Embora a estatueta dourada do Oscar seja o objeto de maior desejo de qualquer cineasta, a Palma de Ouro é considerada o prêmio mais importante do mundo do cinema.
Troféu máximo do Festival de Cannes, realizado anualmente na França, sempre no mês de maio, a Palma de Ouro é entregue ao melhor filme exibido no tradicional e prestigiado evento.
O mais novo vencedor da Palma de Ouro será conhecido neste sábado (25), último dia da 77ª edição do festival, em 2024.

Diversos gênios da sétima arte já levaram a Palma de Ouro, desde grandes expoentes do cinema italiano, como Federico Fellini (“A Doce Vida”), até grandes ícones de Hollywood, como Francis Ford Coppola (“A Conversação” e “Apocalypse Now”), Martin Scorsese (“Taxi Driver”), e Quentin Tarantino (“Pulp Fiction”).
Aos 85 anos, Francis Ford Coppola pode ser o primeiro cineasta da história a faturar três vezes a Palma de Ouro. Diretor da aclamada trilogia “O Poderoso Chefão”, Coppola já ganhou o principal prêmio do Festival de Cannes pelos filmes “A Conversação” (1974) e “Apocalypse Now” (1979). Agora, em 2024, ele está concorrendo com “Megalopolis”, sua mais recente produção.
Em toda a história de quase 80 anos do Festival de Cannes, criado em 1946, apenas um brasileiro já teve o privilégio de ganhar a Palma de Ouro: o cineasta Anselmo Duarte, que venceu o prêmio pelo filme “O Pagador de Promessas”, em 1962. Ele também é, até hoje, o único sul-americano a alcançar essa façanha.
A obra-prima de Anselmo Duarte também concorreu ao Oscar de 1963, sendo a primeira produção da América do Sul a ser indicada ao prêmio de melhor filme estrangeiro da famosa premiação americana.
A 77ª edição do Festival de Cannes teve início no último dia 14 de maio e se encerra neste sábado (25), com o anúncio do grande vencedor da Palma de Ouro. Entre os 22 concorrentes ao prêmio de maior prestígio do festival e do cinema mundial, está o cearense Karim Aïnouz, que representa o Brasil com o filme “Motel Destino”. Será que teremos um novo brasileiro vencedor da Palma de Ouro depois de 62 anos?
“A Palma de Ouro vale mais do que o Oscar, pelo menos para nós, que amamos o cinema. O Oscar é um prêmio do cinema americano. Destaca, na maioria das vezes, os sucessos comerciais de Hollywood. A Palma de Ouro é para todo o mundo. Um filme pequeno como o meu, de um diretor desconhecido, pode arrebatar de um nome consagrado o grande prêmio. Isso não acontece no Oscar. É contra a lógica do prêmio”, explicou Anselmo Duarte, no livro “O Homem da Palma de Ouro”, escrito pelo jornalista e crítico de cinema Luiz Carlos Merten.

Primeira experiência com Orson Welles
Natural da cidade de Salto, no interior de São Paulo, Anselmo Duarte nasceu bem longe dos holofotes, mas estava destinado a brilhar no meio cinematográfico, tanto como ator quanto como diretor, além de transitar entre grandes ícones do cinema mundial.
Antes de despontar como galã de filmes da Atlântida e da Vera Cruz, dois importantes estúdios brasileiros do passado, o seu primeiro trabalho diante das câmeras aconteceu no Rio de Janeiro, aos 21 anos, como figurante do filme “É Tudo Verdade”, o inacabado projeto do lendário cineasta americano Orson Welles, que veio ao Brasil para gravá-lo em 1942, apenas um ano depois de dirigir e protagonizar “Cidadão Kane” (1941), considerado um dos melhores filmes da história.
“A primeira vez que me defrontei com uma câmera, num set de filmagem, foi no filme que o Orson Welles veio fazer no Brasil. ‘It’s All True’ [É Tudo Verdade] virou um filme mítico, até porque nunca foi concluído pelo Welles. Fizeram depois uma versão, recuperando o material que o Welles havia filmado, mas a montagem não era dele e eu duvido que o Welles fosse gostar do resultado”, diz Anselmo Duarte, no livro “O Homem da Palma de Ouro”,.
“Fiz figuração em uma cena no Cassino da Urca, onde eu dançava com a Lolita. Era uma dançarina profissional com quem eu fiz dupla no Cassino de São Vicente, no litoral de São Paulo. Começamos dançando e tivemos um caso. Fomos para o Rio atraídos por um anúncio que dizia que o renomado diretor americano Orson Welles necessitava de dançarinos para um filme que faria na capital federal”, relata Anselmo.
“Sem que eu soubesse ou me desse conta, o Welles também teve um fraco pela Lolita e passou a bancar o vício dela – Lolita adorava jogar. Um dia, uns grandalhões do estúdio me pegaram, puseram num carro e andaram comigo pelo Rio, ameaçando me matar se eu não desistisse dela. Duvido que a iniciativa tenha sido do Welles. Isso me pareceu mais coisa de leão de chácara, de quem queria agradar ao chefe. Sempre tive horror de gente bajuladora. Enfim, passei por um bom susto nessa minha primeira experiência no cinema”, relembra Anselmo Duarte.
Realizando o sonho em Cannes
Grande azarão da 15ª edição do Festival de Cannes, realizada entre 7 e 23 de maio, Anselmo Duarte surpreendeu o mundo e desbancou vários cineastas de expressão como o italiano Michelangelo Antonioni e o espanhol Luis Buñuel, que estavam entre os favoritos na disputa da Palma de Ouro, com os filmes “O Eclipse” e “O Anjo Exterminador”, respectivamente.
Mesmo com concorrência pesada, o cineasta brasileiro conquistou um júri que contava com nada menos do que o diretor François Truffaut, um dos principais ícones da Nouvelle Vague, importante movimento do cinema francês nos anos 60.
“Foram conquistados pela história de Zé do Burro, que quer pagar uma promessa, mas se choca com a intransigência do padre, que não lhe permite entrar com a cruz em sua igreja, porque a promessa foi feita num terreiro de candomblé”, resume Anselmo Duarte, sobre o enredo do filme “O Pagador de Promessas”, baseado na peça teatral homônima do dramaturgo Dias Gomes, com Leonardo Villar e Glória Menezes no elenco.

“O sucesso da sessão para a imprensa, a apoteose da sessão oficial e a imagem do Truffaut me acenando e fazendo um ‘Bravo!’ pessoal, para mim, ficou sendo o reconhecimento definitivo do ‘Pagador'”, apontou Anselmo Duarte, no livro “O Homem da Palma de Ouro”.
Por incrível que pareça, “O Pagador de Promessas” foi apenas o segundo filme da carreira de Anselmo Duarte como diretor. O primeiro havia sido “Absolutamente Certo”, de 1957, com Dercy Gonçalves e Odete Lara. Ele também dirigiu outros como “Vereda da Salvação” (1964), com Raul Cortez; “Quelé do Pajeú” (1969), com Tarcísio Meira; “O Crime do Zé Bigorna” (1977), com Lima Duarte; e “Os Trombadinhas” (1979), com Pelé, o Rei do Futebol.
Anselmo Duarte recebeu a Palma de Ouro no dia 23 de maio de 1962, data que completou 62 anos na última quinta-feira (23). Uma década mais tarde, ele retornou a Cannes em 1971, não como concorrente, e sim como jurado. Ele formou o júri ao lado de cineastas como o italiano Sérgio Leone, maior ícone do gênero conhecido como western (faroeste) spaghetti. Anselmo também participou da 50ª edição do Festival de Cannes, em 1997, quando foi um dos homenageados.
Visitas a Campinas nos anos 90
Na década de 90, após se aposentar das câmeras e voltar a morar em Salto, Anselmo Duarte teve duas passagens marcantes pela cidade de Campinas, localizada a apenas 50 km de sua terra natal. Em 1992, na época da celebração dos 30 anos da conquista da Palma de Ouro, o cineasta deu uma verdadeira aula de cinema aos estudantes de Comunicação da PUC-Campinas.
Três anos depois, em 1995, Anselmo Duarte esteve em Campinas novamente e aproveitou para saborear as deliciosas massas da Cantina Fellini, localizada no bairro nobre do Cambuí. Deixou sua assinatura na parede, desenhou uma câmera cinematográfica e escreveu: “Fellini deu-nos uma doce vida”. A visita aconteceu no dia 18 de maio de 1995 e coincidiu com a semana do início do Festival de Cannes.
Inaugurado em 1988, o tradicional restaurante italiano de Campinas se notabilizou como um reduto de artistas famosos que vêm à cidade. O local funciona até hoje no mesmo ponto: Avenida Avenida Coronel Silva Telles, número 514.


Entre todos os figurões que já passaram pela Cantina Fellini, Anselmo Duarte talvez tenha sido o único que chegou a conhecer pessoalmente Federico Fellini, o homem que batizou e inspirou o restaurante. Além disso, ele se tornou amigo do célebre diretor italiano após a conquista da Palma de Ouro.
“Quem me deu uma rara demonstração de grandeza foi Federico Fellini. Ele foi o único concorrente que me cumprimentou pela vitória. Já admirava Fellini como artista. Passei a admirá-lo também como homem. Na saída do Palais, depois de me abraçar, ele perguntou se eu havia achado difícil a disputa com todos aqueles mestres. Disse que não e ele me respondeu, naquele jeito expansivo que o caracterizava: ‘Bravo! O difícil será ganhar pela segunda vez. Prepare-se, porque você será tão malhado, a partir de agora, que parecerá estar regredindo, em tudo o que fizer’. Fellini nunca soube quanto foi profético”, detalha Anselmo Duarte, no livro “O Homem da Palma de Ouro”.
30 anos sem Fellini, mestre do cinema que inspirou cantina em Campinas; conheça história
“Voltei a encontrá-lo no estúdio em que ele filmava ‘Roma de Fellini’, em 1972. Estava na Itália, resolvi visitar Cinecittà. E aí fui levado ao célebre estúdio número 5, que era o dele. Fellini interrompeu a cena que filmava e me apresentou à equipe. Disse que eu era o homem que havia vencido os maiores diretores da Itália. Na verdade, fez o gesto para dizer que eu havia ‘fodido’ com todos. Depois, me convidou para jantar. Tinha aquela generosidade dos maiores, que não temem a concorrência e não precisam diminuir ninguém para ficar no pedestal deles”, descreve Anselmo.
Anselmo Duarte nasceu no dia 21 de abril de 1920, mesmo ano em que Federico Fellini veio ao mundo, só que três meses antes, no dia 20 de janeiro de 1920. Contemporâneos, os dois faturaram a Palma de Ouro em um intervalo de apenas dois anos, no início dos anos 60. Fellini venceu em 1960, por “A Doce Vida”, enquanto Duarte foi laureado em 1962, pelo filme “O Pagador de Promessas”.
Em 1960, enquanto passava uma temporada de dois anos na Europa, Anselmo Duarte acompanhou pela primeira vez o Festival de Cannes e testemunhou de perto a vitória de Fellini. “Foi um ano importantíssimo de Cannes. Federico Fellini ganhou a Palma de Ouro com ‘A Doce Vida’ e Michelangelo Antonioni recebeu o prêmio da crítica por ‘A Aventura’. Era o auge do cinema italiano na fase posterior ao Neorrealismo e ‘A Doce Vida’ ia virar um marco do cinema. Fellini teve sensibilidade e visão para antecipar as mudanças de comportamentos que começavam a ocorrer, em todo o mundo”, destacou Anselmo Duarte.

Festival Anselmo Duarte
Anselmo Duarte morreu no dia 7 de novembro de 2009, aos 89 anos, em São Paulo, vítima de complicações decorrentes de um AVC. Naquele mesmo ano, em sua homenagem, a Prefeitura de Salto inaugurou o Centro de Educação e Cultura Anselmo Duarte, um grandioso prédio onde se encontra a Sala Palma de Ouro, teatro com capacidade para quase 500 pessoas e estrutura para receber atrações de nível mundial.
Desde 2022, a Sala Palma de Ouro sedia o Festival Internacional de Cinema Anselmo Duarte, que seleciona e premia releituras em 90 segundos de filmes dirigidos pelo lendário cineasta saltense. A cerimônia de premiação acontece sempre no dia 21 de abril, data do aniversário de Anselmo Duarte.












