Seria mesmo muitíssimo importante e decisivo que nós, seres humanos, conseguíssemos nos vincular de modo mais conciso e afetuoso.
Sempre procurando matérias diversas que debatam essa possibilidade, neste março de 2024, felizmente, encontrei várias mídias comentando sobre obra do carioca Marcelo Gleiser (1959 – ) e seu livro recente: “O Despertar do Universo Consciente – um manifesto para o futuro da humanidade”.
O autor é físico, astrônomo, cientista premiado, professor nos EUA e escritor. A proposta dele é essencial e interessante para nós, os habitantes da Terra, e para ela mesma.
O livro mostra como necessitamos de uma nova organização de nossas potencialidades, planejando e atuando para cuidar da Terra e de nós, configurando a enorme importância de elaborarmos uma “tribo humana”.
Seria mesmo ótimo que pudéssemos aproveitar tudo o que houve de bom e útil na experiência selvagem e aprimorá-la através de uma atualização dinâmica e funcional.
Gleiser mostra que os indígenas se serviam da Terra e a respeitavam com certa devoção sagrada. Não no sentido religioso, mas através de um profundo e espontâneo respeito interativo. A tribo humana de hoje, para funcionar adequadamente, teria que “ressacralizar” o planeta que está agredido e abusado.
Deslocando a Terra do suposto centro do universo para a sua condição real de pequeno planeta, no século 16, o polonês Nicolau Copérnico (1473 – 1543) impôs uma modéstia ao ego do terráqueo.
No século seguinte, o inglês Isaac Newton (1643 – 1727) revolucionou o mundo da Física com a Lei da Gravitação Universal.
Descobertas inovadoras, impactantes, vão abrindo as almas e questionando as mentes. O livro sequencia esses eventos históricos.
Muitas iniciativas semelhantes são necessárias para que assumamos e controlemos a vaidade, a pretensão e os medos subjacentes que ainda nos dominam.
A gravidade é a grande força unificadora universal, ela mantém a estabilidade dinâmica das galáxias. Será que conseguiríamos um equivalente humano? Uma nova coesão de almas e mentes, uma gravidade amorosa para reconstrução da Terra e da nossa vida?
A tribo humana consolidar-se-ia na nossa pequena dimensão microcósmica como os astros se sustentam no astronômico macrocosmo?
A boa “tribo humana” do Gleiser seria a consequência desejada dessa evolução. Combinaria lições primitivas e as atualizações contemporâneas, edificando o nosso universo e estudando adaptações aos multiversos e metaversos.
Para essa superação de anseios ególatras e temores básicos, precisamos mergulhar cada vez mais na ciência e na natureza.
O nosso autor escreve: “… quanto mais os humanos aprendem sobre o mundo natural e sobre como usar seus recursos, menos espaço existe para a crença em poderes sobrenaturais”. E acresce: “… a inovação essencial aqui é a ausência de qualquer tipo de intervenção divina como princípio operacional por trás da ordem natural…”.
Temos a enfrentar uma gravidade emocional de força poderosíssima. A maioria dos humanos tem fé religiosa, acredita em um deus monoteísta. E se essa gravidade limitante for insuperável? Falando como médico: E se for uma doença muito grave, de “gravidade” incurável?
A gravitação boa e necessária para a tribo humana seria o amor – acho que isso é de senso comum.
Um grande construtor da conexão amorosa foi Jesus Cristo. Seria possível aproveitarmos isso sem levar em conta o sobrenatural, de modo paralelo à fé em Deus? Uma conexão amorosa sem religião…
Precisaríamos de um Newton amoroso, revelador da nossa capacidade (ou incapacidade) de nos conectar como tribo humana.
O Gleiser pode ser um pré-newtoniano amoroso, ainda que traga algum exagero otimista e utópico. Ele sugere: “… uma realidade física que nos convida a engajar no mistério da existência … nos conectar com o sublime … onde a natureza é o templo que a todos acolhe, onde nos prostramos com humildade e gratidão”.
Temos que seguir tentando, em algum momento será possível conectar a tribo humana. Uma tribo humana espiritualmente muito vigorosa, mas com “espiritualidade secular” (Gleiser).
O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951) indica: “Filosofar é como tentar descobrir o segredo de um cofre. Cada pequeno ajuste no mecanismo parece levar a nada. Apenas quando tudo entra no lugar, a porta se abre”.
As aberturas têm um panorama de encantamento, lembra sempre o “Abre-te, sésamo”. Aqui, no entanto, temos a necessidade de escancarar a realidade, aprimorando o afeto aglutinador humano, desenvolvido sem a influência do amor divino, dentro do natural e liberado do sobrenatural.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.












