Este artigo surgiu nos movimentos da rede social do GEA (Grupo de Estudos do Amor) de Campinas. O GEA, desde 2000, promove atividades presenciais e virtuais, com eventos e debates sobre o nosso mais nobre sentimento. Comentando um texto de Motta, Seccarelli fez uma observação que instigou a sequência que mostraremos hoje.
Observam-se em vários lugares, especialmente em clínicas e hospitais, frases que tentam distinguir a ciência e a crença. As mais comuns são: “Ciência – ver para crer” e “Fé – crer sem ver”. Parece simples, direto e objetivo reparar nessa distinção. A ciência exige que o fato seja visto, objetivo, demonstrado e repetido. A fé demanda subjetividade, uma inclinação espiritual para se acreditar no fato imaginado.
No entanto, surge a instigação: “Fé – crer para ver”.
A partir daí, o contexto se complica bastante, amplificando as dimensões do que se vê e do que se acredita. Isto é, poderia até indicar que se não for pela fé, nada se verá. De repente, nem o pesquisador descrente enxergará a ciência se não tiver fé…
Secarelli procura mostrar que o “crer para ver” é uma modalidade que poucos conseguem perceber e aplicar, pois a maioria precisa seguir a ordem objetiva. Então, as pessoas primeiro querem ver para depois crer e, muitas vezes, não acreditam, mesmo depois de verem. Além disso, continuam negando tudo o que não seja visível ou palpável. Ainda pela perspectiva da coautora, muitas coisas acontecem independentemente de crenças e ciências.
Motta insiste que a ciência deve ter mesmo sua posição crítica e metodológica. O ato científico deve ser demonstrável em qualquer de suas reprises experimentais.
Ele é sempre igual, estável e repetível. Na outra ponta, recordemos do ato artístico, que é único e irrepetível. Uma cantata apresentada pela Sinfônica de Campinas será sempre diferente da mesma peça tocada em Bruxelas ou Tóquio. Um quadro pintado por Rafael pode ser transformado em gravuras, mas nenhuma cópia será como o original.
Portanto, a ciência confirma-se em fatos reprisáveis. A arte é única, apenas parcialmente copiável.
Em extensão curiosa e desafiante, o coautor aponta que a fé é uma arte ilusória que se permite crédito quase científico. Por exemplo: a ideia de Deus é uma obra-prima da arte humana que a fé ilumina como ciência.
Seccarelli instiga com outro aspecto curioso e aparentemente contraditório: existe também a fé cega! Como o próprio nome indica, a fé cega aceita tudo sem verificação, misturando o falso e o verdadeiro, chocando-se com as evidências e a razão.
Alguns religiosos, especialmente espíritas, indicam os prejuízos de se permanecer na crença cega, propondo uma saída: a fé raciocinada. A fé raciocinada permitir-se-ia guiar pela lógica, tentando não rejeitar a razão e prender-se à verdade, não compactuando com a mentira. Os volteios desses conceitos e seus limites são confusos, contraditórios, com fronteiras nebulosas.
Outro argumento religioso interessante é discriminar a ciência e a crença por compreensões concretas e abstratas. Assim, a primeira permaneceria no mundo material; e a segunda, no mundo moral. Se essa distinção fosse exequível, a crença jamais se intrometeria no contexto material.
No entanto, as crenças religiosas vivem caindo em contradições, misturando o contexto real com o imaginário.
Elas teimam, insistem, que têm verdadeiras comprovações de fenômenos mediúnicos, da execução de milagres e da existência de Deus.
A fé religiosa defende-se argumentando que é restrita ao universo abstrato, moral, mas frequentemente os fiéis alardeiam que são capazes de um reconhecimento concreto, com provas materiais…
Esperamos que o leitor possa se aproveitar das provocações do texto, questionando seus conceitos e valores de modo sadio e crítico.
♦ Elisabeth Seccarelli é advogada e mestre em PNL.
♦ Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











