Garantida na semifinal, a Seleção Brasileira Masculina de Vôlei sonha com o quarto título olímpico e se prepara para enfrentar o Comitê Olímpico Russo, na madrugada desta quinta-feira (5), a partir da 1h (horário de Brasília), na Arena Ariake, em Tóquio. Em caso de triunfo, o time brasileiro disputa a medalha de ouro com o vencedor do duelo entre França e Argentina, que se enfrentam na manhã de quinta-feira (5), às 9h (de Brasília).
Equipe campeã olímpica em 2016, sob o comando de Bernardinho, o time brasileiro agora tem Renan Dal Zotto na área técnica e conta com dois representantes da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Tratam-se do central Lucão, que vai vestir a camisa do Vôlei Renata na próxima temporada, além do ponteiro Douglas Souza, nascido em Santa Bárbara d’Oeste e fenômeno nas redes sociais desde a chegada da equipe brasileira no Japão.

Cria do voleibol barbarense, Douglas começou a atuar nas quadras diante da necessidade de praticar esporte após ser diagnosticado com quadro clínico de bronquite. Aos 13 anos, foi para São Paulo representar o time da sua cidade natal em uma partida diante do Esporte Clube Pinheiros. Silvio Forti, treinador das categorias de base da equipe da Capital, viu o jovem do interior paulista e logo de cara ficou impressionado com o talento do atleta.
Naquele dia, o jovem começou a dar os primeiros passos rumo ao topo do voleibol.

“O Douglas veio com o time de Santa Bárbara disputar o estadual em São Paulo no Clube Pinheiros. Ele se sobressaía porque era muito grande em relação aos meninos da equipe. Já tinha mais de 1,90m na época e chamou minha atenção. Falei com meu assistente e fomos conversar com a mãe dele que estava sentada na arquibancada. Ele tinha 13 anos, estava quase fazendo 14. No primeiro momento, a mãe ficou meio insegura, mas acabou aceitando, e ele também queria muito, então o colocamos para participar de uma peneira, mas já estava tudo certo e o trouxemos para treinar no Pinheiros”, relembra Forti, o primeiro técnico do atleta barbarense em São Paulo.
Apesar de atualmente representar a Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos, Douglas Souza encontrou dificuldades no início da carreira e pensou em voltar para casa logo nos primeiros meses morando na Capital. “No começo foi um pouco difícil para o Douglas se adaptar, pois foi criado muito próximo da mãe e da avó. No Pinheiros, ele era o mais novo e logo de cara começou a dividir apartamento com meninos um pouco mais velhos de vários estados do Brasil. Conversávamos muito com ele, não foi fácil, mas ele acabou ficando”, relembra Silvio.
A saudade de estar perto da família foi um desafio, porém o jogador se manteve forte e optou por permanecer no Pinheiros em busca do sonho de ser atleta profissional.
Além da saudade da família, Douglas encontrou mais um desafio quando começou a dar os primeiros passos no voleibol: a mudança de posição. Ainda em Santa Bárbara, o atleta atuava como central, sendo responsável por atacar na posição 3 e bloquear na rede. No Pinheiros, a comissão técnica colocou o jogador como ponteiro, com o objetivo de recepcionar, defender e atacar nas posições 2, 3 e 4. Em um primeiro momento, a novidade não agradou o jovem, que na época tinha entre 15 e 16 anos. Entretanto, Douglas se adaptou nos meses seguintes e brilha até hoje na função.
“Foi traumático porque a função de um central é totalmente diferente da função de um ponteiro. A recepção é difícil de aprender, mas ele tinha o talento e eu só ajudei a desenvolver. O voleibol precisa muito do biotipo, e o Douglas tem o biotipo ideal para ponteiro. Ele era central porque era grandão, mas eu vi nele a possibilidade de mudar para a posição de ponteiro por conta da manchete, passe e defesa. No começo, ele queria voltar para Santa Bárbara por causa dessa mudança. Mal sabe ele que hoje deve a mim essa alteração”, relembra Silvio, bem humorado.
Após período de adaptação, Douglas começou a brilhar e um ano depois surgiu a primeira oportunidade nas categorias de base da Seleção Brasileira.
O talento do atleta fazia diferença nas partidas com os mais jovens e o ponteiro começou a atuar em uma categoria acima dos demais companheiros, evoluindo até a profissionalização. “Víamos um potencial incrível no Douglas, o talento dele é nato. Foi difícil essa adaptação e a gente entendia isso. Mesmo com as dificuldades, ele ficou com a gente. No ano seguinte, já foi convocado para a Seleção Brasileira. Ele era da categoria infantil e foi convocado para a seleção infanto. Um ano depois, ele já era infanto e foi convocado para a seleção infanto-juvenil. Quando estava na seleção juvenil, foi convocado para fazer um estágio com a seleção adulta” relembra Silvio.
“Junto a isso, ajudou muito ele chegar à Seleção Brasileira o fato de que eu era o técnico da seleção paulista de vôlei. Nos Campeonatos Brasileiros, representando São Paulo, eu levava o Douglas e ele foi comigo jogando de ponteiro. No outro campeonato, chegou até a jogar de oposto, sempre se destacando e sendo campeão. Não tinha jeito de ele não ir para a seleção sendo campeão brasileiro, estadual e o melhor jogador da equipe”, completa o ex-treinador de Douglas.
A partir deste momento, o atleta não parou mais e despontou com um dos jogadores mais talentosos da sua geração.
Em 2014, Douglas Souza se transferiu para o São Bernardo, logo em seguida acertou com o Sesi-SP, vestindo a camisa do time da Capital até 2018, e depois chegou ao EMS Taubaté Funvic, onde foi campeão estadual e também da Superliga de Vôlei, a elite da modalidade no Brasil.
O sucesso que vinha desde os tempos no Pinheiros rendeu a Douglas a convocação para as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, quando tinha 20 anos. Jovem e ainda inexperiente, o atleta atuou pouco na competição, mas mesmo assim conquistou a medalha de ouro no Maracanãzinho. Em 2018, foi protagonista no Campeonato Mundial, sendo reconhecido como o segundo melhor atacante da competição.

“Acabou sobrando para ele participar da Olimpíada de 2016 e foi muito bem. No Campeonato Mundial, ele já foi eleito o melhor jogador da competição e ninguém segurou mais. A tendência é amadurecer e crescer ainda mais nos próximos anos. Eu fiz os cálculos e ele tem mais duas ou três Olimpíadas para jogar. Ele tem mais dez ou 12 anos de sucesso pleno, se não sofrer com lesões”, projeta Silvio.
Diversidade e redes sociais
Campeão olímpico em 2016 e da Copa do Mundo em 2019, Douglas Souza colocou seu nome na história sendo o primeiro atleta da Seleção Brasileira de Vôlei a se declarar gay. Hoje com 25 anos, representando o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, o jogador viralizou nas redes sociais mostrando detalhes do seu dia a dia na Vila Olímpica e interagindo com fãs.

A simpatia e a irreverência do atleta o fizeram se tornar fenômeno na internet, saltando de 329 mil para 3,2 milhões de seguidores no Instagram, até o momento. O sucesso nas redes sociais é tão grande que o jogador recebeu um convite de Boninho, diretor da TV Globo, para participar da próxima edição do Big Brother Brasil.
“Ele sempre foi muito animado, isso era muito contagiante, mas também tinham momentos que ele era muito comedido no início da carreira. Agora ele tem que fazer o que gosta e ser feliz. Eu dou o maior apoio. Ele conquistou o respeito e a admiração como jogador de vôlei. É um atleta de muita capacidade e o lado irreverente não pode prejudicar o lado esportivo. Ele não pode misturar as coisas e tem que ser feliz. Eu apoio totalmente o Douglas”, destaca Silvio.
Mesmo com o sucesso nas redes sociais, Douglas não deixou de lado a concentração no voleibol e se afastou da internet nos últimos dias na reta final dos Jogos Olímpicos. “Agora que estamos nas quartas, vou dar uma sumida das redes até alcançarmos nossos objetivos! Vou postar o horário dos jogos e os resultados. Continuem mandando energia positiva. A Final é logo ali”, publicou o atleta no Twitter, no último domingo (1).












