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Home Opinião

Artigo: Poderosos octogenários – por Joaquim   Z.   Motta

Redação Por Redação
26 de janeiro de 2026
em Opinião
Tempo de leitura: 4 mins
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Artigo: Poderosos octogenários – por Joaquim   Z.   Motta

Foto: Freepik

Neste momento, metade da segunda década do terceiro milênio depois de Cristo, observamos que a expectativa de vida no planeta é de aproximadamente 73 anos. No Brasil, 76; nos EUA e na Europa, 79; no Japão, 84; em Mônaco, quase 87.

No tempo de Jesus Cristo, era de 20 a 30 anos. Porém, aos 30, a pessoa não estava “velha”. Quem superava as doenças infantis tinha boa chance de envelhecer mesmo, chegar a 60 anos, por exemplo.

A presença atual de pessoas idosas e muito longevas tem aumentado em todos os cantos do planeta. A pandemia de Covid sabotou um pouco os dados, mas de 2023 para cá, houve recuperação geral.

Mais gente amadurecida, envelhecida, demanda de tudo, de necessidades específicas a generalidades. Velhos consomem, gastam, viajam, alguns ainda estudam, muitíssimos precisam se tratar e um certo percentual tem se habilitado a trabalhar.

No Brasil, cerca de 6% da população acima de 75 anos estão comprometidos profissionalmente. Nos EUA, cerca de 11%.

Há uma tendência mundial de aumentar essas percentagens, à medida que as expectativas de vida aumentam e que as dificuldades econômico-financeiras solicitam.

O mundo mais preenchido de idosos demandaria líderes e governantes em proporção equivalente.

A demografia do poder aponta que, atualmente, a idade média de um chefe de Estado no mundo é de aproximadamente 62 anos. Temos desde jovens de pouco mais de 30 anos (Irlanda, Burkina Faso) até os octogenários (Irã, Camarões, Brasil).

O homem mais focalizado e debatido neste ano de 2026, o presidente norte-americano Donald Trump, completará 80 anos em junho.

A nossa população mundial, neste início de ano, é de 8 bilhões e 300 milhões de pessoas. Como 2% estão com 80 anos ou mais, temos 166 milhões de idosos 80+.

Não é pouca gente. Corresponde à soma das populações de dois importantes países: Egito e Espanha.

No entanto, a grande maioria desse grupo etário (pelo menos 90%) não está se propondo a atividades de grande compromisso.

Esse pessoal não está trabalhando, não debate política em praça pública, não se candidata a nada, talvez no máximo se digne a orientar um neto, compartilhar dúvidas sobre doenças e remédios, curtir aposentadoria…

No meio deles, entretanto, temos esses líderes nacionais decisivos e marcantes. Entre eles, os que interessam mais para nós: Trump e Lula.

Logo chegarão a esta faixa os que são hoje os septuagenários no poder. Países de grande importância mundial estão nessa turma: China, Rússia, Israel e Índia.

Quando Trump disputou com Biden (este, hoje, com 83), em 2024, ele apontava insistente e destacadamente a idade do rival, como figura mais velha, em decrepitude cognitiva, em declínio político e pessoal.

O idoso 80 + tem mesmo muito mais possibilidades de apresentar declínios e dificuldades de saúde física e mental.

Não é pelo número, pela caracterização da oitava década, não é pelo etarismo. É da natureza, a involução senescente é o caminho para a falência dos órgãos, do corpo, da mente, é trajetória da morte, o destino final da vida.

Cada ano que um idoso 80 + comemora é um período especial, que merece ser valorizado, mas é parcela do destino inexorável que o aproxima do fim.

Tudo que o Trump faz é visto, revisto, filtrado, pensado e repensado. Qualquer vacilo será muito apontado e profundamente criticado pelas oposições ideológicas e pela mídia que têm suas atenções muito empenhadas nas figuras de destaque.

Quando atacava vigorosamente o candidato democrata, Trump insistia que Biden fizesse testes cognitivos e os dois comparassem resultados. O adversário não fez isso, o que sugeriu alguma limitação.

Como não mais será candidato à presidência (mandato termina em janeiro de 2029), Trump não precisa apresentar provas efetivas de saúde corporal, mental e emocional. Os seus opositores, no entanto, estão diariamente apontando suas possíveis ambivalências, contradições, recuos e apelações.

A vida política é essencialmente competitiva, muitas vezes chega a ser desleal, traiçoeira. É essencial estar atento, ativo, ligado e, principalmente, calmo e controlado.

Para isso, o candidato tem que se dedicar a algumas sugestões difíceis e desafios pesados.

O presidente brasileiro deve se candidatar à reeleição. E as eleições estão à nossa frente, batendo à porta. Ele e opositores logo estarão se enfrentando e debatendo.

Seria muito interessante, útil e construtivo, que tivéssemos no Brasil um controle médico neutro, científico e satisfatório do perfil clínico dos candidatos.

Ao institucionalizarmos o check-up cognitivo e físico independente, estreitaríamos o campo da “fofoca política” ou do ataque pessoal e reforçaríamos a metrologia institucional.

No ano das eleições, o exame seria trimestral. Lembremos que um idoso 80 + tem controle médico quase todo mês, com diferentes especialistas.

Favoreceríamos a desmistificação do “líder infalível”. O ego do poder se alimenta da ilusão de invulnerabilidade. Quando um líder se submete a uma junta médica, ele admite publicamente sua condição biológica. Isso humaniza a política, instrui a população sobre a finitude, limites do corpo e da mente e combate o “messianismo” tão marcante na América Latina.

Diante das avaliações trimestrais transparentes, o próprio partido e a coalizão de governo iriam trabalhar a continuidade e a sucessão. Não teríamos vácuos de poder. Se houver declínio, a transição para o vice-presidente ou a preparação de novos quadros deixa de ser “conspiração” e passa para uma gestão de risco baseada em evidências.

Há pessoas de 80 anos com clareza cognitiva superior a muitos de 50.

O check-up trimestral valorizaria o idoso que está bem, pois daria a ele um aval técnico de competência, ao mesmo tempo que protegeria o país de quadros de demência inicial ou debilidade física oculta.

O resultado técnico mostrando que um governante mantém funções íntegras mobiliza um credo racional nas instituições, coisa muito diferente da fé cega em líderes carismáticos.

Seria ótimo um exame que apontasse até o nível de corrupção dos nossos políticos. Nossa tradição de mandatários, congressistas, juristas e militares envolvidos em lances corruptos é lamentavelmente absurda.

Os check-ups, mesmo não tão ideais, permitiriam, ao menos, que o Brasil parasse de ver o governante como um “salvador eterno” e passasse a olhá-lo como um “gestor sob certas condições”: capaz, humano, limitado e mortal.

 

Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor

 

 

Tags: ArtigoHora CampinasidososoctagenáriosOpiniãoparticipaçãopolíticossaúdesociedadeTrabalhoTrump
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