lo como o que realmente é: um projeto de nação, capaz de aliar prosperidade econômica, inclusão social e sustentabilidade ambiental.

O agronegócio brasileiro é um motor de desenvolvimento, um celeiro de inovações e uma fonte de dignidade para milhões de brasileiros, que merece ser compreendido em sua complexidade e potencial transformador.

É inegável que, como em qualquer atividade econômica de grande escala, o agronegócio brasileiro enfrenta desafios e, lamentavelmente, é palco de crimes que chocam a consciência nacional. A existência de casos de trabalho análogo à escravidão, por exemplo, é uma mancha que precisa ser combatida com rigor e intolerância. No entanto, é fundamental que não confundamos a exceção com a regra.

Esses são crimes, e devem ser tratados como tal, com a devida punição e o fortalecimento das fiscalizações. Comparar a criminalidade no agro com a criminalidade em outras áreas da economia, como a indústria, o comércio ou os serviços, revela que a patologia social não é exclusiva de um setor, mas um problema transversal que exige vigilância constante e ação enérgica do Estado e da sociedade.

A narrativa de que o agronegócio é intrinsecamente explorador ignora a vasta maioria das relações de trabalho que se estabelecem no campo. Os dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) são eloquentes: em 2024, o agronegócio empregou impressionantes 28,2 milhões de pessoas, o que representa cerca de 26% de todas as ocupações do país.

Para esses trabalhadores e familiares, o setor é uma fonte de renda, de dignidade e de fixação no campo com qualidade de vida. São famílias que constroem suas vidas, educam seus filhos e prosperam a partir das oportunidades geradas pela terra.

O agro moderno, impulsionado pela tecnologia e pela necessidade de qualificação,há muito está redefinindo o perfil do trabalhador rural. Longe da imagem arcaica do “jagunço” ou do “boia-fria” explorado, emerge uma nova classe de profissionais e empreendedores rurais. São agrônomos, veterinários, técnicos agrícolas, operadores de máquinas de alta tecnologia, especialistas em agricultura de precisão, gestores de fazendas e empreendedores que inovam em toda a cadeia produtiva.

Essa transformação não apenas eleva o padrão de vida no campo, mas também atrai jovens talentos e promove a inclusão social, oferecendo perspectivas de carreira e desenvolvimento em regiões que antes eram sinônimo de êxodo rural.

O agronegócio, em sua essência, é um motor de dignidade e progresso para milhões de brasileiros.

Uma das narrativas mais persistentes e prejudiciais sobre o agronegócio brasileiro é a de que ele é, por natureza, um inimigo do meio ambiente, um vetor de desmatamento e degradação. Essa dicotomia entre produção e preservação, no entanto, é falsa e perigosa, pois impede o reconhecimento dos avanços e do compromisso ambiental do setor, além de favorecer narrativas protecionistas estrangeiras.

A verdade é que o Brasil possui uma legislação ambiental robusta, o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que é um dos mais exigentes do mundo e que, através do Cadastro Ambiental Rural (CAR), exige que os produtores rurais preservem uma parte significativa de suas terras, seja como Reserva Legal ou Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Os dados corroboram essa realidade. Segundo estudos da Embrapa e outras instituições de pesquisa, cerca de 67% do território brasileiro é coberto por vegetação nativa. Desse total, uma parcela considerável está dentro de propriedades rurais, demonstrando que o produtor rural brasileiro é, em grande medida, um guardião da floresta.

A ideia de que o agro avança indiscriminadamente sobre a floresta ignora o fato de que a maior parte do desmatamento ilegal ocorre em áreas não destinadas à produção agrícola formal e que o setor produtivo tem se empenhado em aumentar a produtividade em áreas já abertas, recuperando pastagens degradadas e utilizando tecnologias que otimizam o uso da terra.

Também, a revolução tecnológica no campo, impulsionada por instituições como a Embrapa, tem sido fundamental para conciliar produção e preservação. Tecnologias como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que combina diferentes sistemas produtivos na mesma área, o plantio direto, que reduz a erosão e melhora a saúde do solo, a agricultura de precisão, que otimiza o uso de insumos, e o desenvolvimento de bioinsumos, que substituem produtos químicos por soluções biológicas, são exemplos claros de como o agronegócio brasileiro está na vanguarda da sustentabilidade. Essas inovações permitem produzir mais alimentos, fibras e energia na mesma área, reduzindo a pressão sobre novas aberturas e, em muitos casos, sequestrando carbono e recuperando ecossistemas.

O produtor rural brasileiro, com o apoio da ciência e da tecnologia, demonstra diariamente que é possível ter a floresta em pé e a lavoura que avança, desmistificando a falsa dicotomia e construindo um futuro mais verde e produtivo.

A força do agronegócio brasileiro transcende os limites da porteira da fazenda. Ele é um ecossistema complexo e dinâmico que irradia riqueza e oportunidades por toda a economia nacional. A produção primária, embora fundamental, é apenas o ponto de partida de uma vasta cadeia de valor que se estende por diversos setores.

Um dos pilares dessa expansão é o incentivo à agroindustrialização. Ao invés de exportar apenas commodities brutas, o Brasil tem avançado na transformação de seus produtos agrícolas, agregando valor, gerando empregos mais qualificados e complexificando sua economia.

A industrialização de grãos, carnes, frutas, lácteos e outros produtos não apenas aumenta o valor percebido no mercado internacional, mas também cria uma demanda por tecnologia, logística, embalagens e serviços especializados, impulsionando o desenvolvimento de outras indústrias e setores.

Essa verticalização da produção é crucial para a resiliência econômica do país e para a criação de um parque industrial mais diversificado e competitivo.

Além disso, o agronegócio se tornou um dos mais vibrantes polos de inovação do Brasil, impulsionando o boom das agtechs. Startups e empresas de tecnologia têm encontrado no campo um terreno fértil para desenvolver soluções disruptivas em biotecnologia, gestão de propriedades, logística de transporte, finanças rurais e inteligência de mercado. Essa efervescência tecnológica atrai talentos, investimentos e capital intelectual, posicionando o Brasil como um player global não apenas na produção de alimentos, mas também na criação de soluções para a agricultura do futuro.

A imagem de um setor atrasado e avesso à tecnologia é completamente desmentida pela realidade das fazendas conectadas, dos drones, dos sensores e da inteligência artificial que hoje permeiam o dia a dia do campo.

Essa revolução tecnológica e de agregação de valor não seria possível sem uma aliança estratégica e virtuosa com o setor público. As universidades federais, com seus centros de pesquisa e formação de excelência, e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma das instituições de pesquisa agrícola mais respeitadas do mundo, formam a base científica e tecnológica que sustenta a competitividade e a sustentabilidade do agronegócio brasileiro.

Essa parceria público-privada é um modelo de sucesso, demonstrando como o investimento em ciência e educação pode gerar retornos exponenciais para a sociedade, transformando o conhecimento em produtividade, inovação e desenvolvimento econômico.

A análise do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em regiões ligadas ao agronegócio é frequentemente complexa e, por vezes, mal interpretada. Embora alguns estudos possam, à primeira vista, sugerir que a média nacional de municípios predominantemente “agro” apresente um IDH inferior à média de outras regiões, uma análise mais detalhada e contextualizada revela um quadro muito mais promissor e inspirador.

É preciso ir além das médias e observar os casos de sucesso, onde o agronegócio moderno e tecnificado atua como um verdadeiro catalisador de desenvolvimento social.

Um exemplo notável dessa realidade pode ser observado em estados como Goiás. Municípios que se destacam pela produção agrícola de alta tecnologia e pela presença de cadeias produtivas agroindustriais robustas frequentemente apresentam um IDH médio superior não apenas à média nacional, mas também à média do próprio estado. Em Goiás, por exemplo, municípios líderes na produção agrícola tecnológica têm registrado um IDH médio de 0,741, superando a média estadual. Esse dado não é um mero acaso; ele é um reflexo direto da prosperidade gerada pelo agronegócio.

A riqueza que emana do campo, quando bem gerida e reinvestida, traduz-se em melhorias tangíveis nos indicadores sociais. Uma maior renda per capita permite às famílias acesso a melhores condições de moradia, alimentação e consumo. O aumento da arrecadação municipal, impulsionado pela atividade econômica do agro, possibilita investimentos em infraestrutura urbana e rural, como saneamento básico, eletrificação e estradas. Mais importante ainda, a prosperidade do agronegócio se reflete em maior acesso à educação e à saúde. Municípios com forte presença do agro tendem a ter mais recursos para investir em escolas de qualidade, programas de saúde e hospitais, elevando o nível de vida de toda a população.

Esse é o “círculo virtuoso” de desenvolvimento regional que o agronegócio moderno é capaz de criar. Ao gerar empregos qualificados, renda, impostos e demanda por serviços, ele impulsiona o crescimento de todo o tecido social e econômico local. As oportunidades criadas no campo e nas cidades adjacentes fixam a população, reduzem o êxodo rural e promovem a inclusão social.

O agronegócio, portanto, não é apenas um produtor de commodities; é um construtor de comunidades prósperas, um modelo de desenvolvimento que o Brasil precisa reconhecer e replicar em larga escala.

A imagem do “agro do mal”, do setor atrasado e predatório, é uma âncora que prende o Brasil a um passado que não existe mais. É uma visão que ignora a resiliência, a capacidade de inovação e o compromisso de milhões de brasileiros que trabalham no campo e nas cidades, construindo um agronegócio que é, ao mesmo tempo, produtivo, sustentável e socialmente responsável.

O que precisamos é de uma visão estratégica, que enxergue o agronegócio não como um problema a ser contido, mas como a mais potente plataforma para a construção de um Brasil desenvolvido, inclusivo e sustentável.

O agronegócio brasileiro provou sua capacidade de alimentar o mundo, de gerar divisas, de inovar e de se adaptar aos mais rigorosos padrões de sustentabilidade. Ele é um setor que emprega milhões, que investe em tecnologia de ponta, que preserva vastas áreas de vegetação nativa e que, em suas melhores expressões, eleva o Índice de Desenvolvimento Humano das regiões onde atua.

É tempo de despir-nos dos preconceitos e abraçar a complexidade e o potencial transformador do agronegócio. É tempo de reconhecer que a prosperidade que brota da terra, quando aliada à inteligência, à ciência e ao compromisso social, é um caminho de prosperidade para toda a nação.

O futuro do Brasil passa, inegavelmente, pelo campo. E é com a capacidade de trabalho, a inovação e a resiliência do povo brasileiro que, no agronegócio, encontramos um caminho sólido e promissor para semear um futuro de abundância e dignidade para todos.

 

 

André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política. 

Tags: agriculturaArtigoBrasildesenvolvimentoHora CampinasOpiniãoproduçãotecnologia
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